quinta-feira, 25 de junho de 2015

No meu útero, nos meus olhos, nas minhas mãos e, especialmente, na minha vida mando eu

Fiz uma IVG já depois da despenalização, para cujo referendo, anos antes, votara "sim".
Toda a gente que lê este blog sabe que a minha causa é a causa da liberdade, do direito de escolha, do livre arbítrio, pelo que, quanto a esta questão em específico a minha postura não poderia ser outra que não a de permitir à mulher o direito legal para decidir acerca da sua vida. Porque é disso que se trata.
Quando descobri que estava grávida, naquele ano, fiquei aflita. Por muitas razões, todas elas que me dizem apenas respeito a mim, a opção pela interrupção voluntária da gravidez era a solução mais sensata e de mais bom senso no que à minha vida, naquela altura e circunstância, dizia respeito.
Estava de pouco tempo quando fiz uma primeira ecografia, entre nós na garganta e apertos no peito, uma aflição desmedida. Num hospital privado fizeram-me a ecografia ainda com sonda, pois o tamanho do embrião assim o exigia. Expliquei ao médico que a minha intenção era interromper aquela gravidez e, quando sadicamente, me perguntou por que não olhava para a primeira imagem do meu "bebé" respondi-lhe de forma agressiva que não. Que não queria confrontar-me com a existência de um ser vivo dentro de mim. Deve ter-me achado cruel pois amuou durante o resto da consulta e quando nos despedimos recomendou-me a pensar melhor na situação do "aborto". Aquelas palavras ecoaram na minha cabeça: "bebé" e "aborto". Chorei três dias seguidos, ininterruptamente.
Não se tratava da força das palavras, os eufemismos a mim não minimizavam a dor e a angústia da decisão que estava prestes a tomar. Dizer "feto" ou "IVG" não minimizavam a aflição que senti naqueles dias, já depois de, num hospital público, assinar os papéis que formalizavam a minha decisão e esperar pelo período de reflexão para receber os comprimidos da IVG medicamentosa.
Ninguém decide fazer um aborto de ânimo leve (e se há quem decida, então não é da minha conta julgá-la: cada pessoa tem a sua história e as suas motivações).
Quando enfiei aqueles comprimidos debaixo da língua enfiei-me debaixo dos lençóis a noite toda: não queria ver luz, não queria ouvir gente, sentia-me triste e desolada.
As razões pela quais uma pessoa decide abortar não têm uma importância maior ou menor, não obedecem a uma hierarquia ou taxonomia da importância. Decidir que não se querer ter um filho com uma mal formação congénita não é uma razão mais válida que decidir que não se quer ser mãe porque não se tem as condições (económicas, sociais, laborais ou, mesmo, simplesmente emocionais) necessárias. Cada mulher saberá de si e cada pessoa tem a sua história, as suas vivências, os seus valores, as suas motivações e as suas razões. Que apenas a si dizem respeito.
Correu mal a minha experiência. Tive uma série de complicações e tive que fazer uma curetagem uterina sob anestesia geral. Estive internada e bastante fragilizada.
Ninguém decide fazer um aborto de ânimo leve. Eu não fui excepção.
Hoje, já depois de uma gravidez bem sucedida, de ecografias felizes e de experimentar a maternidade e do papel de mãe da Ana ser o que mais me realiza na vida, posso afiançar com segurança que, se passasse por aquela mesma situação, naquelas mesmas circustâncias continuaria a não querer olhar para a ecografia e não deixaria que nenhuma dondoca de direita me obrigasse a olhar para o feto ou bebé ou como o queiram chamar porque nos meus olhos mando eu; não assinaria em cima de nenhuma ecografia numa espécie de tortura pidesca psicológica porque nas minhas mãos mando eu; e sim, voltaria a fazer aquela interrupção voluntária da gravidez ou aborto- como queiram- porque da minha vida sei eu.
Porque na minha vida mando eu.

13 comentários:

Maggie F. disse...

Eu também votei sim porque também sou pela liberdade de escolha e porque acredito que cada uma sabe de si. Quanto a ter a coragem de fazer um aborto é outra coisa, não sei se seria capaz.

Felicidades


Maggie

Rabicha Laricha disse...

É triste. São situações tristes que acredito nenhuma mulher gostar de passar, por isso, não crítico. Cada um sabe de si.

Esmeralda Martins disse...

Palmas e vénia.
Votei sim mesmo antes de ser mãe, estive gravida 4 vezes e tenho apenas uma filha a viver debaixo do meu tecto. Ja tive uma gravidez ectopica, um aborto espontâneo e uma minterrupção voluntaria às 25 semanas por deficiência na minha 4a gravidez. Posso afiançar que decidir parir uma filha sabendo que não a ia levar para casa comigo foi cruel. Mas não me arrependo, apeaar de ainda doer. Enquanto Mulher fui criticada, condenada, julgada e continuo a manter a minha posição inicial.
Eu é que mando

Tânia Jorge disse...

e é mesmo isto! não há mais nada a dizer... liberdade!

Por falar em direita, e só a titulo de curiosidade, posso dizer que tinha 16 anos quando foi o referendo, lembro-me de sentir revolta por não poder votar, por isso nunca me esqueci da idade que tinha. Lembro-me que andava num grupo de jovens religioso, e lembro-me que o padre foi ter com os jovens e disse: "Amanhã, digam aos vossos pais para votarem não!". Deixei de frequentar o grupo!
E o mais curioso é que sei que a minha mãe não fez aborto de mim, porque era ilegal e porque era muito religiosa... se assim não fosse eu não estaria cá. E se o referendo fosse agora, eu votaria Liberdade. E gosto de cá andar.

Nina disse...

