domingo, 5 de abril de 2015

Desta vez foi na Páscoa

Volta e meia preciso de fazer detox à alma. Beber sumos verdes para a mente e alimentar o coração, o mais íntimo de mim, de água aquecida com limão. Desintoxicar dos relógios que perseguem os dias, dos calendários que engolem os meses, dos espaços comuns que já não me deixam ver com olhos de ver, só olhar como quem não consegue pousar a atenção no que importa. 
Não o consigo fazer em casa: há loiça para lavar, brinquedos no chão para apanhar, canais de televisao que chamam por ela, o maldito cesto da roupa suja a que nunca chego a ver o fundo. Há a vida, aquilo a que chamam vida- eu também- as obrigações, as tarefas, as responsabilidades e os afazeres, a culpa de me deitar no sofá com tanto que há para fazer, como se os dias passassem de validade e os tivéssemos de consumir antes que azedem. 
Às vezes é preciso sair dos locais, dos tempos, das rotinas e de perto das pessoas de todos os dias, da vizinha que estende, todos os dias, à mesma hora, a roupa na corda da janela em frente à nossa varanda, fugir do barulho do tambor da máquina de lavar que tem que ser arranjado, da torneira que pinga, da humidade no tecto do quarto e da lembrança inquieta que, com a chegada da Primavera, já não temos desculpa para adiar pintá-lo, do toque previsível da campainha, da caixa do correio inundada de catálogos cheios de coisas que não interessam para nada, da wireless, do sofá que precisa de ser substituído mas que não temos dinheiro para trocar e agarrar nessa culpa toda, agarrá-la pelos cornos, e decidir trocar um padrão florido onde nos podemos sentar todos os dias a olhar a vida de sempre, sem a conseguirmos verdadeiramente olhar, por uns dias longe do nós de todos os dias. 
Sair de nós e regressar a nós sem artefactos, pés descalços, roupas que não combinam, comida que conforta, todos na mesma cama, colo até à exaustão, quebrar regras, lá fora as estrelas mais brilhantes, as vozes a fazerem eco e pirilampos de verdade a iluminarem os olhos da minha filha. 
Às vezes preciso de sair daqui, ir até lá, onde eu sou mais eu, onde nós somos mais nós, lá onde não há um nome de terra, lá, longe apenas, longe daqui e descobrir quem sou, quem não quero ser, o que quero e, sobretudo o que não quero, para voltar com a alma purificada, chamem-lhe detox ou qualquer nome new-age, não quero saber: respiro fundo e a minha alma vem oxigenada. 
Às vezes é preciso apenas sair, para longe, para podermos voltar (ainda) mais nós. 

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