terça-feira, 17 de março de 2015

Um advogado vale mais que um sociólogo?

"Como toda a gente que tira uma licenciatura em sociologia fui para o desemprego no final do curso. O desemprego para um jovem sociólogo é uma espécie de estágio no mundo real que as universidades não precisam de prever nos seus currículos porque a própria sociedade toma esse desígnio em mãos. Este estágio de desemprego é fundamental para o jovem sociólogo. Para poder no futuro analisar os pobres e os oprimidos ele precisa de sentir no osso as privações e agruras do capitalismo selvagem. Foi o que me aconteceu de forma particularmente aguda. Regressado à casa dos meus pais, era acordado todos dias às sete e tal da matina, enquanto eles se despachavam para o trabalho. Despertadores, água a correr, secadores do cabelo, talheres, chaves a tilintar. Um Vietnam diário à porta do quarto. Como se imagina, depois desta agressão matinal era muito raro conseguir dormir até depois das duas da tarde. Mas pior do que os maus tratos que sofria na parte da manhã era a ofensiva moralista constante de que era vítima.
Como qualquer pessoa insegura, sinto-me atraído por fortalezas nominais de prestígio social. A categoria profissional ou académica é uma delas. O curso de direito foi uma demanda pelo reconhecimento social. A palavra jurista é autoexplicativa. As pessoas podem não ter uma opinião muito favorável dos juristas, mas sabem mais ou menos o que fazem. Sempre existiram juristas no mundo, tal como sempre existiram médicos. A necessidade de tratar as doenças físicas e relacionais são imanentes à história da humanidade. O jurista é o médico que previne e trata as doenças que resultam do relacionamento conspurcante entre as pessoas. Mas nem tudo são rosas. O principal problema de se ser jurista é que as pessoas têm a expectativa que os juristas tenham conhecimentos jurídicos. Um raciocínio linear e despropositado com o qual não contava. Pensava que o canudo me dava um subsídio de prestígio para o resto da vida, mas afinal a coisa não é assim tão simples.
Devido à multiplicação deste tipo de situações ao longo dos anos e às denúncias de impostura que foram circulando entre a minha rede de conhecimentos, fui perdendo o direito a integrar na minha identidade social o título de jurista. Amigos e família são terra queimada onde as sementes do meu prestígio deixaram de crescer. Nesse terreno sou erva daninha. Cabecinha debaixo de água, menino Frederico, que isto de reclamar um estatuto profissional implica saber mesmo do ofício. Mesmo quando tento angariar prestígio junto de recém-conhecidos, a família, os amigos e a minha desqualificação jurídica acabam sempre por me apunhalar. Sem direito ao prestígio de que gozam os que sabem de direito, abdiquei desse pergaminho. Usei todas as manigâncias para me agarrar aos andares do topo do prestígio social, mas os últimos dedos têm vindo a ceder perante os coices da sociedade. Parece que vou ter de começar a dizer outra vez que sou sociólogo. Ninguém sabe o que é isso, mas ao menos não me chateiam."
 

1 comentário:

Ana disse...

Eu sou socióloga há 20 e tal anos e estou no desemprego agora, mas como muitos outros. Quando acabei o curso arranjei logo emprego e continuei a arranjar, não era por ser socióloga que não conseguia. Até porque dominamos uma série de ferramentas informáticas que são super úteis. E não é verdade que ninguém saiba quem é sociólogo! Só há muitos anos isso acontecia, agora não.
Fiquei desempregada porque voltei à universidade para trabalhar em investigação e aquela porcaria agora é só com bolsas que paga. E entre bolsas e fazer o que gosto, ou contrato e fazer o que não gosto, com a idade que tenho prefiro a segunda opção...

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