segunda-feira, 7 de setembro de 2015

1º dia de Jardim de Infância: não chorei!

Não foi tranquila a caminhada até ao dia de hoje. Foi tranquilíssima.
Optámos, ainda durante a gravidez, por deixar a Ana aos cuidados da avó e da tia-avó até aos 3 anos. No primeiro ano de vida acompanhei-a a tempo inteiro. Foi incrivelmente bom e toda a dinâmica correu na perfeição e todos os intervenientes cresceram em conjunto estes três anos, felizes e contentes. 
A Ana tornou-se uma menina. Eu cresci como mãe. A minha mãe cresceu como avó. E a minha tia cresceu também como avó, já que foi esse o seu papel que, honoravelmente, desempenhou. 
Fomos felizes as quatro. Muito. (O pai também, mas quando falo de mim falo de mim enquanto casal, elemento uno). 
A Ana foi mimada até à exaustão (na nossa família o mimo é encarado como algo bom e positivo), cresceu com segurança e confiança, com cuidados cheios de estímulo e amor. Muito amor. Está crescida e esperta, com aquisições fabulosas ao nível da sua área da linguagem e cognição. Adora música e histórias. Representa como ninguém. É tímida nos contactos iniciais mas depois de conquistar confiança ninguém a pára. Tem uma memória prodigiosa e uma imaginação maravilhosa. A nível motor precisa de progredir: é trapalhona e pouco "física". Do ponto de vista geral está uma miúda muito fixe para a sua idade. E feliz. Já disse que a Ana é incrivelmente feliz?
Eu cresci muito nestes últimos três anos. Mas pude crescer como mãe com serenidade, tranquilidade e segurança. Confiar a Ana aos cuidados das pessoas em quem mais confio no Mundo enquanto ela crescia e adquiria competências básicas foi a melhor decisão que eu poderia ter tomado. 
A minha mãe e tia tornaram-se pessoas mais felizes porque a Ana existe. Riem mais, têm mil histórias diárias para contar, voltaram a brincar (e sabem brincar melhor do que eu) e chegam ao fim do dia estafadas mas sempre bem dispostas e felizes. 
Dizem que é preciso uma aldeia inteira para educar uma criança. Eu acrescento que basta uma criança para fazer feliz uma aldeia inteira. 
Na última semana fomos, muito ocasionalmente, falando deste dia para a preparar para o que aí vinha. Não insistimos muito na conversa nem falámos todos os dias para não lhe dar uma tónica muito formal nem para darmos destaque ao que queremos que seja encarado com naturalidade.  
Na sexta-feira passada fomos entregar material na escola e levámo-la. A escola começou na quinta-feira para os meninos que já a frequentam e decidimos em conjunto com a educadora que ela só iria hoje por se tratar do único caso de integração da sala. Deixámos passar os dois dias iniciais, e reencontros entre velhos amigos separados um Verão inteiro, de maior caos e balbúrdia, de reajustamento para hoje integrarmos a Ana na dinâmica do grupo. Sexta-feira passada a Ana conheceu os colegas à tarde, enquanto brincavam livremente num dos parques infantis do colégio. Entrou a medo no recinto mas logo travou amizade com uma menina e nunca mais se largaram. Abençoada!  Fiquei lá dez minutos à espera que se quisesse vir embora, depois já era meia hora e uma hora depois a Ana veio ter comigo, que a observava curiosa, e disse-me "Podes ir trabalhar!". Aproveitei a deixa e fui até à pastelaria ali a 100 metros, para ver como ela reagia à minha ausência. Quando cheguei, meia hora depois, chamei-a. Levantou os olhos e suplicou "Mãããeee, só mais um bocadinho". Duas horas depois regressámos. 
Ontem à noite dissemos-lhe que hoje haveria novamente escola e que poderia ir brincar com a nova amiga. Foi buscar a nova mochila e meteu lá dentro o chapéu da farda e a sua chucha (que só usa em S.O.S. mas da qual não prescindiu no dia de hoje). Não verbalizou ansiedade nenhuma mas quis adormecer na nossa cama. Deixámos. 
Hoje foi o primeiro dia. 
Chegámos mais tarde para evitar que a Ana visse a chegada dos meninos da outra sala que estão todos em fase de integração e não fosse contagiada pelo choro.  Chegámos uma hora mais tarde e a amiga veio logo a correr acolhê-la. São as duas únicas raparigas da sala e prevejo que o contacto com tantos meninos lhe vá estimular, precisamente, a parte motora que é a sua área menos forte. 
