segunda-feira, 6 de abril de 2015

Mãegver: "A coleccionadora de passado"

Perguntam-me porque a levo connosco. Que é pequena, que podíamos aproveitar para namorarmos só os dois, que ela não se vai lembrar de nada daqui a dois ou três anos, que lhe é indiferente ir ou ficar com a avó ou a tia. Não é. Quero que ela viva tudo, mesmo que um dia não se lembre.
Perguntam-me porque não tiro mais fotografias, porque me esqueço do carregador da máquina fotográfica, porque desprezo os telemóveis e os tenho sempre sem carga, que podia registar tudinho para mais tarde recordar, fotografias de comida para mostrar, de pôres do sol para postar, que é tão mais fácil agora com telemóveis com câmaras incorporadas. Não é. Quero registar tudo a sentir mais do que a clicar.
Perguntam-me porque compro coisas démode: cestos folclóricos, terços de pinhões, brinquedos artesanais de madeira, que o passado já lá vai.
Acho que porque, muitos anos depois tornei-me, talvez, o velho do restelo. O único velho do restelo perante gente com visão, futuristas iluminados, iPeople, pessoas com bytes por dentro, instagente.
Acredito na vida mais que nas memórias que possamos ter da vida. Mas só concebo as memórias através da vida, sinestesias.
Fotografo a Ana com medo que um dia o cérebro me falhe, a memória me atraiçoe, a velhice e os neurónios me façam reset às lembranças. Tenho medo desse dia mais do que de tudo o resto: da velhice, da doença ou da morte.
Mas às vezes (quase sempre) olho com olhos bem arregalados para ela, como se quisesse copiar em papel químico para a minha memória os pequenos trejeitos, o brilho nos olhos, os gestos de menina bebé, a infância às cores. Arco-íris de vida. Sem aparelhos digitais nem analógicos: com a força da minha retina.
Outras vezes cheiro-a, a sair do banho, cheirinho a caramelo, a minha filha cheira a caramelo- juro!.Outras fecho os olhos e escuto-lhe a voz, rouca, palavras perfeitas de tão imperfeitas que ainda são. Quando tudo se esgota beijo-a, dou-lhe beijos salgados como a sua pele, lambuzo-a e aperto-a, sinto-lhe o calor, a energia só dela. Reconheceria a Ana num quarto escuro, sem toques nem sons, sem imagens nem sabores. Sinto-a onde quer que ela esteja.
Tenho medo que um dia a vida me retire esta capacidade de recordar. Tenho muito medo. Um medo imenso.
Logo, a minha vontade de reunir pedaços do passado explica-se.
Tenho a sensação (que é quase uma evidência, diga-se) que algumas pessoas olharam demasiado para a frente, esquecendo tudo, esquecendo o passado. Eu não sou uma pessoa prática porque tento sempre ver para além do visto. Deformação académica ou não, não acredito que se possa dar sem ter. Não acredito que se possa olhar em frente sem olhar, metodicamente, para trás (mesmo estando no terreno). O caminho faz-se caminhando, mas se não olharmos para trás perdemos a esperança - e aqui falo única e simplesmente por mim.
Dizem que existe uma probabilidade para sessenta e quatro milhões de acertarmos na chave do Euromilhões. Eu penso que a probabilidade de sermos banhados duas vezes pela mesma água do rio que atravessemos é igualmente pequena. E nada disto, nada do que vivenciámos e vivemos agora, neste preciso momento, neste preciso segundo, se repetirá...
Por isso compro cestos de palha que me lembram um passado do qual não tenho memória mas sei que têm que ver com a minha avó e as idas ao mercado. Quero ter memória da água, trinta anos depois, debaixo da mesma ponte.  Não tenho lembranças mas sei que o cesto- igual ao que comprei para a Ana no último fim-de-semana- está carregado dessa energia boa, de quando as memórias nos falham mas os sentidos nos alertam que aquela cor, aquele sabor, aquele cheiro fazem parte de pedaços inacessíveis das lembranças, no entanto, sendo claro como água de que constituem testemunhos de uma alegria sem fim.
Comprei um colar de pinhões e apeteceu-me chorar de saudade da minha avó e de alegria por tê-la tido a ela, pela vida ma ter oferecido a mim, aquela avó que me dava colares de pinhões. Não me peçam uma memória concreta mas o peso ténue do colar ao peito, o sabor dos pequeninos pinhões a brincarem-me entre os lábios e os dentes, trouxeram ao de cima uma alegria com lágrimas sem fim.
Comprei um para a Ana, talvez um dia ela não se lembre que foi no mercado das Caldas da Rainha e de como estávamos felizes os três num domingo de Páscoa nem que estava sol e ela trazia uma laranja no cesto e um chapéu lindo, lindo na cabeça. Talvez não encontre estas fotografias nem estas palavras sobrevivam aos novos bytes e gigas e se percam as memórias físicas que eu deveria preservar mais.
Mas gostava muito que assim que ela pousasse os olhos num colar igual, daqui a muitos anos- quando eu já não estiver cá para a lembrar.  sentisse o coração cheio de amor de um passado que, mais do que memória, precisa de vida vivida. E daquele sabor a pinhão.


