segunda-feira, 8 de junho de 2015

Quando for grande quero saber escrever assim

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Que relação atribulada, a nossa. Desde o dia em que forçou a saída da minha barriga, com tal determinação que a cabeça parecia um míssil, a moleirinha em bico a provocar o pânico nos homens da família, ai senhor doutor que a miúda veio mal formada!, que eu soube que isto não ia ser fácil. Nada de arco-íris nem de frémitos religiosos, nada de um amor esmagador nos segundos depois de parir, nenhuma força telúrica mística e arrebatadora. Só estupefação, um atordoamento como se atropelada por um comboio e a esmagadora responsabilidade de a ter por minha conta, ai se a deixo cair! (e deixaria de facto, duas vezes, mas tivemos sorte). Cresceu em mim na directa proporção da curva expansiva do seu percentil, mas devagarinho: o amor a começar a percorrer-me as veias como o soro que se injecta aos acamados por um cateter, a pingar devagarinho, a circular, até chegar por fim a todo o lado.
Dava-lhe de bom grado a minha vida, para fazer o que quisesse, como faz com a dela: servir às mesas, estudar literatura, distribuir panfletos, ir para a apanha da fruta, desenhar animais estranhos só com um olho, fechar-se no quarto dias a fio a ver televisão, percorrer a Croácia de mochila às costas, sem um resquício aparente de saudade. Desde pequena que me afronta, como uma pequena guerreira a conquistar território, numa teimosia soberana que só quebrava à palmada, as quais ainda hoje me atira de volta, doendo-me mais a mim, agora, do que a ela, na altura. Resisto estoicamente à vontade de ser a sua maior amiga, de lhe saber os segredos. Já vou muito para lá de mãe. Falamos de homens, mas quase sempre para ela concluir que não prestam, e eu a dizer-lhe que nem todos, que muitos prestam, numa espécie de fé invertida, ou paradoxo: fervilha nela uma inocência descrente.
Sofia Vieira in "Maria Capaz"

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