segunda-feira, 8 de junho de 2015

A Ana vai para a creche e tudo o que eu poderei escrever acerca disso é um tremendo cliché

A Ana vai para a creche em Setembro. Tínhamos combinado que seria assim aos três anos, que completará em Agosto. A creche está escolhida, a inscrição feita, a vaga reservada.
A Ana vai para a creche em Setembro e já não terei a minha mãe e a minha tia a fazerem a minha vez.
Tenho mais medo que a Ana, não sei de quê, não sei porquê. Ou talvez saiba, tenho medo que nenhuma educadora faça a minha vez.
Que a conheçam com as suas características, trejeitos, expressões e manhas, manias e caprichos, meiguices e afins. Que saibam que de manhã não gosta de grandes conversas, que gosta de ser acordada devagarinho depois da sesta e que precisa de regras, embora nos esteja sempre a desafiar. Que é do contra e muitas vezes diz "não" só para poder fazer género, arte na qual é especialista, apesar de nem três anos ainda ter completado.
Tenho medo que não tenham tempo para lhe dar um beijinho mágico no dói-dói logo depois de cair e o choro só pára com esse beijinho. Que não tenham braços nem espaços para lhe dar os colos que ela ainda reclama e que a pressionem a largar a chucha, e eu sei que só a largará no tempo que for para a largar. Que a chucha tem vida própria e se chama "Té". Que para a levarem a fazer alguma coisa tem que ser com estratégias de colaboração e que não cede a chantagens, a comparações. Que prefere perder tudo do que fazer aquilo que sente que não quer. Que quando adormece no colo gosta de pôr a mão no pescoço de quem a segura e quando se sente tímida procura o esconso do pescoço do adulto de referência. Que adora beber água e fruta e que odeia chocolate. Que tem que ir à casa de banho logo que peça para não ficar nervosa (é que sujar as cuecas das princesas é o pior castigo do Mundo). Que acredita que é uma princesa de verdade e que esse é um segredo da família. Que adora a mãe e o pai, de igual forma, e que se sente protegida com um como com outro. Mas quando é contrariada ou as coisas não lhe correm de feição diz sempre que "que ir para casa" e que a casa dela somos nós. Que tem uma memória prodigiosa e não perdoa a quem a aborrece. Que adora música, ritmo, chapéus, asas de borboleta, coroas e sapatos. Que a família para ela é um conceito alargado e que, provavelmente, uma folha A4 não servirá para nos desenhar a todos. Que tem uma péssima coordenação motora. Que é meiga mas de uma forma selecta e que só obedece aos adultos de quem gosta.
A Ana vai para a creche em Setembro e perguntam-me que actividades complementares quero que ela frequente. E eu fico uma mãe tonta e perdida entra o que me diz o coração, que a Ana não tem que fazer actividades nenhumas têm é que brincar e ser criança; e a pressão da razão, da comparação social, do "será que ela quando vir os outros também vai querer ir para o yoga?"
A Ana vai para a creche e eu quero que ela acorde feliz por ir para aquela creche. E que só chore nos primeiros dias porque se sente estranha e que tudo passe, quando ganhar confiança e o desconforto passar.
A Ana vai para a creche e eu tenho medo da mãe em que me vou tornar a partir desse dia, fora da minha zona de conforto, fora das paredes das casas das mulheres da nossa família, fora das regras que são comuns e das rotinas que domino.
A Ana vai para a creche e eu vou entregar o meu bem mais precioso a uma desconhecida que quero que seja nossa amiga para sempre, como só o são as pessoas a quem confio a Ana. E preciso que ela faça a minha vez quando eu não estou e tenho medo que ela não o consiga fazer, a Ana entre tantos, a Ana perdida, a Ana num plural. E preciso que ela não faça a minha vez, que e complemente, e ensine à Ana a socializar, a Ana a ser uma entre tantos, a Ana a descentrar-se.
A Ana vai para a creche e eu vou crescer mais com essa experiência que ela. E apetece-me chorar. E sei que vai passar e ao final do dia quem me vai dar o beijinho mágico para passar o dói-dói será ela, a minha filha, esta grandona de quase 3 anos.
Princesa em part-time, só porque é segredo de estado na monarquia fantasiosa da minha casa.

