quarta-feira, 29 de julho de 2015

#Menospausdeselfieemaisselfiesdepaus*





Eu tinha uns 5 anos. Estávamos em Viseu num laguinho a andar numa espécie de gaivota (não me lembro onde era o sítio), o meu pai e a minha mãe pedalavam e eu ria-me. Eles guiaram o barquinho até pertinho de um outro barquinho onde estavam amigos a pedalar e eles tiraram-nos um retrato aos três, que ainda está guardado num album da minha infância. Era fácil: bastava pedir a alguém que nos fotografasse, conhecidos ou desconhecidos, com à vontade ou apenas com lata. 
Temos muitas fotografias dos três, num tempo distante onde éramos felizes. mesmo que viajássemos sozinhos. Naquele tempo não havia máquinas de disparos automáticos mas também não era preciso. Pedir a um desconhecido que nos tirasse uma fotografia era um acto natural, confiar num desconhecido que nos segurasse num equipamento fotográfico era inquestionável porque se partia do pressuposto que "toda a gente é honesta até prova de contrário". Cresci a acreditar nisso. 
Tive a minha primeira máquina fotográfica no meu 9º aniversário, primeiro presente após separação dos meus pais, um presente com gosto amargo, só da minha mãe sem o nome dele no embrulho, pela primeira vez. Acompanhou-me na colónia de férias que se seguiu, também pela primeira vez sozinha, andando nas mãos de desconhecidos que passavam a conhecidos na praia, numa espécie de quebra gelo: "Desculpe o incómodo: pode tirar-me uma fotografia?". 
Era assim, sem grandes intelectualizações. Confiávamos nos estranhos, sorríamos e fazíamos poses para eles, metíamos conversa e às vezes eles tornavam-se conhecidos, tiravam-nos fotografias com as suas próprias máquinas, pediam-nos as moradas e enviavam-nas reveladas, semanas depois, porque era assim que a vida era boa, sem grandes merdices. 
Todos os meus amigos de Verão, de colónias, de parques de campismo, terão, certamente, fotografias minhas reveladas como eu tenho deles. Quase todos foram, algures, meus fotógrafos, ainda quando eram estranhos. 
Anos mais tarde fui de lua-de-mel para um país muçulmano. Só os dois, com uma máquina digital com função de disparo automático que nunca usámos. Não havia selfies como as conhecemos hoje mas temos fotografias por todas as cidades do país onde fomos (e foram muitas) tiradas por outros turistas, transeuntes nativos, condutores profissionais de camelos e guias turísticos, de uma senhora que habitava uma casa berbere e de todos os elementos de uma família inteira da Sibéria, de quem ficámos amigos no resort cuja estadia partilhávamos. Quando chegámos a Portugal, tínhamos um postal deles com uma fotografia nossa no palco do resort, num dia especialmente divertido, em que nos tínhamos esquecido da máquina fotográfica no quarto e que, de forma imprevista, nos vimos num cambalacho. 
Consigo recordar-me de inúmeras situações em que as fotografias têm história de alguém por detrás da objectiva e que as memórias são também dessas pessoas, desses encontros e dessas ocasiões. 
Não compro um selfie stick. Resistirei. 
Assumo que talvez já nem toda a gente seja honesta até prova de contrário. Mas sacrifico a minha máquina fotográfica para correr o risco de acreditar que pedir ajuda a outro ser humano para nos eternizar memórias felizes será sempre um melhor princípio que socorrer-me de um pau para o fazer, de forma descrente nos outros e solitariamente autosuficiente. Não o quero ser. 
Resistirei. 

(*Título meramente controverso depois de sugestão de uma leitora brasileira do "Quadripolaridades". Estou capaz de fazer uma t-shirt com este hashtag!")

2 comentários:

Ana Macedo disse...

Como é bom ler alguém que a cada ideia parece que nos tira palavras da boca!

Purpurina disse...

Pois eu estou ansiosa para comprar um "pau de selfies". Tenho muitas e boas fotos tiradas por outras pessoas, turistas, senhoras que encontrava num museu qualquer de Londres que estavam sozinhas, tal como eu e me pediam para trocar "favores fotográficos".
Mas há alturas em que não dá mesmo para pedir a ninguém, talvez por não haver mais ninguém no sítio. Cansei-me de tirar fotos de duas cabeças a tapar o big ben, duas cabeças a tapar a Golden Gate, duas cabeças a tapar a cascata mais fresca, etc.

O meu namorado, aborrecidamente, pensa exatamente como tu, por isso parece que de oferta de aniversário não vou ter o tal "pau de selfies". :)

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