domingo, 29 de março de 2015

Nunca poderia ser professora universitária

Cheguei atrasada. Olhei para eles todos e identifiquei-me com eles. Sentir-me-ia mais na minha praia sentada ali nas cadeiras das carteiras ao invés de no palanque. Não sabia bem o que dizer. Apresentei-me e quando o primeiro me chamou de "professora" corrigi-o e relembrei-o do meu nome: Liliana. 
Falei do meu percurso académico e de como nunca me arrependi, um segundo sequer, de ter seguido Psicologia. "Spoilei" uma data de coisas que eles só deveriam descobrir no futuro: que não mudamos o Mundo, que nem toda a gente quer mudar, que nem toda a gente é recuperável, que a mudança social nem sempre é possível e que, às vezes, muitas vezes, ser psicólogo é muito, imensamente, ingrato. Especialmente quando cabeleireiras e taxistas confidenciam-nos que também "são assim um bocadinho psicólogos dos clientes", quando pensam que lemos mentes e somos telepáticos, quando confundem psicologia com astrologia e quando, no fim do mês, olhamos para o recibo do salário. Contei a célebre anedota da lâmpada e dos psicólogos. Disse alguns disparates. Preparei uma aula para metade do tempo que me tinham destinado. Improvisei. Mandei-os ir fumar ao intervalo. Desconstruí montes das ideias que me apresentavam. Detectei três alunas que liam o "Quadripolaridades" e disse alto que lhes ia dar melhor nota. Consegui não dizer palavrões. Apanhei pronúncia do Norte passadas três horas. Fiquei nervosa. Conheci um casal igual a mim e a mámen mas com pronuncia do Norte. Fiquei com pena que morassem a 300 km de distância. Seriamos amigos fácil, fácil. Voltei à sala de aula. Falei-lhes de pessoas, de nomes, de gente em vez de casos abstractos, números e estatísticas. Fiz cara de vómito quando falei no SPSS. Tratei-os a todos por tu. Pedi-lhes que me tratassem da mesma forma. Detectei uma aluna que era igual a mim há dez anos. Prevejo-lhe um futuro quadripolar. Ofereci boleia para o centro do Porto a outro aluno. Apeteceu-me trazer meia dúzia para trabalharem comigo no projecto que fui apresentar. Tenho medo que tenham achado uma seca. Gostava que a minha causa os tivesse tocado. Percebi que não tenho jeito para ser professora universitária. Ainda assim bateram-me palmas no fim. Alguns vieram-me cumprimentar. Outros pediram-me o meu endereço de email. Fiquei sensibilizada. Apenas uma me escreveu. Aquela que era igual a mim, há 10 anos. Saí de coração cheio. 
Eu já... fui professora unversitária. Mesmo que apenas por um dia. Um dia, extraordinariamente, bom. 

4 comentários:

IM (misspipetaseviagens) disse...

Parabéns, se calhar até poderias. E se calhar era disso que muitas 'cadeiras' precisavam.

Maria Pinto disse...

Acho-te sempre tão pés na terra. Tão pão do meu pão. Tão Cá da terra (como se diz aqui no norte): Que talvez fosse de mais pessoas como tu que tantos dos que ali chegam precisem...
Parabéns ;)

A Menina disse...

Mas como é que a Ursa vai à melhor academia do planeta e ninguém avisa nada? Como? Porque é que não estou a frequentar a licenciatura agora????!! Adorava ter estado sentada numa cadeira a assistir. Parabéns Ursa, de certeza que estiveste à altura do convite que te foi feito, até acho que sei quem te convidou, hummmm. ;)

O Psi das coisas disse...

Poderias ser sim!

um beijinho
Lia
http://opsidascoisas.blogspot.pt/

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