quinta-feira, 9 de julho de 2015

Nem brilhante nem medíocre, normal tão pouco: única.

"Já sabes escrever o teu nome, minha querida?"- perguntou-lhe a senhora enquanto lhe afagava o o remoínho de cabelo. 
A miúda nem percebeu a pergunta. Respondeu "Ana" naquela de "se calhar está a perguntar-me o nome" e eu acrescentei que "escrever, escrever, sabe escrever desenhos imperceptíveis para adultos e olarilas". A senhora lá me falou que o neto com 3 anos já sabia escrever o nome, que aos 4 iria aprender a ler, segundo a metodologia da escola onde andava e da qual eu conheço um bocadinho, por ter filhos de amigas que a frequentam. Falou com orgulho desmedido, da precocidade da criança, de como achava que se devia, cada vez mais cedo, preparar os miúdos para o futuro, para a competição, que o Mundo não perdoa e que só se safam os mais rápidos, mais eficazes, mais estimulados. 
Não concordo nem tenho que concordar. Cada um sabe das suas crenças, dos seus valores, da educação que se encaixa melhor na sua dinâmica familiar 
Nós queremos que a Ana seja criança sem obrigações académicas formais.
Acreditamos mais no poder da educação não formal que na da formal. Acreditamos mais que se aprendam operações numéricas a subir degraus ou a contar as pêras que se apanham do chão do pomar do Zé António que através da representação gráfica de um número. E acreditamos que as operações numéricas se aprendem quando se tem que dividir um cartuxo de línguas de gato com a melhor amiga ou contar a soma das bonecas que se colecciona. Que a atenção se treina quando se vai verificar quais os autocolantes que faltam para completar a colecção de cromos e que a memória se exercita quando tem que se decorar o nome de todas as tias e primas que vivem nos Açores. 
A Ana não sabe escrever o seu nome aos quase 3 anos. Nem saberá ler nestes tempos que se avizinham, provavelmente, a não ser que manifeste um especial interesse em fazê-lo. Sabe contar até 20 porque gosta de ladaínhas e de sons. Adora música e inventa as letras que não consegue decorar. Fala que se farta mas tem uma terrível coordenação motora. Tem um bom raciocínio lógico como têm 99% dos miúdos desta idade. O seu melhor atributo é a curiosidade, que alimentamos, estimulamos e incentivamos todos os dias. Não é uma miúda brilhante nem com atributos cognitivos diferenciadores. Também não é medíocre. Pinta quando e o que lhe apetece, folheia livros e fecha-os quando lhe dá na real gana, canta mais do que nós desejaríamos (ahahahah!), tem uma memória fabulosa para histórias e músicas e tudo o que verdadeiramente lhe interessa e é criativa sem que a pressionemos. Acreditamos que, perante este quadro, à Ana (ainda) não faz falta aprender a ler. Ou fazer contas. Ou saber de cor rios que nunca visitou. 
"Ah, então a tua filha é normal?". Como queiram. Preferimos acreditar que, como cada criança que existe, é única.
 E isso é o que a torna tão especial. 

12 comentários:

K disse...

Concordo, em absoluto, com a vossa escolha e se acaso, tivesse um filho (creio) faria igual. Criança tem de ser cirança. Tem muito tempo para ser "infernizada" com uma serie de coisas.
E claro que não tenho nada a ver com isso, afinal, a filha é vossa!
Bjs

Lingua Afiada disse...

Acho que cada um educa os filhos como bem entende, mas acho que impor a uma criança tão pequena aprender a ler e a escrever sem que ela tenha manifestado interesse é um pouco roubar-lhe a infância.
Se acho que com 6 anos é cedo para estar numa turma onde o ensino é uniforme para todas as crianças aos 3/ 4 anos acho isso extremamente castrador.
As brincadeiras como bem descreves são importantes fontes de aprendizagem, preencher os dias das crianças com atividades predefinidas em vez de as estimular pode mesmo desmotiva-las.

Diana Machado disse...

é maravilhoso ler isto :) serei defensora do mesmo um dia quando tiver filhos, têm de correr, sujar-se, pular, brincar, cansar-se, apesar de termos de os estimular obviamente como qualquer figura parental interessada e cuidadora...temos principalmente de os deixar ter infância. depois não querem que cada vez mais as crianças sejam agressivas...tomara, com os intervalos retirados e com os horários escolares cada vez mais preenchidos e com metodologias todas xpto já nas creches para aprenderem mais rápido...claro que se tornam frustrados e agressivos.

