sábado, 15 de agosto de 2015

Educa-se sempre para reproduzir momentos de felicidade e para nos reconciliarmos com os próprios recalcamentos.*





O tio Paulo ofereceu-lhe o vestido de princesa Elsa. Um saco cheio de presentes ali a serem abertos na esplanada, olhos brilhantes de entusiasmo. O embrulho do vestido, o "ahhh" e o pedido imediato para lhe trocarmos de roupa, era urgente, não podia esperar.
Enquanto almoçávamos entre amigos a Ana tornou-se princesa. Não era apenas o vestido, era a crença incorporada na pose, na voz, nos olhos. Era a cabeça erguida para não sucumbir ao peso da coroa, as mãos a tocarem no cetim e no tule, as gargalhadas. Os olhares admirados dos outros miúdos que passavam, o riso divertido de alguns adultos, o olhar de censura de outros pais ("que jeito é que isto tem? Mas estamos no Carnaval ou quê?"), a voz da Ana, indiferente a todos, formosa e segura com a sua saia com saiote armado, tule  na cauda, mangas de sonho, coroa na cabeça. 
Passa uma senhora velhinha e sorri. Passa-lhe a mãe pelo cabelo: "Olha, tu és mesmo uma princesa?" "Sou!"- responde, sem hesitação. E sorri com a sorriso cheio de sonhos, de imaginação e fantasia. 
No carro tem dificuldade em encaixar aquele cupcake dress todo na cadeirinha. Trocamos novamente de roupa, para dar mais jeito. A Ana choraminga: "Ohhh, já não sou uma princesa!". O pai pára o carro e olha-a nos olhos: "Tu és sempre uma princesa, às vezes também usas um vestido de princesa mas mesmo quando usas calças, saias ou calções, nunca deixas de ser uma princesa!".
"É verdade, mãe?"
"É filha, és sempre uma princesa!"
Ela sorriu.
"Mas quando sairmos do carro posso vestir outra vez o meu vestido?"

Pode. Naquele dia na esplanada. E hoje também. E sempre que lhe apetecer que o Mundo perceba o que nós sabemos desde sempre: ela é, efectivamente, uma princesa. 
O vestido é só para o afirmar.


(*Não, a minha mãe nunca me vestiu de princesa)

5 comentários:

CS disse...

A minha sai de casa vezes sem conta de coroa na cabeça. Nunca antes tinha eu ido ao hiper com uma princesa. Tenho o vestido da frozen encomendado. Quando chegar já sei que irá para todo o lado. Eu gosto de a ver tão feliz e afinal: Mãe de princesa é rainha! Bj à princesa Ana e aos reis seus pais.

Patrícia Bejinha disse...

Que princesa linda!
E estas sao palavras que nunca pensei ler aqui, mas com as quais concordo num piscar de olhos. E também eu tenho recalcamentos. E também a mim me dói a alma por comprar merdas foleiras e cheias de brilhantes da Ana e da Elsa só para ver aqueles olhos a brilhar e toda ela voar por instantes sem sequer tirar os pés do chão. Não, nunca me exigiu que lhe comprasse o que quer que seja (fora um gelado ou outro). Todas as foleirices foram lhe oferecidas voluntáriamente. E sim, tambem já andou de Elsa na rua, e não era carnaval nem fazia anos.
Um dia isto vai passar, e é bem mais rápido do que imaginamos. Há que cultivar a magia e a imaginação (e isto ajuda), enquanto tudo não passa.

Dulce Campos disse...

A minha filha também é a minha princesa, seja de que forma for.
Não censuro os pais que as deixam fantasiar-se um pouco fora do Carnaval. Que mal há nisso? Deixemo-las sonhar enquanto podem! Não sabemos o que o futuro lhes reserva, mas sabemos que quando chegamos a adultos, os sonhos são normalmente muito difícil de realizar...
Em criança só me disfarçava de princesa no Carnaval, mas a alegria era imensa!... Não tive uma infância de todo feliz, mas guardo na memória com alegria a maravilhosa sensação de ser princesa nesse dia!...

Caroline disse...

Mais do que eu deixar a minha filha ir para a escola de coroa na cabeça, a minha mãe que nunca o fez a mim, deixa agora a neta andar com todos os acessorios de princesa que quer, onde quer que seja(ou de minnie, aquelas bandoletes de plastico com o laço da minnie que tem luzes a piscar...)

Angela disse...

Aos 38 anos o meu pai ainda me trata por princesa. Que as princesas que vivem dentro de cada menina, permaneçam com elas a vida toda!

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