sexta-feira, 20 de março de 2015

Quando os filhos (e o pai que escolhemos para eles) nos fazem fazer as pazes com o passado

Vim ao Porto em trabalho.
Não estou a passar o Dia do Pai com o pai que eu escolhi para a minha filha, o melhor do Mundo. Não me importo. O mais fantástico de tudo, de ter escolhido o melhor pai do Mundo para a minha filha, é esta paz de a saber com ele da mesma forma feliz e segura de quando está comigo.
Vim ao Porto em trabalho e ficaram em Lisboa, sem mim. Hoje devem dormir no sofá, transgressão que só acontece na minha ausência. Não me importo.
Alivia-me saber-me externa à relação deles, co-existir ali uma bolha para além de mim, um lugar que é só dele e dela, códigos comuns, linguagem comum, colo que ela procura em determinadas situações, para descansar quando andamos muito e ela sabe que as minhas costas não perdoam, mãos que ela procura para brincar, para lhe fazer cócegas, voz que procura para encenar histórias antes de dormir,  olhos que ela procura para tentar safar-se quando eu tenho que ser mais rígida. Gosto de os saber externos a mim, relação bilateral, num espaço em que, muitaz vezes, não quero entrar, outras não me deixam. Deve ser isto a relação de pai e filha, este misto de brincadeira e doçura, gargalhadas e colo, segurança.
Existe também um bolha só nossa: minha e da Ana, interdita ao pai, situações em que não tolera mais ninguém que não a mim, o colo para adormecer, a curva do meu pescoço quando está doente, o beijinho mágico que só eu dou quando faz doi-dóis, o aconchego quando quer descansar e ver televisao, a minha mão a segurar minutos intermináveis o projector de estrelas no tecto para dormir sob as estrelas.
Nenhum de nós é mais valioso para a Ana que o outro. Ela ama--nos de igual forma, com as nossas diferenças, com o que cada um de nós tem de melhor para lhe dar, procurando-nos em situações distintas mas sabendo-nos, ali, os dois para ela, sempre.
E eu que a partir de determinada altura me convenci que não precisava do meu pai para nada, que a minha mãe tinha desempenhado magistralmente o papel de pai e mãe (beijinhos, mãe, és a maior!), que o meu avô tinha exercido o papel masculino durante o meu crescimento penso agora de outra forma. De facto, eu não precisei do meu pai. Não daquele. Mas a minha vida teria sido muito melhor se tivesse tido um pai. Um a sério. Como aquele que escolhi para a minha filha.
O melhor pai do Mundo. O que me fez fazer as pazes com a filha que fui, com a filha que gostava de ter sido, com o passado.
Acreditando que o futuro pode ser tremendamente mais feliz. Mesmo que, por vezes, com uma certa ciumeira... ;)
 
Feliz Dia do Pai, meu amor! Obrigada.

2 comentários:

Sofia Ferreira disse...

Entendo tão bem as tuas palavras!!
Tb estou na Inbicta! ;)

cantinho disse...

:)

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