Sérgio disse...

A minha também é "normal", graças a Deus.

Vera disse...

O meu ainda não nasceu mas... quero-o bem normal! Tenho um caso próximo em que a menina andava numa escola xpto, n activdades extra e tudo tudo. Perto dos 10 anos disse à mãe que "quando for grande quero ser desempregada" "Porquê?" "para ter tempo para brincar"...

AL disse...

A Helena aprendeu a contar até 10 no tapete do quarto com o jogo da macaca.
Sabe o H dela, o A da mãe e o L do pai.
Letras? Só se houver alguém cujo nome se escreve com determinada letra, mas não sei pq ouviu uma vez dabiliu (W) e repete dabiliu com vontade:))
Gosta de contar as pintarolas que come...

Conta até 20 maravilhosamente, os pais preferem o dezazoito, nem dezóito à Porto nem dezôito como aí em baixo, dezazoito foi a conta que Deus fez:))))

Volto ao meu termo de comparação se hoje foi mais feliz que ontem, e se se divertiu com o que dia lhe trouxe;)

Há pouco: mãe peciso de pilas, já!!

Sim, não diz o r fraco nem os lhes e nhes, e só por isso fica ainda mais doce ao falar.

Ninean disse...

Já é o segundo post do dia com o qual concordo plenamente (o outro foi a banda desenhada de Bill Watterson). E creio que tudo se resume ao mesmo, dar o nosso melhor pela nossa família, especialmente os filhos.

Paula disse...

Maravilhoso! Como educadora identifico-me com o que li.Só é
pena existir tanta gente que não consegue chegar lá...Coitadas das crianças!

Ninean disse...

Já agora, e se não fôr muito atrevimento, queria deixar aqui o link para o meu blogue: possoteraminhaopiniao.blogspot.pt
Obrigada

Raquel Ribeiro disse...

O meu filho aprendeu as letras no pre escolar aos 5, sem Gd importância, já q a educadora não era apologista de saltar etapas (yes) e aprendeu a ler e escrever no 1º ano, aos 6...
Tudo normalissimo! É tão bom não querer ser mais do que os outros...

República da Bicharada Clínica Veterinária disse...

o meu filho tem 5,5 anos e eu preferi deixá-lo ainda no infantário que o meter na pré pública.
Pq acho que não lhe faz falta começar já a ler, a escrever, a contar, a ter trabalhos de casa. Faz lhe falta, isso sim, aprender a brincar. COrrer, pular, cantar, inventar histórias de dragões com zombies...
No infantério já está na turma dos mais velhos e começam a prepará-los para a primária. Mesmo assim de uma forma mais suave do que se fosse para a pré publica. Já sabe escrever o nome dele, mas com que dificuldade! Já sabes letras e conta sozinho até sei lá que nº. Por vezes esquece-se da transição (tipo 49.... e eu ajudo, cinquenta, e ele repete 50, 51, 52, (...), 59... sessenta 60, 61...
Nem sabes as críticas que ouvi por não o por na pré. Sendo algumas delas as simples "Vai estar bem mais à frente qdo for para a escola", " é preciso começar desde cedo" até ao simples "a pré pública é grátis!" (e eu até preciso do dinheiro mas o deixar o meu filho ser simplesmente criança mais uns tempos não tem preço)
De qqro forma acredito que, tal como eu, que me recusei a aprender antes de ir para a escola, que, qdo ele for para a escola, a verdadeira, aprenderá. Na altura certa. Até lá, é apenas criança cuja unica obrigação é brincar e divertir-se!

Purpurina disse...

Acredito, acima de tudo, que as crianças devem ser iguais a elas próprias, com as suas preferências e o seu próprio ritmo e com a liberdade de poderem brincar e aprender no tempo certo, que elas é que poderão definir, pelo menos até aos 5, 6 anos. Agora elas serão muito influenciadas pelos pais e pelas pessoas mais próximas, e isso está tudo certo. O que, no meu ponto de vista completamente subjetivo, pode não estar tão certo é colocar nos filhos as expetativas de vida e de carreira que os pais não puderam ou não quiseram atingir. Os miúdos não são Sims que treinemos para serem bem sucedidos profissionalmente um dia. Pudéssemos nós treiná-los para serem felizes. :)

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