sábado, 13 de junho de 2015

Alguma coisa está errada no Mundo quando leio notícias destas

Pais querem alunos apenas com um mês de férias- leio eu num misto de espanto e incredibilidade. 
Quando perdemos nós, pais, a capacidade de nos recordarmos como nos sentíamos enquanto crianças e filhos? Quando deixamos de nos lembrar do friozinho na barriga quando se aproximava o final dos anos lectivos, o Verão menos esquizofrénico que é hoje a trazer-nos calor e dias de praia prometidos, uma enormidade de dias compridos e cheios de brincadeiras daquelas que fazem as mãos sujarem-se, os joelhos esfolarem-se, os vizinhos brincarem na rua ou na praceta comum até quase à noite, giz no alcatrão e pais a gritarem porque as horas não combinavam com a luz que ainda restava no céu?
Quando perdemos a capacidade de lembrar com saudade da proximidade dos gelados de água, das viagens apertadas no carro da família até à terra, de pousarmos longe, dos beijinhos às tias-avós que limpávamos das bochechas com as palmas das mãos, dos amigos que só revíamos ano após ano, na terra, no parque de campismo ou na colónia de férias? Quando deixamos de querer para os nossos filhos o mesmo sol a queimar a pele, a pele a ficar dourada, os cabelos com madeixas do sol, as risadas das férias de Verão, os dias infinitos pela frente, a magia das férias ... grandes?
Quando perdemos nós a capacidade de reclamarmos sair do trabalho à hora estipulada para, realmente, sairmos; a dizermos não ao hábito de ficarmos a trabalhar até mais tarde pro-bono só para não ficarmos mal vistos perante os patrões; a usarmos os créditos dos bancos de horas em vez de deixarmos a empresa estar sempre em débito connosco; a chegarmos a casa e podermos concentrarmo-nos apenas na vida doméstica ao invés de termos sempre os olhos postos no smartphone a apitar com emails de trabalho que não são urgentes e pedidos que podiam ser feitos no dia seguinte em horário laboral ou, ainda, termos que ligar o PC depois deles dormirem porque o horário de trabalho não chega para as tarefas a serem feitas porque, provavelmente, andamos a fazer trabalho de dois ou de três?  Quando perdemos nós a voz para reclamarmos junto do governo que fixe leis que obriguem as empresas a flexibilizarem as formas de trabalho, a legislarem de forma ao estabelecimento de um equilíbrio salutar entre vida familiar e vida profissional?
Não, não são as escolas que têm que se tornar flexíveis nem os miúdos que têm que se habituar a estar mais tempo na escola. A mudança não tem que ser das escolas, dos professores nem dos alunos que, no final de contas, são os nossos filhos. 
A mudança tem que começar em nós. 

12 comentários:

Ana disse...

Mas e quando os pais não têm horários flexíveis, ganham pouco e os miúdos têm de ficar sozinhos todo o dia porque não há dinheiro extra para ATL ou empregadas e não se tem confiança com os vizinhos? Conheço um caso muito próximo, de duas crianças de 11 anos em que a situação é essa. E não há avós para ajudar, moram longe...

Petra disse...

Também fiquei doida quando li isso. Se acho que deviam haver actividades gratuitas ou a preços mais em conta para os miúdos durante algum tempo das férias de verão? Acho sim.... Mas actividades lúdicas não aulas pff.
11 meses de escola seria um horror e causaria muito mais stress nos miúdos!

Pólo Norte disse...

Ana,

Acha mesmo que a solução passa por despejá-los 11 meses por ano na escola?

ana disse...

Sabes, a notícia já nem me chocou... estou tão "habituada" a ouvir certas reclamações e discursos que agora já pouca coisa me choca. Onde trabalho haveria muitos pais que iriam bater palmas e essa ideia, acredita.
Aos olhos de alguns pais, as escolas já deixaram de o ser há muito tempo. São apenas edifícios com pessoas que tomam conta dos seus filhos e lhes ensinam algumas coisas...

ana disse...

Ana, as Juntas de Freguesia e os ATL normalmente têm atividades para estas alturas do ano e os preços praticados têm em conta a situação financeira dos pais. É preciso procurar, pesquisar, perguntar.

A Limonada da Vida disse...

