terça-feira, 9 de junho de 2015

Fui visitar a creche, perdão, o Jardim de Infância da miúda

Levei-a pela mão, bem apertadinha, com medo que ela me fugisse do controlo- vai fugir-, com medo dela se assustar com a grandeza da escola. Quando lá chegámos a educadora dizia "o colégio" e eu sempre a dizer "creche", mámen diz que é "jardim de infância". 
Acho que isso pode querer dizer um bocadinho de nós, uma espécie de teste de discurso projectivo: a educadora não trata os meninos por tu e diz "colégio"- o que quererá isso dizer?, eu continuo a dizer "creche"- acho que estou em negação, às vezes quero que cresça, outras tenho medo que cresça e ela, efectivamente cresce-, mámen diz "jardim de infância" e sei que ele é o mais realista de todos nós, o mais seguro, sabe ao que vai, sabe ao que vamos, deu-me a mão a mim, com a mesma segurança com que eu segurava a mão da Ana. 
Mandaram-me preencher papéis, trataram-me por "mãe", mandaram-me assinar numa linha em cima da palavra "Encarregado de Educação" e tive ali que decidir tantas coisas, se autorizava a cedência da sua imagem para promoção das actividades da escola- não!-, a quem dou autorização para a ir buscar, que actividades extra-curriculares quero que frequente- nenhuma!. Estava nervosa, ainda me lembro do meu primeiro dia na creche, a Diana foi a única que não se assustou com o aparato que faziam os meus aparelhos ortopédicos e eu só queria fazer novos amigos e brincar. Sinto-me igual, só quero que a Ana faça novos amigos e brinque, fico ansiosa perante tantas decisões, fico com o coração em sobressalto quando vejo que a creche o jardim de infância tem escadas, leio com atenção porque é certificado com o sistema de gestão da qualidade, pergunto se a comida é cozinhada lá e outros detalhes de quem está ansioso e cheia de medos. Eu só quero que ela seja feliz aqui, que faça novos amigos e brinque. 
Olho para as paredes e vejo trabalhos bonitos. Odeio trabalhos bonitos- isto é um contrasenso. Vejo que fizeram trabalhos com a técnica da palhinha, chamaram-lhes monstros, na verdade espetaram-lhes olhos, narizes e bocas e eu fico a pensar porque raios decidiram dar características humanas a manchas de tinta. Não quero que limitem a imaginação da minha filha, quero que ela veja monstros mesmo que mais ninguém os reconheça e- sim!- vou ser uma mãe impossível. A educadora diz que ganharam prémios de escola ecológica, mostra-nos com orgulho o ginásio gigante e solarengo, peço-lhe que trate a Ana por tu e ela parece aliviada, é simpática e eu quero que ela faça a minha vez, mas que deixe os monstros sem olhos, por favor.
A Ana está feliz. Diz o seu nome a quem passa. Diz "a minha 'cola" com orgulho, não nos larga a mão, o colo. Quer fazer xixi nas pequenas sanitas e mete conversa com o porteiro. A Ana gostou, sem intelectualizações nem normas da qualidade e, especialmente, sem apreciações de psicóloga e todos os meus receios serenaram, o instinto da minha filha fala mais alto que a minha razão. 
E, só por isso, gosto deste jardim de infância e espero que faça jus ao seu nome. Jardim: que ele trate a minha flor com água e sol para que cresça feliz, com novos amigos e a brincar. 
Mesmo que para isso o preço a pagar sejam trabalhos manuais feitos com lixo.
(Monstros com olhos é que não).

3 comentários:

Ana disse...

Entendo a preocupação de mãe (e pai) na escolha da escola (não há como esmiuçar tudo ao mais ínfimo pormenor, passei por isso duas vezes).
Ainda que não seja de opinião contrária, aceito - não tendo nada com isso - a decisão de só colocar a Ana na escola aos 3 anos.
Não compreendo de todo esta total desconfiança relativamente à capacidade e competência de instituições acreditadas e qualificadas (se não fosse assim não equacionados colocar lá a sua filha) de ensinar devidamente as crianças. Que mania de as mães pensarem que só elas sabem o que e como deve ser feito! Tudo tem o seu espaço, timing e firma de acontecer! Se assim não fosse, todas as criancinhas ficariam em casa ad eternum.
Certamente não se apercebe, mas essa obsessão de "sou a mãe da Ana, eu é que sei, a minha filha é única, ai que me vão limitar a miúda" é desmesurada e ela sim castradora! Deixe a miúda crescer, ter as vivências próprias da idade! Tire-a da redoma, afaste-a do pedestal onde a colocou (e já agora desça também) e deixe-a viver

Pólo Norte disse...

Ana,

As creches foram criadas para dar apoio às famílias para a reintegração profissional das mães após o nascimento da criança. é por isso que anda hoje são tuteladas pela Segurança Social e não pelo Ministério da Educação, pois têm uma função cuidadora e não têm um cariz escolar. Colocar a criança aos 3 anos é uma opção racional, pensada e- quanto a nós- o mais sensata possível na procura de uma pré-escolarização da nossa filha, razão pela qual ela entrará este ano, opção da qual estamos firmes e certos que fizemos da melhor forma e com os melhores resultados.
Quanto à desconfiança é a sua percepção. Existe uma preocupação- que é natural e penso que legítima- em assegurar que a escolha que fazemos é a melhor para a nossa filha e a que vai dar continuidade aos valores que lhe temos vindo a transmitir.
Continuarei a ser analítica e crítica face a qualquer instituição onde entregue a minha filha, uma vez que acredito que esta seja a forma por zelar que ela esteja integrada num sítio cujos valores, metodologias e estratégias venham de encontro ao que nós- pais e principais interessados na educação da filha que é nossa- queremos que ela apreenda.
E, sim, eu acho mesmo que, genericamente, sei o que é melhor para a minha filha e, quando me sinto insegura, procuro opiniões de especialistas que me ajudem a tomar decisões. Mas, lá está, as decisões finais são sempre nossas- minhas e do pai.
Quanto ao facto da Ana ser única, aí já não a posso contrariar: é sim, senhora! É única e é minha filha e será tratada toda a vida de acordo com a unicidade que a assiste, respeitando todas as suas diferenças, promovendo todas as suas potencialidades e limitando-a o menos possível. Obsessão? Castração? Mais uma vez, é a sua opinião e contra isso nada posso (nem quereria) fazer.
De resto, deixe-me apaziguar a sua preocupação legítima de quem não conhece nem a Ana nem a mãe da Ana: a miúda tem crescido, tem tido inúmeras vivências e- imagine-se a loucura!- é feliz!
Agora respire fundo. Já está? Quem veio aqui ao blog deixar sermão sem que ninguém lho tenha encomendado? Vá, dê-me a mão. Vê? Afinal, sou eu quem a ajudo a descer do pedestal. ;)

BG disse...

Os estudos têm demonstrado que a melhor idade, porque traz imensos benefícios sociais para as crianças, para entrada em creche, é aos 2 Anos (então em prematuros mais ainda). Mas estudos são estudos, opiniões são opiniões e depois de procurar aquelas que são mais importantes para tomar uma decisão, o mais importante é o instinto dos pais. Só um preciosismos, hoje em dia já não é jardim de infância, é pre-escolar (Até aos 2 anos creche, a partir daí pre)

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