Sim ontem, sim hoje e SIM amanhã!!!
Cada mulher tem de ter a opção de escolha, só ela sabe se pode ou não viver para um bebé.
Cada uma sabe de si!!!! Ninguém tem o direito de apontar o dedo!

Ana disse...

Esse preconceito de que para se ser de direita tem de se ser dondoca acaba comigo. Sou de direita, sou da margem sul, sou filha de um operário fabril e de uma empregada doméstica. Trabalhei de dia e estudei de noite os 5 anos de faculdade. Não sou dondoca, mas sou de direita. E, apesar de ser de direita, sou a favor da interrupção voluntária da gravidez. O problema das conotações esquerda / direita é estarem cheias de predisposições: se és de esquerda não podes usar gravata e és dono da liberdade, se és de direita usas fatos Armani e és fascista. Aquilo que se propõe discutir na próxima legislatura não é terminar com a interrupção voluntária da gravidez de forma legal, é que este deixe de ser um acto isento no sistema nacional de saúde. Parece-me justo que uma mulher que pretenda interromper uma gravidez (acto que provavelmente irá ocorrer uma vez na sua vida) tenha de comparticipar esse acto médico. Serão 10€, 15€? Não me parece exagerado. Se há doente crónicos que têm de utilizar o sistema nacional de saúde, frequentemente, e pagam consultas, actos e exames médicos, porque não pode este acto deixar de ser isento? É isto que se quer discutir, e não revogar a lei.

Cândida disse...

Olá Pólo.
Eu também votei sim, por todas essas razões, e hoje fá-lo-ia novamente.
Mas....
Tenho uma grande amiga que é Obstetra, e me mostrou o outro lado da IVG. O lado, em que mulheres usam a IVG como método de controlo de natalidade (acho que método contraceptivo só aplica antes de haver gravidez, certo?).
Falou-me em casos de jovens que iam ter com ela, já no 6º aborto ("porque o meu namorado não quer usar preservativo... " "porque a pílula me engorda" and so on..., e não, não estou a inventar, isto foram mesmo palavras que ela ouviu em algumas consultas!).
Infelizmente, foram tantos casos, que essa minha amiga, que também tinha votado sim no referendo, deixou de fazer as IVG´s, e tornou-se objectora de consciência.
Não defendo que se deva regredir, obviamente, mas que se deva reflectir sobre todos os pontos de vista deste tema.
bjs

mikasha disse...

Fiz uma IG, sem V. Não foi voluntária, não foi por vontade minha, foi porque o coração do bebé que eu já amava desde o teste de gravidez deixou de bater.
Chorei quando olhei para o ecrã onde não havia nada, chorei quando me disseram "vamos colocar os comprimidos", chorei enquanto as dores me assaltavam o corpo. Chorei, ainda choro.

Chorei quando, meses depois, chegou a casa a fatura da "ecografia endovaginal" e da medicação que me foi administrada. Chorei. Não percebi porque, só porque a minha IG não tinha o "V", tinha de pagar quando existe "isenção das taxas moderadoras para as mulheres que fazem Interrupção Voluntária da Gravidez (IVG)" (fonte Público)

Cada indivíduo deve ter a liberdade de escolher o que quer fazer com o seu corpo - defendo o suicídio assistido, por exemplo.
Apenas quis deixar aqui o meu testemunho. Não consigo, ainda hoje, fazer da IGV uma bandeira.


(usar como fonte/base os argumentos de um blog de esquerda e´um pouco como ir ao site do Vaticano escolher argumentos. Nem tanto ao mar, nem tanto à serra, Pólo Norte)

Ter S disse...

É isso tudo e muito mais.
Por isso o SIM é importante!

Dina disse...

Concordo perfeitamente. Apenas tenho um apontamento à lei: acho que não deveriam ser isentas de taxas moderadoras

Pólo Norte disse...

Ana,

Acontece que as pessoas que estão a dar a cara pelo projecto de lei para pôr fim à isenção de taxas moderadoras em caso de Interrupção Voluntária da Gravidez (IVG) bem como pela proposta de obrigatoriedade de visualização e assinatura das ecografias obedecem ao preconceito que temos das pessoas de direita. Vir a Teresa Caeiro com a sua voz anasalada falar sobre isto não ajuda à quebra do preconceito (sim, assumo que é um preconceito e uma generalização abusiva mas, a minha experiência, nunca se confrontou com uma pessoa de direita com ar de proletariado e vinda da Margem Sul, pelo que, nice to read about you!).

O que escreves leva-me a querer que não és tu um exemplo representativo da direita a quem me refiro e que é, efectivamente, a maioria significativa de direita. É a esses que me refiro.

O que se defende não é, de facto, terminar com a interrupção voluntária da gravidez de forma legal (não o escrevi em lado nenhum) mas é exercer violência sobre as mulheres que o decidam fazer, através da proposta de que estas sejam obrigada a visualizar e assinar ecografias.

Não defendo que uma mulher que opte por uma IVG tenha que pagar taxas moderadoras porque alguns doentes crónicos têm que comparticipar alguns actos clínicos: acho, antes, que nenhum dos dois grupos deveriam fazê-lo.

Pólo Norte disse...

Mikasha,

Concordamos numa série de pontos. Não defendo que se faça da IVG uma bandeira mas também não acho que ninguém tem que se envergonhar por o ter feito. Eu, por exemplo, gosto muito de poder falar abertamente sobre o assunto, não porque queira fazer dele bandeira, mas porque acredito que não ter esqueletos no armário e não ter medo de falar este assunto pode ajudar à discussão pública sobre o assunto e ao conhecimento de diferentes pontos de vista.

Um beijinho e lamento a tua perda involuntária

L. das horas disse...

Muito bem escrito, gostei de ler. Parabéns. Pode ser que abras algumas mentes.

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