terça-feira, 5 de maio de 2015

A minha filha sente saudades minhas todos os dias



E eu só de escrever o título deste post fico com um nó na garganta e vontade de chorar.
Passo, todos os dias, em média, 10 horas fora de casa em trabalho. Num trabalho que gosto muito,  imenso, tanto, que me realiza como profissional e como mulher. Se o Mundo fosse justo e a vida fosse fácil as 24 horas do dia dividir-se-iam em três partes iguais: 8 para descansar, 8 para trabalhar e 8 para estar com quem amamos.  Mas o Mundo não é justo, a vida não é fácil e o ideal na gestão de tempo é uma utopia. 
Saio todos os dias cedo de casa, com a minha filha ainda a dormir. Deixo-os a ambos a dormir na minha cama. Uma hora antes de, oficialmente, me levantar da cama, ainda de madrugada, ainda com o céu escuro, toca o primeiro despertador baixinho e desligo-o ao terceiro segundo que toca. Levanto-me, clandestinamente, e resgato a Ana da sua cama e deito-a no meio de nós. Ela suspira- juro!-, todos os dias suspira quando eu a aconchego para aquela hora de amorsíntese que reclamo para nós, quando a encosto a mim, a aqueço com o calor do meu corpo, a acolho num colo desafiador de regras. As leis da Psicologia não o aprovariam mas eu sou mãe da Ana, não sua psicóloga. Não me importam teorias, preciso daquela hora de colo mútuo, de aconchego, de pele com pele, do suspiro da minha filha, aquele suspiro de quem chega a casa e descalça os sapatos da alma. 
Saio todos os dias cedo de casa, beijo-a antes de sair e assim que chego ao destino ligo para saber como acordou, com que disposição está, que quantidade de pequeno almoço comeu e se levou vestida a roupa que lhe escolhi na véspera ou se levou a melhor do pai. 
Falo ao telefone com a minha filha antes de almoço, depois e a meio da tarde. Sempre que me apetece e posso. Às vezes viajo para mais longe e quantos mais quilómetros engole o carro, o comboio ou o avião maior a angústia da separação. É real e vivemo-la. Ambas. 
A Ana sente a minha falta todos os dias. Às vezes pergunta-me onde estou, outras fala comigo ao telefone como se eu a estivesse a ver, apontando-me coisas ou mostrando-me brinquedos. Há alguns dias em que pede para me ligarem porque quer falar comigo. Hoje agarrou no telefone da minha mãe e clicou no número que acompanha a minha fotografia. Hoje, a minha filha ligou-me, sozinha, à revelia da avó e disse-me que queria ir para casa:"Contigo, mamã".
Chego, todos os dias, tarde a casa. Jantamos juntas, dou-lhe banho, faço-lhe "bombom" e visto-lhe o pijama. Sentamo-nos, ao fim do dia, as duas no pouf, cansadas e em paz pelo reencontro de final do dia. Por voltarmos a estar juntas, coladas, unas. 
Aos fins-de-semana pergunto-lhe onde quer ir e responde-me que quer ficar em casa. A Ana acredita que a única forma de garantir que eu permaneço muito tempo seguido junto dela, que não a entrego ao cuidado da avó ou da tia- que ela adora- é assegurar que não saimos de casa. E não há parque, festa, escorregas ou brincadeiras na casa das amiguinhas que a convençam  a trocar o programa caseiro por outro qualquer. E eu fico, enrolada e embrionária no compasso lento das horas dentro de casa, no tempo sem pressa entre o sofá, o pouf e o chão do quarto cheio de brinquedos só para ela saber que, pudesse eu, e o meu tempo seria só dela. 
Hoje perguntaram-me o que faria se ganhasse o Euromilhões. Respondi que geriria o meu tempo na proporção inversa ao que faço actualmente: acordaria uma hora mais cedo para trabalhar, deixaria o trabalho a dormir para poder estar dez horas seguidas a trabalhar na educação e nos afectos da minha filha, e ao fim do dia, voltaria a trabalhar com o sossego de quem está em paz.
Esta é uma fase feliz- não me interpretem mal. Há muito tempo que não me sentia tão realizada e feliz profissionalmente, feliz com as tarefas que desempenho durante todo o dia, confiante do meu valor como profissional e da mais-valia que constituo. Feliz com a fase conjugal que vivemos e ainda mais feliz com a família que criei, que é minha, e que torna tudo melhor. Que me torna melhor. 
Mas a Ana sente saudades minhas todos os dias e eu todos os dias sinto saudades da Ana.  
E por isso- só mesmo por isso- voltei a jogar no Euromilhões.

10 comentários:

morango disse...

tão bom <3

C. Correia disse...

Lindo! :')

Raquel Graça disse...

Querida Pólo, tens o dom da escrita mais emotiva da blogosfera e hoje deixaste-me com a lagrimita no olho, eu que nem sou mãe, mas sou filha. Espero que ganhes o Euromilhões! ;)

Susana Rodrigues disse...

E eu, Pólo Norte, gostei muito de ler isto e desejo que ganhes o Euro Milhões. E a Ana.

Cisca disse...

Tão bonito. Eu que sou mãe há sete meses e regressei ao trabalho há dois, sei bem o que isso é.. :(

Su disse...

Muito, muito bonito. É um prazer ler as suas palavras. Sorrio e identifico-me com as histórias de mãe e filha, com o amor profundo que reflectem e que sinto exactamente da mesma forma. Obrigada!

Xica Maria disse...

Eu também sinto falta do meu filho todos os dias. Todos os dias chego ao trabalho e penso "ainda agora saí daqui...". Também adoro o que faço. Mas... também trocaria para estar junto do meu filho.

Papoila disse...

Todos os dias sinto saudades delas, e elas também. Verbalizamos isso ao fim do dia, nos abraços que se dão. Então as segundas feiras....ai as segundas. Acho que também vou começar a jogar ;)

Barbara Gomes disse...

Uau!
Estou sem palavras.
Como eu compreendo esse AMOR!
Tenho duas filhas e consigo encontrar nas suas palavras o que sinto por elas...
Obrigada.
bjs

Cereja disse...

Se ficas assim dividida, imagina para quem não fica feliz e realizada no trabalho como tu. Não estou a contar a história da carochinha... mas alguns dias são mto dificeis, sair de casa de manhã para trabalhar é um sofrimento atroz e passo o dia a pensar em voltar para casa ...
"A vida resolves-se sozinha" adoptei a frase de alguém que também tem um blog como tu e que para mim faz sentido. Eu sei que tudo isto se há-de resolver, só temos que nos por a jeito :)

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