terça-feira, 10 de março de 2015

Família é dar colo e caldos. Sem ser de galinha.



Um dos meus tios ficou doente em Fevereiro.  Muito doente. Tão doente que eu pensei que ele ia morrer.
Quando o visitei no S.O. no dia em que foi internado saí de lá com um nó na garganta tão grande que quase não conseguia respirar, como acontecia com ele. Tive medo que ele morresse e pena que ele morresse.
O meu tio é alcóolico e fuma há 44 anos. Desde os 12. Naquela cama de S.O., magro e com uma cor bacienta, fazia-me lembrar os judeus nos campos de concentração: o mesmo ar esquálido e doente, o mesmo olhar vazio, o mesmo ar de aflição extrema, de espera da senha para ser atendido pela morte.
Sempre adorei o meu tio mas na maioria das vezes odiei-o. Viver com o álcóol no lugar dele foi, provavelmente, um dos piores pesadelos da minha vida, assistindo à minha avó suspirar, ralada por não saber a que horas ele chegaria a casa, em que estado chegaria a casa ou se, realmente, chegaria a casa.
Este é o meu tio preferido, padrinho e a pessoa que me levava muitas vezes às cavalitas na infância na estrada cheia de erva azeda a caminho de casa. Este foi o tio que me tentou converter ao Benfica a vida toda, subornando e oferecendo-me equipamentos vários. O tio que mais brincava comigo, que mais alinhava nas brincadeiras. O que, pré-adolescente, me levou à festa do Avante pela primeira vez. O que, na adolescência, me aparou golpes.
Sendo o meu tio preferido odiei-o a maior parte do tempo em que nos conhecemos. Gostava do meu tio tanto quanto odiava o álcóol que ele escolhia e que tanto nos assombrava a todos.
O meu tio esteve na anteâmara da morte há umas semanas, doente dos pulmões, do fígado, do coração. Não conseguia respirar e eu só queria poder dar-lhe um pulmão, sangue, juízo com retroactivos e capacidade de voltar atrás e fazer diferente.
Melhorou, o meu tio. A família tem uma genética poderosa, caraças. E eu só desejo que mantenha o álcóol e o tabaco por longe, como aconteceu no último mês. Porque mesmo que não vá a tempo vai sempre a tempo. Nem que seja para ter um final- ainda que final. feliz.
Teve alta ontem, ainda cheio de restrições e de cuidados de vigilância. Saí do trabalho e corri lá para casa, ansiosa por ler a nota de alta e verificar os compimidos prescritos, por lhe dar colo e caldos. No cachaço.

1 comentário:

K disse...

As melhoras dele e muitos beijinhos para ti!

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