quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Miscelânea de pensamentos ou O Inferno (não) são os outros



Existe, em Psicologia, um teste chamado "TST- twenty statement test" que serve para medir o auto-conceito. O testo é simples: numa folha branca existe a pergunta "Quem sou eu?" e os respondentes são convidados a preencher 20 linhas numeradas de 1 a 20 com as suas respostas. Regra geral, as pessoas tendem a definir-se segundo 4 grandes categorias: atributos físicos (ex: "sou alta" ou "tenho olhos castanhos"), papéis sociais (ex: "sou mãe") , traços de personalidade (ex: "sou segura" ou "sou impaciente") ou questões existenciais (ex: "sou uma pessoa").
Lembro-me de ter preenchido este teste numa aula da faculdade e lembro-me, perfeitamente, da minha primeira resposta: "Sou um ser humano". Tinha 18 anos, acabados de fazer.
Existe uma pirâmide muito engraçada chamada "Pirâmide de Maslow". Trata-se de uma divisão hierárquica onde as necessidades de nível inferior devem ser satisfeitas antes das necessidades de nível mais alto. Assenta no pressuposto de que cada um tem de "escalar" uma hierarquia de necessidades para atingir a sua auto-realização. No primeiro degrau está a fome, a sede, a respiração. basicamente, a vida.

Tenho assistido, nessa assembleia da democracia que é o facebook, a muitos argumentos contra o acolhimento de refugiados com a brilhante desculpa de "temos que cuidar dos "nossos" antes de cuidar dos outros". Não sei quem são "os nossos" a que se referem eles. Categorizar em castas o ser humano quando ele luta pela necessidade mais básica- a da sobrevivência dá-me náuseas. Acreditar que a ajuda deve ser dada rateada, que se se ajuda "a" dever-se-ia antes ajudar "b"e que a ajuda é um recurso limitado e que não chega para todos causa-me urticária.
Os recursos materiais e financeiros (e até de tempo) de quem ajuda podem ser limitados e não chegar para todos os que precisam desta ajuda  mas a solução não passa por achar que uns merecem mais do que outros e que tem que se canalizar a energia para este ou aquele. Passa por aumentar o número de pessoas que, ao invés de falarem e debitarem lições de moral nas redes sociais, vai para o terreno, mete as mãos na massa e ajuda quem quer. Infelizmente, o que não faltam são pessoas a precisar de ajuda. Chega para todos os bem intencionados.

Passei o fim-de-semana a fazer a minha quota parte. Sábado, fui ao Porto reunir para um evento que vai ajudar pessoas que já vivem em Portugal. De caminho recolhi donativos em género para limpar e pintar casas de pessoas que virão viver para Portugal. Fui e vim no mesmo dia, ajudei uns e outros. Não vejo nenhuma das pessoas que irão beneficiar da minha ajuda como "nossos " ou "os outros". São pessoas, são gente. Não são minha propriedade, não são meus, não são "nossos".  Mas espero que me vejam como "uma das deles": os que vivem em Portugal e os que para cá virão viver.
Domingo juntámos um grupo catita (beijos Luciano, Inês, Fátima, Patrícia, São João e Rui!) e fomos pintar, limpar e arrumar casas que acolherão pessoas que fogem da morte. Na casa onde gastámos mais tempo irá viver uma mãe viúva com a sua filha de 5 anos e dois filhos 8 e 11. Montei a cama pequenina e vieram-me as lágrimas aos olhos. Senti que esta menina poderia ser o menino que jazia na areia daquela praia mas que, felizmente, porque conseguiu fugir da morte e porque Portugal é um lugar melhor que um campo de guerra, poderá dormir naquele quarto branquinho e luminoso. Em paz. Por momentos fui aquela mãe, com três filhos menores, a fugir do fim. E tive a certeza que ajudei uma das "nossas".

Não consigo deixar de achar cretinas as pessoas que são contra a vinda dos refugiados com medo de que estes lhes roubem os empregos, as latas nos supermercados, as vagas nas escolas dos filhos, a vez na fila para a churrasqueira. Tenho pena das pessoas que acham que todos os muçulmanos são homens-bomba e que corremos o risco de em menos de 1 ano estarmos todas a envergar burkas. Eu também tinha dúvidas quanto a algumas questões do processo de integração dos refugiados e tratei de me informar junto das instituições que integram a Plataforma de Apoio aos Refugiados. São 30 e juro-vos que vos dão respostas muito concretas aos vossos medos, dúvidas, questões e ansiedades. Basta ligar e alguém vos responderá. experimentem. A informação não dói nada.

Face ao já batido argumento "Não somos todos Charlie?" usado quando algum cretino quer usar a sua liberdade de expressão para demonstrar publicamente a sua cretinice eu reviro os olhos. Apetece-me explicar-lhes que  liberdade de expressão não está acima da liberdade pela luta pela sobrevivência mas depois falo de igual para igual e só os apelido publicamente de cretinos. Porque a minha liberdade de expressão também o permite.

