terça-feira, 16 de junho de 2015

E canto baixinho: "O sol é um presente que a aurora traz principalmente p'ra ti"

 [Eu resolvo. As pessoas acham sempre que eu resolvo. E na verdade eu resolvo sempre porque nunca me restou mais nenhuma opção na vida do que resolver.
Todos acham que, para além de eu resolver, que sou forte. E dizem isto com ar de passou-bem, de constatação de um problema e siga em frente: "ela é forte: ela desenrasca-se: ela resolve". Às vezes eu não sei como hei-de-resolver, às vezes eu não sei como me hei-de desenrascar e, muitas vezes, não me sinto forte. Mas todos me olham com ar de "ela resolve" e não há mãos estendidas, conjugação de desenrascanços, forças que ajudem e não me resta nada mais do que resolver. Eu resolvo.
Acho que resolvo desde sempre. Um dia, com 4 anos, no hospital de Alcoitão, internada há uns 6 meses ouvi um médico falar com outro: teria que ser operada novamente, uma cirurgia complicada. Falavam da Segurança Social e com 4 anos ninguém sabe o que significa segurança, nem social e falavam de dinheiro. Contos, falavam em contos, naquela enfermaria, os dois médicos, ignorando que aos 4 anos não se sabe o que é segurança social mas se sabe que todos os contos falados são tantos quantos os que os meus pais nunca poderiam pagar. Não disse nada a ninguém e ali fiquei, a remoer os contos que teriam que ser pagos, a segurança social que eu não sabia o que era, a minha mãe desempregada para me acompanhar nos últimos seis meses e eu não ficar a crescer sozinha entre aquela enfermaria e os corredores axadrezados do Alcoitão, e o meu pai que trabalhava mas que ganhava pouco. Eu ouvi-os: "o dinheiro nunca chega para nada". Chegaria para aquela operação? Tinha 4 anos e pensei "eu resolvo". Pensei que talvez não fosse preciso ser operada, eu podia crescer com as botas ortopédicas e os aparelhos, não era assim tão mau bastava o senhor da oficina olear melhor os aparelhos e eles não chiarem tanto e os cães deixarem de correr atrás de mim, atrás do barulho e do chiar dos malditos aparelhos. O resto, as dores nos pés, o cansaço nas pernas, as bolhas nas plantas dos pés, o não conseguir correr ou dançar, não me importavam: eu resolveria, só bastava um bocadinho de óleo nos malditos aparelhos e os contos deixariam de ser precisos, e a minha mãe não precisaria de ir trabalhar e me deixar sozinha a jogar xadrez nos corredores do Alcoitão, o meu pai não precisaria de voltar a repetir "o dinheiro nunca chega para nada" e ninguém me precisaria de explicar o que significava segurança social. Eu resolvia.
Quando os meus pais se separaram e ficámos as duas naquela cama que, por mais lençóis que se lavassem, cheirava ao meu pai, cheirou sempre durante anos, durante mil mudas de lençóis, eu tive medo. Tinha oito anos e sabia que nada mais voltaria a ser como dantes. Apetecia-me zangar-me com o Mundo, com todos, com a minha mãe, com o meu pai e, principalmente, comigo que deveria ter sido a razão pela qual a cama estava agora vazia. Mas eu era forte. Todos me diziam que eu era uma menina crescida e que tinha que compreender e apoiar a minha mãe e ajudá-la a resolver. E eu quis resolver sempre: tentando resistir ao sono até os meus olhos não aguentarem mais, sabia que a minha mãe chorava sempre que eu adormecia para que eu não lhe visse as lágrimas, logo, se eu não dormisse, ela não chorava. Pensaram mandar-me para uma psicóloga [mandaram], tinha regredido, tinha querido ir dormir para a cama da minha mãe, achavam que era uma regressão. E nunca perceberam que era uma forma de eu resolver: a minha mãe não chorava nunca na minha presença: se eu dormisse na cama dela ela não choraria: se eu não me deixasse adormecer, ela não choraria. E às vezes, de manhã, ela já não tinha os olhos inchados e a cama já não tinha o cheiro do meu pai misturado com as lágrimas da minha mãe. Eu resolvia.
Cresci a acreditar que sou forte porque essa crença é uma espécie de profecia auto-confirmatória, essa crença é o que faz orientar-me para a acção, procurar soluções, ter planos a, b, c, óleos nos aparelhos ortopédicos, opções alternativas, aguentar o sono até a minha mãe adormecer primeiro que eu: resolver.
Estou cansada que os problemas sejam mascarados de desafios. Nunca nada é fácil para mim. É tudo suado, sofrido, em esforço constante e dizem-me que assim dou mais valor às coisas. Não preciso de dar mais valor às coisas, eu sei quanto vale óleo em aparelhos, pálpebras abertas pela noite fora, lençóis lavados sem que lhes saia o cheiro de quem parte. Estou cansada de não me deixarem ser frágil: és forte: lidas bem com o stress: desenrascas-te sempre: resolves.
Às vezes apetece-me escancarar as feridas, em vez de apertá-las à força do sangue estancar, de as esconder, de não mostrar fragilidade, de não deixar que os outros lhes atirem sal para que doam mais. Às vezes sou frágil e quero deixar-me ficar: a Segurança Social pagou a operação: o meu pai nunca voltou: a minha mãe mudou de cama: eu cresci: as feridas podem ficar expostas, sem que eu faça nada com isso, deixá-las apanhar sol: os outros, a vida, o sol resolvem.
Mas depois não aguento a incerteza, o deixar-me levar pelo destino, pelo fado, pelas circunstâncias que não consigo controlar, pela fé. Não consigo deixar as decisões nas mãos de outros, não aguento ficar passiva na vida, à espera que ela se resolva por obra do Espírito Santo, à espera que os outros resolvam. E respiro fundo e renovo a fé em mim, na minha capacidade de me contentar com óleo nos aparelhos ao invés da operação milagrosa, na minha capacidade de me manter acordada para que a minha mãe não chore  [nunca regredi: parentifiquei-me: quis tomar conta dela: os psicólogos, às vezes, não percebem nada].
Às vezes respiro fundo e não me restam mais opções senão ser forte e desenrascar-me: os meus pés andam sem botas ortopédicas: as minhas pernas dançam sem aparelhos que chiam: a minha mãe deixou de chorar.
E amanhã, depois desta insónia, abrirei a janela e deixarei o sol entrar, para cicatrizar a ferida que, logo a seguir, taparei com uma compressa de fé. Fé em mim.
Eu resolverei.]
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