terça-feira, 24 de março de 2015

Perder poesia

"a última bilha de gás durou dois meses e três dias,
com o gás dos últimos dias podia ter-me suicidado,
mas eis que se foram os três dias e estou aqui
e só tenho a dizer que não sei como arranjar dinheiro para outra
[bilha,
se vendessem o gás a retalho comprava apenas o gás da morte,
e mesmo assim tinha de comprá-lo fiado,
não sei o que vai ser da minha vida,
tão cara, Deus meu, que está a morte,
porque já me não fiam nada onde comprava tudo,
mesmo coisas rápidas,
se eu fosse judeu e se com um pouco de jeito isto por aqui acabasse
[nazi,
já seria mais fácil,
como diria o outro: a minha vida longa por muito pouco,
uma bilha de gás,
a minha vida quotidiana e a eternidade que já ouvi dizer que a
[habita e move,
não me queixo de nada no mundo senão do preço das bilhas de gás,
ou então de já mas não venderem fiado
e a pagar um dia a conta toda por junto:
corpo e alma e bilhas de gás na eternidade
- e dizem-me que há tanto gás por esse mundo fora,
países inteiros cheios de gás por baixo!


(in A Morte sem Mestre; ed. Porto Editora, 2014)"


Li, seguramente, não mais que 20 poemas de Herberto Helder. Todos antes de nos separarmos, em 2004, num final infeliz. Fora ele que mo apresentara, sete anos antes, numa carta escrita a mão, com caneta preta de ponta fina, as que ele usava em exclusivo. 
Não sabíamos que nunca mais iríamos ser amigos, traídos pela traição da pele, do corpo, do âmago, do desejo. Achámos (achei) que iria passar, como se depois de passarmos por uma estrada de terra batida, com flores nas bermas, pudéssemos esquecer tudo com uma marcha atrás, de novo na auto-estrada, foco na meta e não no caminho. As marchas atrás não resolvem nada na vida, na paisagem que guardámos nos olhos, nas flores que fotografámos com os sorrisos. As marchas atrás não são poções de esquecimento e foi esse o nosso maior erro, não sei se nos desviarmos da via rápida, se experimentarmos o caminho tumultuoso e colorido da terra batida, se a maldita marcha-atrás. 
Sei que nunca mais li Herberto Helder. Nem sequer poesia. 
Hoje morreu o (teu) poeta e eu fico triste ao lembrar-me da tua letra, lá longe, a desenhar palavras dele só para mim, erva azeda na minha memória. 
Memória inteira cheia de gás por baixo. 

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