segunda-feira, 29 de junho de 2015

Esta geração é capaz de ser melhor que a minha


"Recuso-me a fazer estágios não remunerados"- vociferou-me ela, indignada. Revirei os olhos, pensei que ela não sabia nada da vida e que esta geração estava mal habituada, tudo lhes é devido, não têm qualquer espírito de sacrifício. Não lhe augurei um futuro próximo muito feliz, afinal, eu tinha começado assim. 
Na verdade, fiquei a moer naquilo. Hoje em dia os estágios curriculares não passam de uma forma gratuita e legal de ter mão de obra temporária qualificada. Que não passa disso: mão-de-obra temporário. As empresas são linhas de montagens de  recepção de estagiários: hoje vem um, amanhã acaba o o estagiário e vem outro e assim sucessivamente, numa estratégia de desenrascanço, um dia de cada vez, enquanto houver pacóvios que trabalham de borla não será preciso contratar ninguém remuneradamente. Não deveria ser isto um pleonasmo? "Contratar remuneradamente"? Não, necessariamente, numa altura em que muitos trabalham de borla e outros até pagam para trabalhar (sabemos de um estagiário que paga uma mensalidade para estagiar num prestigiado local de estágio. Ah, está a ter formação? Não, não: está a estagiar, a trabalhar mesmo).
Também os estágios remunerados, profissionais já não são um incentivo à contratação. Tê-lo-ão alguma vez sido? O IEFP comparticipa os mesmos na expectativa de que as empresas conheçam o trabalho do estagiário profissional, apostem nele, formem-nos e preparem-no para, terminado o estágio, poderem aproveitar o seu potencial, a mais valia que poderão constituir. Como? Assumindo as despesas da sua contratação, claro está. O que acontece?  O estagiário profissional vai-se embora, sendo substituído por outro, pois está claro. Não há promessas de continuidade, não há garantias de que o investimento terá contrapartidas, não há futuro a pagantes. Trabalhar como os esquentadores: para aquecer.
Ela recusa-se a pagar para estagiar. Diz que já pagou propinas suficientes para ser formada. Recusa-se a estagiar de borla sem nada em troca,  que fosse sequer a longínqua esperança que o seu desempenho fosse o diferencial que justificasse uma contratação.
Ela não quer prostituir a profissão que estudou, que respeita e ama. Não a quer dar a troco de nada. Prefere ir para uma loja, onde paguem o seu trabalho não qualificado ao preço que ele, provavelmente, vale. Mas oferecer trabalho técnico, anos de estudo, investimento dos pais, a troco de nada, servindo de alimento a um sistema promíscuo, isso é que não!
Prefere emigrar, ficar longe de tudo, destas tramóias também, da falta de respeito pelo trabalho dos outros, da falta de respeito pela integridade e dignidade dos recém-licenciados, pelo aproveitamento abusivo de quem quer entrar no mercado pedindo por favor para servir cafés e tirar fotocópias de borla para conseguir inscrever-se numa Ordem que nada faz pela luta dos direitos dos seus membros, pelo desplante de quem olha para os recursos como toalhetes descartáveis da casa de banho- usar e deitar fora- sem apelo nem agravo.
E eu, que fiquei a remoer nisto, acho que sim, que ela é que tem razão, no alto da dignidade dos seus 25 anos, no alto da integridade de quem ainda não se deixou corromper pelo sistema, não o normaliza nem o aceita, de quem não acredita em promessas fraudulentas, de quem se recusa a ser carne para canhão.
E eu, que fiquei a remoer nisto, acho que o futuro lhe trará coisas boas, porque o merece. E sim, esta geração que não se vende a troco de promessas vãs, que não se verga sob o chicote do aproveitamento abusivo, que não banaliza o valor do trabalho nem o desvaloriza, que não se deixa pisar nem ser abusada, esta geração- caramba!-  é capaz de ser melhor que a minha.

4 comentários:

Miss Lemon disse...

não sei porquê, desse post salta-me "Ordem dos Advogados" .... Não sei porquê, eu podia ser essa pessoa. Recuso-me a entrar nesse sistema podre ... antes trabalhar noutra coisa qualquer, do que advogar de borla. sim, porque ao contrário de vós, amo e honro a toga que envergo!! fodei-vos, xulos dum piço!!!

30aos30 disse...

Eu também não o fiz... Claro que acabei no estrangeiro rapidamente... :)

Susana S' disse...

Este texto podia ter sido escrito sobre mim.
"AH, dá currículo e experiência!", porque adianta de muito ter um currículo com o nome de 10 empresas que nunca nos pagaram um centimo que fosse pelo nosso trabalho. Aqui não se trabalha de graça.

м♥ disse...

Infelizmente, ou se aceita fazer estágios não remunerados ou então nunca poderemos entrar na ordem e, por consequência, exercer. E a triste realidade é que, enquanto houver quem nao se importe de trabalhar de graça, aqueles que se importam vão ter que o fazer na mesma, porque os estágios profissionais são obrigatórios para podermos exercer em muitas profissões. E se uns aceitam trabalhar de graça, "pela experiência", os que não o aceitam nunca serão acolhidos. É muito triste. Daqui a uns meses estarei na luta para encontrar um sitio que me aceite como estagiária e não sei se estou preparada para ouvir em primeira mão aquilo que vou ouvindo pelas experiências dos outros.

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