sexta-feira, 15 de maio de 2015

Deixei de ter certezas. Especialmente absolutas.

Prefiro ter crenças. Olhar para a minha experiência e para os factos que a constroem e acreditar em algumas coisas. Mas acreditar com uma sensação de absoluta flexibilidade: a minha vida já me ensinou que isto do Mundo é tudo tão dinâmico que as verdades de hoje poderão não o ser amanhã.
Há quem acredite que aquilo do bulling na Figueira da Foz é fruto de lacunas na educação dos miúdos. Dos que agridem e do que, passivamente, é agredido.
Houve alguém que, num comentário de facebook, argumentou que aqueles miúdos não podiam ter recebido uma boa educação. Fiquei a pensar: o que será uma boa educação? Com que facilidade fazemos juízos de valores sobre as famílias de outras pessoas sem lhes conhecermos os meandros, os detalhes, as verdades? Acho pernicioso.
Prefiro cingir-me aos factos (já disse que deixei de ter certezas?). Os miúdos tiverem um comportamento execrável. Se serão bons ou maus miúdos, não sei. Ali, naquele dia, naquela circustância, foram abomináveis, idiotas e com uma total falta de empatia.
Ah e tal quem se comporta assim naquela situação só pode ser uma besta. Pois, não sei. Quantos de nós já tivemos comportamentos extremos de profundo desajustamento? De limite? Especialmente na adolescência? Quantos nós, pressionados pelos fenómenos de grupo, já nos comportámos vergonhosamente, escudados pelo colectivo quando, individualmente, nos comportaríamos de outra forma? Quantos de nós já nos envergonhámos de atitudes e comportamentos passados, sabendo que hoje faríamos diferente? Somos assim tão correctos na nossa vida? Se somos porque, confrontados com a brutalidade deste filme, reagimos pedindo justiça popular, argumentando que eles deveriar era levar uma tareia, serem queimados em praça pública? Porque tendemos a exaltar-nos nas redes sociais, escudados pelo anonimato, e assumindo que faríamos isto ou aquilo quando, individualmente, as nossas opiniões são muito mais contidas e refreadas? Seremos assim tão diferentes destes miúdos? Seremos tão moralmente mais superiores? Seremos todos?
Não sei se as miúdas em questão serão boas ou más. Ali foram execráveis, repito. Não lhes conheço as motivações nem as circustâncias mas acredito que a violência nunca deve ser resposta.
Também não sei se foram bem ou mal educadas pelos pais. O que é boa educação?- repito. Se sou paciente e aparentemente menos coerciva face às birras da minha filha posso ser rotulada de mole, demasiado tolerante, flexível, que estou a compensá-la pela falta de tempo que tenho, panhonha. Se lhe dou uma palmada estou a perpetuar o padrão de violência, estou a mostrar-lhe que as coisas se resolvem com violência, estou a confrontar com poder alguém que não está ao mesmo nível que eu. Cada cabeça, sua sentença. Talvez por isso eduque a Ana com base na minha própria cabeça e nas minhas próprias sentenças, acreditando que estou a educá-la bem, com base nos valores que considero serem os correctos, com todo o meu empenho, dedicação e amor. A educá-la bem. Mas isto é um conceito absolutamente subjectivo. E por isso, muito perigoso.
Não defendo bullies. Mas também não defendo rótulos. Nem certezas absolutas.
Somos seres biopsicossociais. Nisto do comportamento humano não basta a biologia, o inato, não basta o adn, virmos de uma linhagem de gente boa. Também não basta a educação, os bons valores, pais com tempo e com assertividade, pais atentos e participantes activos na educação dos filhos. Ajuda. Eu acredito que ajuda muito mas, por si só, não chega.
Lá fora há o Mundo. Há todos os factores ambientais: há a escola, os colegas, os amigos, a adolescência, as hormonas, a necessidade de pertença a grupos, de ser aceite, de ser valorizado pelos pares, de popularidade. E o Mundo- meus senhores!- o Mundo é absolutamente imprevisível e incontrolável. Podemos ter um papel activo e facilitar? Podemos! Podemos educar com modelos de amor e empatia? Devemos. Isso garante que os nossos filhos comportar-se-ão, sempre, em todas as ocasiões, de forma exemplar e correcta. Não creio.
Também não creio que isto seja tudo dependente do factor sorte. Não acredito no fado, no destino e naquela coisa de que as coisas de resolvem sozinhas. Não acredito mesmo. Tem que haver uma responsabilização nossa, uma acção para que as coisas aconteçam, uma espécie de profecias auto-confirmatórias. E também- especialmente- a humildade e a consciência de que se a vida fosse toda controlada pelos homens, se os problemas do ser humano fossem todos culpa freudiana dos homens, da educação, então seríamos ratos de laboratório e a vida uma coisa absolutamente previsível.
Só que não.

5 comentários:

SoNot300% disse...

Gostei muito e concordo.

Sonhadora disse...

Concordo absolutamente. Tenho na minha família um caso desses. Um jovem com uma família estruturada, responsável, atenta e no entanto o jovem assim que entrou na adolescência descarrilou ao ponto de ser necessário chamar a polícia por vezes, quando se descontrola. Teve uma infância normalíssima , com uns pais ótimos , especialmente a minha cunhada que é uma mãe extraordinária e sempre o foi. O pai , embora uma figura menos forte, sempre foi um pai amantíssimo e muito presente em todos os momentos da vida, com muitas atividades em família, jogos em família, etc, etc. Tudo para ser um miúdo maravilhoso e no entanto tem sido uma fonte de problemas e preocupações...

Sérgio disse...

"Talvez por isso eduque a Ana com base na minha própria cabeça e nas minhas próprias sentenças, acreditando que estou a educá-la bem, com base nos valores que considero serem os correctos, com todo o meu empenho, dedicação e amor. A educá-la bem" É isto

Purpurina disse...

Concordo. Totalmente.

Escrever Fotografar Sonhar disse...

É que é mesmo isso.

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