Fiquei algum tempo na sala. Sentada no chão a um cantinho para ela sentir que eu estava por perto. Tínhamos combinado com a educadora que eu sairia quando a Ana achasse que era hora de eu sair: sozinha ou na sua companhia. Assim foi. 
Estive sempre em silêncio. A Ana começou a explorar o espaço. A amiga seguia-a a ia-lhe apresentando os brinquedos e os diferentes espaços de brincadeira. Vi a educadora a trabalhar e identifico-me com a sua linha pedagógica: o Movimento Escola Moderna. De vez em quando a Ana olhava-me pelo canto do olho, para se certificar que eu ainda ali estava. Depois, sozinha, por auto-recriação, do nada, veio ter comigo: "Mãe, podes ir trabalhar!". Olhei-a nos olhos com atenção e disse-lhe que a voltaria a apanhar antes de almoço, quando descessem para o ginásio. Perguntei-lhe se sabia a quem deveria recorrer se precisasse de alguma coisa. Disse-me o nome da educadora, de forma segura e calma. Não prolonguei aquele momento mas o meu coração batia a mil. Sussurrei um até logo e um "I love you". Virou-me as costas e foi brincar. 
Viemos fazer tempo para a mesma pastelaria. Concordámos que das decisões que já tomámos, muitas delas erradas ou desajustadas, esta de a integrar no Jardim de Infância aos 3 anos foi a melhor tendo em conta as características da nossa filha, as nossas e as da nossa dinâmica familiar. A Ana sabe exprimir-se verbalmente bem e pode-nos relatar a sua opinião acerca da escola, do que gosta e do que não gosta, o que fez e como fez. Isso dá-nos segurança. Também já tem noção do tempo e  das rotinas e sabe que não lhe mentimos. Não lhe dissemos  "até já" ou "já voltamos": demos-lhe indicações precisas de quando a viríamos buscar ("quando forem para o ginásio, os pais voltam para te vir buscar"), o que reduz a ansiedade, não torna o regresso a nós imprevisível e vago e lhe dá segurança que, de facto, controla esse momento do reencontro connosco. E assim foi, quando todos os meninos desceram para o ginásio, para aguardarem a sua vez de entrarem no refeitório, ela viu-nos. Sorriu mas não veio ter connosco. Quando viu os outros dirigirem-se para as mesas para almoçar pediu-nos para os acompanhar. Acedemos. 
Voltámos uma hora depois, seguindo instruções da educadora. Obedecemos a todas as instruções dela acerca de rotinas e de estratégias. Completamos as mesmas com indicações acerca de traços de personalidade da Ana para ela as poder ajustar. Somos uma equipa. É isso que sinto: somos uma equipa que quer o melhor para a Ana. Hoje correu muito, muito bem. 
Quando voltámos veio para o meu colo. Deu um beijo à educadora e despediu-se com um "I love you". Fiquei orgulhosa! Pediu-me para ir para a casa da avó de seguida (está a ressacar o mimo e a atenção exclusiva). 
Acreditamos que este comportamento é capaz de reverter a meio da semana, quando a novidade passar. Um dia de cada vez e, se assim for, pelo menos tenho a sensação de que o será numa altura em que já houve quebra-gelo e está a criar relação com a educadora e os outros meninos, que já não os vê como completos estranhos. E isso torna a situação menos angustiante e mais segura. Para todos nós. Eu só quero que ela continue feliz.
E tu, Liliana? Eu não chorei. Mas, caraças, tive o coração apertado toda a manhã e ainda não desatei o meu nó na garganta. Mas acho que superei o desafio. 
Ninguém nos prepara para o crescimento dos filhos. E é tão maravilhoso como angustiante. Ninguém nos prepara para o nosso próprio crescimento, para os diferentes papéis que temos que assumir e os desafios inerentes a cada um deles. Deixei de ser a Liliana, neste contexto. Começou a escola e sou a mãe da Ana. 
E não me importo nada, mas mesmo nada. É "formigável!".

1 comentário:

Marta Mendes disse...

Possas, chorei eu. A antecipação é o pior dos sofrimentos. A minha Ana entrará para o ano, também aos 3 anos, processos (até ver parecidos). Espero que assim continuem e que a entrada dela também seja tranquila. Well done Pólo e Mamém! Obrigado por mostrares que iniciar adaptação ao pré-escolar pode ser tranquila !

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