sábado, 6 de junho de 2015

A Primavera voltará (À Ana -que não é a minha)

[Desejas ter um filho. Desejas com todas as tuas forças. Projecta-lo na tua cabeça, na tua vida, no teu coração e imaginas o futuro com gargalhadas pequeninas e abraços dados por mãos minúsculas. Um dia um teste colore-te o sorriso.
Engravidas e transportas um pequeno Mundo em ti, tão secreto como só teu. Antes de tudo o resto, teu, intimamente teu: de pele, de sangue, de entranhas. 
Devagarinho, vais partilhando a notícia com o Mundo. Depois a barriga floresce, regada ao amor das semanas a passar. Escolhes um nome, conferes uma identidade, projectas a pessoa, já não a ideia da pessoa. 
Um dia, antes do dia, antes do tempo, antes do Mundo estar acertado com a lua, nasce-te um filho, quando não era suposto- ainda-nascer. Tudo cá fora: do tempo, do espaço, do corpo. Todo o Mundo fora de ti. E tu vês, ouves, tocas e rezas, mesmo que tenhas que inventar um Deus só para ti, porque quando tudo falha, só a fé é que nos pode salvar. 
E desejas com todas as tuas forças que o Mundo faça o teu lugar, que as máquinas substituam o teu corpo, que os médicos resolvam o que há para resolver. E pedes energia positiva. E orações, E projecção de coisas boas. E todos torcem, todos rezam, todos acreditam com força para que o Mundo permita que tudo se resolva. 
Um dia, mesmo com Sol, faz-se Inverno em ti. Está frio lá fora, chove dentro de ti, troveja-te a pele, no teu coração só poças de tanta chuva sem fim. E dizes que tens medo do futuro, que não sabes se voltarás a ser feliz.  Perguntas-me como se enterra um filho. Dizes-me que não ficaste viúva nem orfã: apenas desfilhada. Pedes-me consolo. 
Tenho poucas palavras para ti: guarda todo esse amor que ainda tens aí dentro, vai-te fazer falta; a vida dá-nos segundas oportunidades: não tapes a ferida, deixa doer, vai ter que doer, deixa a ferida aberta para entrar o sol, o sol ajuda a cicatrizar sempre melhor: chorar faz bem se te apetecer e não chorar faz igualmente bem se não te apetecer: um dia limparás os olhos com as costas da mão e nada restará senão seguir em frente: faz os rituais se sentires vontade: evita o folclore dos pêsames e dos sentimentos de quem nada sente: e depois, quando acabar o ritual, quando tiveres um segundo para pensar, pensa: "eu mereço coisas boas": sempre que desanimares repete baixinho "eu mereço coisas boas": um dia farás as pazes com a vida, acredita em mim: a vida não te apenas um take, já te disse?.
És uma árvore, Ana. Uma árvore com raízes, troco, galhos. O Inverno roubou-te o teu único fruto. O vento varreu as folhas do chão e há muito que não há flores. Chove, troveja, há relâmpagos e frio lá fora. Aí dentro também. 
Mas- acredita em mim- a Primavera voltará. Porque tu mereces coisas boas.

Um abraço apertado, demorado e sentido, 

Liliana.]

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