segunda-feira, 20 de abril de 2015

Hoje fiquei com um nó na garganta

Fomos ter com a avó do menino. 
O Português da senhora é limitado: explicámos-lhe que uma série de pessoas boas se tinham juntado para pagar a prestação do ATL em atraso. Assim que ouviu a palavra pagar, interrompeu-nos com  com um semblante preocupado:"Hoje ainda não tenho dinheiro, senhor!" Voltámos a explicar que a dívida estava paga. Olhou-nos com um ar profundo "E como pago?" Voltámos a achar que não nos tinha entendido, reforçámos que já não havia nada a pagar, estava a dívida saldada. "Vou explicar melhor, senhor, e como pago a essas pessoas?".
A avó queria pagar-nos. E nós explicámos que não queríamos pagamento, só ajudar, dar um empurrão. Ela insistiu e propusemos que desse uma aula de História da Ucrânia um destes sábados no Bairro do Amor (a avó era professora de História no seu país de origem). Sorriu. E ela nunca sorri. 
Acrescentámos que a escritora de algumas das histórias do livro de Português do neto tinha mandado beijinhos e contribuído com a venda de livros. Olhou-nos de olhar incrédulo. Agradeceu. Agradeceu muito.
Antes de se ir embora convidámo-la a acompanhar-nos até ao carro: na bagageira estava o cabaz que a Vera tinha deixado para eles. Olhou para tantas coisas e, na presença do neto, que olhava com um ar incrédulo para o ovo kinder gigante que a pequena Maria lhe tinha cedido, agarrou no mesmo e estendeu-o a mamén: "para a vossa menina, para agradecer". 
Dissemos que não, que o ovo tinha sido mandado pela Maria para o menino. Baixou os olhos. Acho que quis esconder lágrimas. O último chocolate que ela lhe havera dado fora a única prenda de Natal que o menino recebera.
Afastaram-se a pé. Ela levava o saco pesado numa mão e o neto pela outra. Não quis ajuda para o transportar. Iam em silêncio. Acho que a processar tudo isto: a dívida paga, o cabaz com os alimentos, os livros assinados pela escritora e o ovo, que o menino levava com muito cuidado mas de forma firme, como se de um verdadeiro tesouro se tratasse.
E deixou-nos atrás. Com um verdadeiro nó na garganta e a certeza que é neste Bairro que queremos morar. 

13 comentários:

Frutinha disse...

Arrepiei-me todinha a ler isto. Sem duvida que pequenos gestos fazem fazem uma diferença tao grande na vida de algumas pessoas.

Madalena Cordeiro Aguiar disse...

Assim se faz a diferença...

Bicharocos Carpinteiros disse...

Obrigado à vizinhança.
É no nosso metro quadrado que se começa a mudar o mundo.

POPITA disse...

Acho lindo o que fazes!!! Um dia, certamente serás recompensada....sempre me ensinaram que quem faz o bem, recebe o bem!! Parabéns por esta linda forma de viver e ajudar....estou sem palavras! Um beijinho deste pedacinho do mar que tanto gostas!!! São Miguel ....limas é massa sovadas de bem haja!!!!

Rosinha Cruz disse...

As lágrimas teimaram em vir aos olhos...impossível ser de outra forma...vivessem vocês no norte!

Isabel Almeida disse...

Parabéns pelo trabalho que fazes! Muito bom!

Suspiro disse...

Fizeste-me chorar... Ainda bem que há pessoas assim como tu!

ATS disse...

Muito especial... fez-me chorar. Obrigada por ajudar!

Escrever Fotografar Sonhar disse...

Se eu estou para aqui a chorar como uma Madalena imagino quem la esteve...

raquel disse...

Pronto.
Lágrimas e mais lágrimas.
É isto que importa! É isto que vale a pena.
És a maior!!

Lili C. disse...

Sou leitora assídua e silenciosa. Hoje senti que tinha que escrever. Não me saiu muito mais do que já escreveste por isso só digo: um grande bem-haja para todos vós! Fazem-me agir. Também por isso eu digo obrigada.

Dina disse...

Fogo, deixaste me de lágrima no olho

Bruna disse...

Fónix, que as lágrimas rolaram cara abaixo. Isso não se faz... Ainda bem que existem pessoas como tu, que são efetivamente boas pessoas. Obrigada, de coração.

http://umamulhercomumblog.blogspot.pt/

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