Despejá-los na escola é mais fácil do que ir à procura de outras soluções, algumas delas com actividades bem giras. Os avós estão longe? Em vez de acrescentarem mais tempo de escola levem os miúdos até aos avós. Deixem-nos lá uma semana, quinze dias, um mês. É bom para eles e é bom para os avós os encherem de mimos.

Purpurina disse...

Eu luto, da maneira que posso, para ter mais tempo para a minha filha. Mas não conheço as situações das outras pessoas, tento não julgar, mas não é fácil.
Os meus pais sempre teabalharam imenso. Na minha opinião, muito mais do que o necessário. Queriam ter uma casa grande, ter carros, ter coisas. Nunca íamos de férias, raramente brincavam comigo e, o tempo que sobrava do trabalho era para o meu pai ver televisão e para a minha mãe limpar a casa - enorme- até ela brilhar. Hoje, a minha mãe diz que se arrepende, que a minha infância lhe passou ao lado e nem deu por isso. Eram outros tempos. Acredito que eles fizeram o melhor que sabiam. Hoje somos diferentes, temos mais opções e mais informação. Não temos todas as opções, mas temos mais do que antes. E, optar por ter filhos, para estar com eles uns minutos por dia e uns dias por ano, é algo que talvez nunca vá entender. Mas continuo a acreditar que, em principio, tods os pais fazem o melhor que sabem, não o melhor que podem.

De Sonhos se faz a Vida disse...

O problema é que nos dias de hoje os miudos, ou a maioria deles, já não quer andar nas brincadeiras de rua, de esfolar joelhos ou das actividades no campo. Eu cresci com sorte de ter os meus avós que podiam ficar comigo e passei muito tempo com eles, mas sei que nos dias que correm isso é cada vez mais dificil. Mas como já comentara aqui há sempre outras maneiras é preciso é procurar, vamos lá deixar as ideias dois das crianças ficarem fechadas nas escolas!

Isabel Simões disse...

Subscrevo cada palavra que escreveste! Cresci na Alemanha. Um país que tem apenas 6 semanas de férias no verão. Mas que tem mais interrupções letivas que nós, onde as crianças só têm aulas das 8 às 13, e mais de 60% das mães trabalham em part-time para poderem estar com os filhos. Além disso, quando o tempo começa a aquecer e os termómetros sobem acima dos 25 graus, os diretores das escolas do ensino básico podem decidir enviar as crianças para casa: é a chamada lei do "Hitzefrei".
Aqui querem que as crianças passem o mês de julho na escola. Está tudo maluco...

Alexandra Ferreira disse...

Nesse mês, as crianças até deviam dormir na escola. Assim os pais podiam ir de férias, sair e fazer tudo aquilo de que abdicaram quando decidiram ter filhos. Ou não....
;)

Imperatriz Sissi disse...

Fantástico texto. É uma situação que me enerva. Indignei-me ontem com isso:

http://jessi-aleal.blogspot.pt/2015/06/de-tirar-uma-mulher-do-serio-as-ferias.html

AL disse...

Ora bem...
Tenho 22 dias de férias, marido também.
Felizmente ainda está na creche e espero que as coisas possam mudar até lá.

Gosto de sugestões como actividades giras. Mas há actividades giras e baratas?
Do que tenho visto crianças quer no público quer no privado têm de dispender mais do que o valor de dois meses "normais" para ATL´s.

Conheço casais que não tiram férias juntos. Ambos tiram 3 semanas no verão para estarem 1,5 mês com os filhos e deixam 1 semana para um tirar na Páscoa e outro no Natal. É isto melhor? Férias conjugais?

Avós? Acho sempre graça à pseudo-obrigação dos avós servirem de bombeiros. Mas admitindo que até gostam (os meus pais adorariam). Sim, condicional, adorariam SE pudessem, SE não trabalhassem, SE não nos separassem 350km.

Percebo bem o desespero dos pais porque assisto a isso todos os anos. E no meu trabalho não podemos levar os filhotes para "trabalhar" connosco.

Escolhi uma creche que não fecha mais que 6 dias por ano, para poder ter férias com o marido e com a filha...acho que merecemos.

Se o Estado não tem incentivos à natalidade, não garante que os pais possam ser mais presentes na vida dos filhos, ao menos que garanta que nas férias, pelo menos nessas 3/4 semanas possam estar juntos e assuma esse custo social.
Ao invés de passar essa responsabilidade a empresas privadas muitas vezes em regime de compadrio...

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