quinta-feira, 23 de julho de 2015

Sobre o nojo da alteração à Lei da Interrupção Voluntária da Gravidez

"Não se pode decretar intervenção psicológica obrigatória quando a IVG é legal.

A psicologia não é nem pode ser o braço armado de um poder político moralista (os episódios negros da história da profissão demonstram-no). Tem regras próprias, estáveis, que emergem de um corpo de conhecimentos teórico-técnicos e nunca de voluntarismos; tem uma matriz ética e deontológica que não pode ser atropelada por poderes circunstanciais. Deixando-se passivamente enredar nisto, a Ordem dos Psicólogos Portugueses (à qual compete zelar pela qualidade da prática profissional), arrisca-se a reforçar a ideia de alguns críticos de que a psicologia tem servido como técnica de controlo social e não como promotora do bem psicológico e social (bem-estar, saúde, desenvolvimento, empoderamento são exemplos de variantes desta ideia basilar) de quem a procura e/ou nos contextos onde se propõe intervir. Não esquecer que 1) a legitimidade da intervenção não é decorrência direta de qualquer lei ou decreto: decorre, antes de mais, do respeito da vontade – vulgo “aceitação incondicional” – das pessoas e da qualidade da relação psicólogo-utente; 2) as intervenções não devem impor ou sugerir ao utente uma visão predeterminada de si e do mundo, princípio fortemente comprometido na proposta do PSD/CDS, dado que só por si o carácter obrigatório do “acompanhamento” transmite à pessoa e à sociedade que “algo está errado nela”, isto para não falar no viés católico de muitas IPSS, às quais se pretende atribuir responsabilidades nesta matéria.

Daniela Ormonde, Psicóloga, candidata LIVRE/TEMPO DE AVANÇAR pelo círculo do Porto
aqui

2 comentários:

AMS disse...

Isto só vem corroborar a minha opinião de que há, infelizmente, muita gente que continua sem sequer fazer ideia do que é a psicologia e a sua prática clínica e que a ordem deixa muito a desejar nesta e noutras situações. É por estas e por, muitas, outras que vou suspender a minha inscrição na mesma e afastar-me da prática clínica por uns tempos. Intervenção psicológica obrigatória porque alguém decide fazer algo que tem toda a liberdade de o fazer, que não traduz nenhum desequilibro, disfunção, patologia, é qualquer coisa que teriam de me explicar a sua pertinência como se eu fosse muito burra!(se calhar sou!)
Andreia Santos

Petra disse...

Uma intervenção psicológica nunca mas nunca pode ser obrigatória! Isto é ridículo. Tanta parvoíce junta.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...