8 comentários:

Nina Nininha disse...

Não ligues! Diziam o mesmo à minha mãe e a verdade é que adoro ver os álbuns com as fotografias que "contam" a minha infância, relembram pequenos momentos e mantêm vivas recordações. Já para não falar do meu “cestinho folclórico”, que guardo com muito carinho desde dos meus 3 anos … está velhinhos, mas repleto de memórias.

Momentos em Cápsulas

Anna disse...

Olá ursa,
enquanto lia este texto, tocava por trás Jealous de Labrinth, e achei perfeito. O texto, como te sentes em relação à tua Ana. Espero vir a sentir o mesmo que sentes pela tua Ana, por um pequeno humano meu.
Estás a vivê-la bem.

Domina Maris disse...

Conheço o sabor desses pinhões, do mercado das Caldas da Rainha, pela a palma da mão da minha mãe (que também já está cá para comprovar as memórias que tão bem guardo com o paladar do pinhão) e alegria com lágrimas sem fim foi muito semelhante ao que descreveste! Adorei! Obrigada :)

Agnes disse...

As memórias ficam sempre connosco, mesmo quando às vezes achamos que não. Dou por mim a lembrar-me de coisas de quando ainda não "construía memórias" por ser muito nova, ou pelo menos menos assim o diziam. E é tão bom!

Fábia Suzano Pinto disse...

Juro que me vieram as lágrimas aos olhos de saudade e de me rever.
Há muitos anos dediquei um domingo com o meu avô a legendar as fotos dele com ele... hoje sou a fiel depositária das lembranças fotográficas e das histórias por trás dessas imagens... e é tão bom!
Também tenho cestos de palha e almofadas com bordados estranhos ( não há colares de pinhões porque esses apanhava-os com a minha avó no pinheiro manso ao pé de casa). A casa da minha Teresa cheira a passado e a presente, tem memórias e sonhos e tem acima de tudo pessoas que neste futuro não esquecem o passado e vivem o presente. Gostei. Como sempre.

Solana disse...

Identifico-me a 100% com este texto.
Penso exactamente da mesma forma.

Um grande beijinho

Escrever Fotografar Sonhar disse...

Também eu tenho medo do esquecimento que a velhice pode trazer, que não há bites e bytes que guardem um cheiro, um abraço, um sentimento. Também dou por mim abraçada ao meu filhote de olhos fechados, a tentar guardar aquele momento num cantinho do cérebro onde não se perca.

As minhas africanisses disse...

ohhh eu tive um chapeu e um cesto como o da Ana. Tive mesmo. O meu cesto rasgou de lado.
Tive um filho, por isso não passo quase nada para ele. isso e porque vivemos em moçambique e as tradições são poucas.
não tem as coisas da mãe, mas tem as coisas do pai, os carros iguais!

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...