domingo, 19 de abril de 2015

Alice, a maior

"Tu deves ser tu". Foi assim que me senti quando entrei na sala e a vi. 
Em círculo (algumas) caras conhecidas, vizinhas de Bairro que voltaram para tomar chá, ouvir esta vizinha acabadinha de se mudar, cheia de histórias e experiências, memórias e gargalhadas. Mámen apanhara a Alice em casa, pediu desculpa pela desarrumação no carro, muito envergonhado, e ouviu um "Posso pôr os pés em cima do que está no chão, é essa a regra, não é? Tenho um filho que, por sua vez, tem filhos e cães: conheço as regras!". Suspirou de alívio: caraças, ela só podia ser ela, sem salamaleques nem cerimónias, de calças de ganga e dedos cheios das palavras que viram crescer todos os que ali estavam para a conhecer.
Foi uma manhã com algumas regras impostas pela Alice: nada de tratamentos por "Dona", nada de adjectivos, reticências nem pontos de exclamação. 
Para nós não foi uma manhã. Foi A manhã. A manhã em que a Vera não pode assistir à tertúlia mas foi deixar um cabaz para a avó e para o menino, A manhã em que a Paula deu saltinhos quando viu a Alice chegar no carro,  foi A manhã em que a vizinha do andar de cima viu a Alice pela janela e desceu para lhe pedir um autógrafo em livros que a jornalista trouxe para vender e cujas receitas reverteram a favor do Bairro do Amor, foi A manhã em que a Di recuperou os autógrafos há muito esperados, foi A manhã em que o Rui reclamou que os livros são demasiado urbanos e que para um açoriano adolescente no início dos anos 90 era difícil imaginar porque é que as pessoas comiam bolos em pastelarias em vez de uma fatia de bolo em casa logo de manhã, foi A manhã em que a Sandra mostrou ao vivo aos três filhos de que fibra e paixão é feita uma escritora, foi A manhã em que a Vera A. descobriu que partilha a terra com a Alice, foi A manhã em que a Patrícia tomou conta das crianças do Bairro, foi A manhã em que a Cristina contou a história do avô que lhe deixou uma biblioteca de herança, foi A manhã em que a Maria João deu a provar o seu bolo de laranja à Alice Vieira e nos presenteou com o plural que se tornou desde o último encontro, foi A manhã em que a Marta deu um autógrafo ao ídolo de todos nós e foi A manhã em que eu pensava que ia conhecer, finalmente, a Alice Vieira. 
Só que, afinal, não foi. Foi A manhã em que a reconheci. 
Porque, no fim de contas, ela só podia ser ela. E é.









Conhecer o teu ídolo de infância

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...