quinta-feira, 9 de julho de 2015

Quando uma morte te deixa calada uns dias

A miúda tinha 11 anos e tinha acabado de escrever dois livros. Assim de uma vez, um delírio disparatado da editora: dois pequenos livros de uma vez. Num uma colectânea pueril e  naïf de versinhos, noutro um conto infantil que tinha ganho um prémio de literatura infantil. Palavras toscas, nada que quase 25 anos depois a miúda se viesse a orgulhar.
Um dia chamam-na ao Conselho Directivo e põem-lhe à frente um papel de carta distinto. A senhora dirigia-lhe palavras bonitas, falava-lhe em poesia e sensibilidade e desejava que ela nunca deixasse de escrever nem que a vida lhe tirasse o sentido de justiça.A assinatura era bonita e desenhada. Guardou o papel numa mica até chegar a casa e a mãe o guardar como se fosse uma preciosidade num dossier que comprara na Papelaria Fernandes e onde arquivava todas as memórias importantes da miúda. 
A miúda ficou sem palavras, como naqueles dias, quase 25 anos depois, em que assistiu pela televisão ao cortejo fúnebre da senhora. E sabe que nunca deixou de escrever nem nunca abdicou do seu sentido de justiça-  sob pena de muita gente não a compreender- também por causa daquela carta, daquelas palavras, daquela assinatura desenhada e do tempo que aquela senhora importante, lá longe, no Palácio de Belém, tinha dedicada a uma miúda de subúrbio que escrevera dois pequenos livros de que nunca se viria a orgulhar, só porque sim. 

2 comentários:

Xica Maria disse...

<3 <3 <3
Há pessoas que fazem a diferença na vida de outras.

Paula disse...

E assim, fico calada.
vidademulheraos40.blogspot.com.

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