quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Foram os primeiros dias dos restos de muitas vidas

O Sérgio não consegue movimentar-se bem na sua própria casa. Os móveis necessários deixam pouco espaço na casa minúscula. A cadeira de rodas quase não sai do lugar, no trilho curtíssimo entre o quarto e a sala. Tudo o resto é providenciado pela família cansada e exausta por ter que o carregar para a mesa, a casa de banho. Foi a sua primeira vez num campo de férias. Tem 30 anos e não sabia como gerir a liberdade que o espaço permite. Informava-me de todos os movimentos: "Liliana, vou à casa de banho!", "Liliana, vou ao quarto buscar isto". Um dia disse-lhe que não precisava de me dizer todos os movimentos que fazia, que era adulto, que tinha liberdade para fazer o que bem entendesse. "Tenho medo que depois não saibas onde eu estou". O Sérgio tinha medo que eu o perdesse num perímetro de um quilómetro. No fim da semana ele mexia-se mais agilmente, tomava sozinho decisões básicas: ir aqui ou ali, sem pedir autorização, sem avisar, sem medo de se perder. Tem 30 anos e está sempre em casa. Não quis ir fazer surf. (Ainda) tinha medo. O mar é demasiado, é imenso, quando comprado com o trilho minúsculo entre a sala e o quarto da sua casa. No último dia disse-me que já não tinha medo de se perder. "Se eu perder, eu sei que vocês me encontram, né?" Para o ano reservamos uma prancha de surf. Reservamos-lhe.

O Miguel, na cadeira de rodas, picou-nos o campo de férias todo. Queria dançar. Mas dançar de pé, dançar sem rodas, nem deslizes, dançar sem troncos sentados. Dançar de pé, suportado nas suas pernas que outrora já dançaram. Dançar no alto da sua altura (e o Miguel é mesmo alto, caramba!), dançar com a Maria, a Maria Mérida princesa que pousou a cabeça nos ombros do Miguel, no meio de uma discoteca improvisada, cadeiras à volta a rodopiar. O Miguel de pé. A cabeça da Maria pousada nos seus ombros.O Miguel, finalmente, a dançar. De pé. 

A Sofia é a mais destemida do grupo. Não tem medo de nada, e todos os medos lhe poderiam ser ligitimados. Foi a primeira a dizer que queria experimentar o surf. Tímida a vestir o fato, numa timidez que não lhe conhecíamos. Mais calada. Assim que a transportaram para a areia os seus olhos encheram-se de luz. E a Sofia tem uns olhos lindos, lindos de lua e de sol! Nas suas mãos os grãos grossos de areia da praia do Labrego e o seu sorriso: "Há mais de 10 anos que não tocava em areia" e acariciava a areia daquele jeito que só as crianças fazem. Com a alegria de quem descobre uma coisa pela primeira vez. Em Lisboa, a Sofia não mora longe da praia. Há 10 anos que não a pisava. Entrou  no mar frio da Vagueira e engoliu-o todo, num só sorriso. À saída os olhos eram riso e o riso tinha a força do seu olhar. "Há mais de dez anos que não sentia o fresco da água do mar na cara, o sal nos lábios" A Sofia é a mais destemida do grupo. Há mais de dez anos que não vinha à praia. Não voltarão a passar outros dez. Prometemos (lhe). 

4 comentários:

Escrever Fotografar Sonhar disse...

E isto é só uma pontinha do que realmente é viver limitado. Ninguém imagina como é. Obrigado pela partilha. Uma lição e uma inspiração. Obrigado.

Su disse...

Se soubesse que estavam perto de mim teria ido apoiar como voluntária! Caso voltem cá para o ano quero mesmo ajudar.

Obrigada,

Susana Senos

Joana Sousa disse...

Tocante - faz-me pensar nas coisas que tenho a sorte de poder fazer e às quais nem ligo. Tão boa iniciativa :)

Jiji

vera ferraz disse...

Ainda não tinha lido. Muito bom. Se me deixares, para o ano repetimos!

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