6 comentários:

doida disse...

Não há crise!Às vezes é mais complicado para os pais que para eles. Já agora, e pedindo desculpas pelo atrevimento, se a sua filha tem 3 anos, vai para o Jardim-de-infância e não para a creche (0 aos 3 anos)!

Esmeralda Martins disse...

A vossa Ana vai para a creche e vão todos crescer, assim como o Amor crescer a cada dia que passa.
Dói, o coração vai minguar até caber num grão de areia e no dia que ela sorrir de manhã quando ansiosa quiser ir desenhar o fim de semana que passou com vocês, nesse dia, o coração irá alargar e aos poucos vai-se habituando a estas "fases".
Ninguém nos ensinou a lidar com estas fases e cada uma é um desafio.
Força aí nesse coração de mãe corajosa!
Mimos ;)

Ana D. disse...

Sou educadora na creche com crianças ainda mais pequenas e de uma coisa que posso garantir, nunca substituímos as mães, nem é essa nossa intenção... mas muitas vezes conhecemos melhores os filhos do que os próprios pais, muitas são as vezes que damos aquela atenção que os pais não conseguem dar e vemos pela primeira vez aquilo que os pais gostavam que tivessem sido eles a ver.
Acima de tudo confie na educadora, partilhe com ela tudo aquilo que escreveu.

Xica Maria disse...

Por isso é que o meu pequenino vai só aos 4 anos acabados de fazer para a pré. Eu também fui. Vai aproveitar mais um ano de amor incondicional das avós. Mas eu sei, sei que lhe ia fazer muito bem ir para a creche também... Não sei se estou a errar... Mas o meu coração manda assim. Assim será.

Por favor, salvem a Professorinha! disse...

Da Professorinha(que afinal é educadora) para a Mãe Ursa:
A tua Ana vai para o Jardim de Infância e vai-te levar todos os dias no bolso do seu coração...
A tua Ana vai dizer muitas vezes à educadora que quer a mãe e a educadora vai estar lá para lhe dizer sempre que a mãe vem já, e a Ana vai sossegar...
A tua Ana vai dizer muitas vezes à sua educadora " A minha mãe faz assim..." e depois em casa, vai dizer-te a ti que " A minha educadora diz que não é assim..."
A tua Ana vai ter na educadora uma amiga para a vida, que se vai emocionar contigo sempre que a Ana faça uma conquista e vais ver que todos os dias irão haver conquistas...
A tua Ana vai para o Jardim de Infância e vai fazer amigos daqueles que ficam para a vida, nem que seja só um...
A tua Ana vai voltar todos os dias para o teu colo com um mundo novo para te contar...
A tua Ana, Mãe Ursa, está a crescer... E às vezes crescer dói... E dói muito mais às mães do que às crias... Mas quando ela for para o Jardim de Infância vai ter mais uma pessoa que lhe curará os dói-dóis com um beijinho mágico e tu irás aprender a confiar e a deixar de ter medo porque sabes que ela também confia...
E o melhor disto tudo é que a Ana será sempre tua, mas um mundo maior será dela...

Vai correr tudo bem e depois queremos muitos posts sobre a aventura da tua Ana :)

Ana Rodrigues disse...

Estou na mesma situação! No entanto ainda não sei se o meu menino vai entrar este ano ou só para o próximo. Aqui no público como ainda não tem 3 completos na altura das inscrições fica em lista de espera.

Já agora, Ji publico ou privado? Que tal um post tal como fez para as células estaminais?

Obrigada!

Vai tudo correr bem! Um abraço

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