quinta-feira, 2 de julho de 2015

Passou o dói-dói

[Permites alguém entrar tão fundo em ti, mas tão fundo, que só assim é possível que te consiga atingir. E esse alguém faz-te mal. Magoa-te.
Dói que se farta: alma esfolada, coração em sangue. Engoles as lágrimas que o teu orgulho não deixa chorares e segues em frente.
Apagas sms do telemóvel, fotografias do pc, textos do blog. Começas por bloqueá-lo no msn depois, à força do peito esmagado de cada vez que o vês on line, apaga-lo de vez. Deitas para o lixo todos os objectos que te ligam a ele, deixas de usar as mesmas expressões, quebras rotinas, evitas lugares comuns. Descaracterizas-te dele. Rezas para nunca mais te cruzares com ele e sabes que a isso se chama negação ou evitação mas não queres saber de Psicologia para nada.
Primeiro não lhe consegues desejar mal: ainda gostas demasiado dele. Depois ganhas-lhe raiva. E desejas-lhe que nunca mais arranje outra gaja e mesmo que arranje formulas-lhe votos de lepra na pila e chatos gigante nos tin-tins. E se não arranjar mesmo, torces para que lhe caiam todos os dedos, um por um, para nem sequer se conseguir masturbar.
Depois já não pensas nele todos os dias quando acordas nem quando te deitas. E cada vez vais pensando menos nele. E não lhe desejas nem bem nem mal: não lhe desejas nada.
Um dia, dás por ti de férias, pele dourada ao sol, e percebes que já nem te lembravas dele há mais de um mês. E esses pensamentos são cada vez mais intervalados. E chega finalmente o dia derradeiro, passados 476 dias do fim, em que ouves, pela primeira vez sem mudares automaticamente de frequência, a música que era vossa, do princípio ao fim. E gostas. Porque é apenas uma boa música. 
Passou o dói-dói.]

                            

15 comentários:

Pipoca dos Saltos Altos disse...

Estou aqui de máscara no chão.... e sem saber bem o que dizer. Mas é como escreves, um dia damos por nós a lembrarmo-nos que ele não nos rasgava o peito há um mês. Ao contrário de ti, ainda não me permito a ouvir a música, apesar de terem passado 415 dias...
Beijo

Pedro disse...

Eu posso não levar tantos dias a ter o doi-doi. Mas o problema é mesmo a música. E isso é que é uma grande chatice.

Mirovich disse...

Xiiiiii!
que raio de estirpe é essa que são necessários 451 dias de convalescencia (10 dias dores de cabeça + 20 dias de repouso absoluto + 40 de dores de ouvido + 50 de dor de cotovelo + 100 sem sair de casa + 231 no ginásio)?
LoooL
Ás vezes olhamos ara o lado e encontramos a felicidade.

Gata Escaldada disse...

E nesse dia chega a Primavera. E o tempo cá dentro é verde, de renascimento e de luz, e há um momento em que sorrimos espontaneamente sem dar por isso, e nem percebemos o Inverno em que estivemos mergulhados

continuando assim... disse...

upssss

nada comigo :)

bj
passarei mais tarde :)

teresa

Pipoca dos Saltos Altos disse...

Um devido mimo no meu blogue para ti.

R. Branco disse...

Isto arrebatou comigo mesmo. Sim, vou esperar até poder ouvir a música...
Ainda que não tivesse nada a ver comigo, obrigado pelo texto! ;)

Diana disse...

Bem, vi a "dedicatória" da pipoca para ti no seu blog. Tenho a dizer-te que também me tocou imenso este post. OBRIGADA! Mesmo não sendo directamente para mim, acabou por me afectar. e não sabes que vontade enorme de erguer a cabeça... partir para a conquista de novos mundos.
Beijinhos. boa escrita* Parabens!

gimbras.nofuturo.com disse...

Está aqui uma excelente descrição do processo de curagem do dói-dói. Recomendarei este post a quem precisar desta motivação.

Muito bom.

katie. disse...

Vim porque leio religiosamente o blog da Pipoca. E agora dei comigo a pensar... "deus queira" (com muitas aspas pq eu nem acredito nestas coisas) que não sejam precisos 476 dias... =S
quando quiseres:
http://diariodanossaausencia.blogspot.com

Deb disse...

O processo está todo aqui bem descrito.Já nem me lembrava como era, mas é mesmo assim.

Joaninha disse...

O meu doi-doi doi que se farta, já passaram pelo menos 90 dias e eu recuso-me a ouvir Donna Maria para não me descontolar:( vou-me distraindo ao máximo para não pensar em disparates;)
Adorei este post****

Kitty * disse...

Obrigada.

BlueAngel disse...

Só li isto hoje e esta era a "nossa múisica" e foi há muitos dias, bem mais que que 476, e ainda dói. E eu ainda faria "one thousand miles just to be with you".... :-) Adorei este post, mesmo! :-)

Lullaby disse...

estou ainda em processo de luto (e luta, vá..) e acredito que não é tanto uma questão de tempo, mas sim uma questão de circunstâncias e oportunidade: às vezes o dói-dói passa mais rápido do que outras e isso não significa que o amor tenha sido maior ou menor.
esquecer um grande amor nunca é possível na minha opinião, mas lembrarmo-nos mais de NÓS é a palavra de ordem. grande texto :)

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