Uma leitora do Quadripolaridades (beijinho Isabel!) deu a melhor resposta de sempre a este tema: . "Neste caso deviamos ser todos Charlie Brown: a felicidade é um cobertor quentinho."
Eu prefiro hierarquizar necessidades que pessoas. Tendo eu recursos limitados de tempo ajudo quem, efectivamente, precisa, sem categorias, rótulos ou etiquetas. Hoje, agora, com esta urgência, ajudo quem luta pela sobrevivência, quem luta pela vida, não por uma vida melhor, pela vida, apenas vida. Aquilo que está acima de tudo.

Taxi ou Uber, neste momento pouco me importa. Há gente que morre num barco para poder chegar a salvo a terras sem alcatrão.
Aos 18 anos escrevi que antes de tudo "sou um ser humano". Espero que a vida nunca me faça esquecer disso.

6 comentários:

Purpurina disse...

Concordo com cada palavra tua.
Há dois dias escrevi isto:

“Empatia é a capacidade psicológica para sentir o que sentiria uma outra pessoa caso estivesse na mesma situação vivenciada por ela. Consiste em tentar compreender sentimentos e emoções, procurando experimentar de forma objetiva e racional o que sente outro indivíduo.
A empatia leva as pessoas a ajudarem-se umas às outras. Está intimamente ligada ao altruísmo – amor e interesse pelo próximo – e à capacidade de ajudar. Quando um indivíduo consegue sentir a dor ou o sofrimento do outro ao se colocar no seu lugar, desperta a vontade de ajudar e de agir seguindo princípios morais.”

Hesitei muito em escrever alguma coisa sobre o menino da Síria cuja imagem se tornou o símbolo da maior crise de refugiados do nosso tempo.

Mas, ao ouvir e ler as reações à fotografia que passou centenas de vezes nas redes sociais com a hashtag #NaufrágiodaHumanidade, não posso deixar de o fazer.

O que senti ao ver aquele menino ali foi empatia. Uma empatia tão forte que me abalou profundamente.

Entendo racionalmente o peso manipulador daquela imagem. Entendo que aquela imagem encerra um método de comunicação muito eficiente. Aceito isso. Temo apenas que não seja tão eficiente como deveria ser.

Aquela imagem, daquele menino branco, bem vestido, sereno, serve para causar empatia, para nos revermos no sofrimento daquelas pessoas que fogem a uma guerra da qual não têm culpa, e que procuram abrigo entre os “outros”. São pessoas que querem viver, não querem morrer nem ver os filhos morrer. Eles não procuram riqueza, sucesso, oportunidades de emprego, uma vida melhor… eles procuram manter os seus filhos vivos. Como nós.

Estou a pensar nisso quando, de diversos meios (assustadoramente de muitas, demasiadas, mentes) surgem as questões: “E os nossos?”, “Antes de se porem a ajudar os Sírios só para parecer bem, melhor ajudassem as nossas criancinhas que dormem na rua e passam fome.”

Ok. É nesta altura que começo a ficar completamente aterrorizada e confusa.

Então mas… quem são os nossos?
Aquele menino não era dos nossos?

Como é que não era dos nossos se sinto na carne e no estômago que era dos nossos?
Se, ao olhar para aquelas imagens, nem revolta consigo sentir, mas apenas uma tristeza profunda e uma desolação que me pesa como se o mundo ficasse, de repente, desprovido de qualquer sentido?

Aquele menino é dos nossos. É do nosso grupo que se chama humanidade, embora eu já não saiba bem o que isso significa.

É uma criança, um menino, um ser vivo. Não é dos nossos?

Quem são os nossos? São os de raça branca? Portugueses? Os que vivem apenas no nosso bairro? São apenas os nossos filhos?

Há algo mais assustador do que isto?

Sou paranóica por julgar que estes pensamentos se assemelham aos que fizeram crescer as ditaduras fascistas que abalaram o mundo ainda não há muitos anos?

Eu só consigo pensar: “E se fosse eu?”, “Se fosse a minha família?”
Eu só consigo pensar em como gostaria que me tratassem e é assim que tenho que tratar “os outros”.

Ajudarei, como puder, os Sírios.
Ajudarei como puder os portugueses e os chineses e quem me aprouver. Ajudarei quem precisar de mim assim como espero ajuda de “outros” quando precisar.
Todas as pessoas são “os meus”.
Mesmo aqueles que não querem ajudar “os outros”.

Mas, nem tudo, é mau.

Existem indicios de que a humanidade não se extinguiu no mundo.

Depois do governo da Islândia afirmar que só receberia 50 pedidos de asilo por ano, mais de 10.000 islandeses ofereceram-se para receber exilados na sua própria casa.

Um casal de empresários, por sua conta, salvou cerca 3000 de refugiados nas águas do mediterrâneo.

Chamem-lhes doidos,ou sonhadores.

Para quem quiser ou puder ajudar, deixo este “Guia prático para cada um fazer a diferença na ajuda aos refugiados“.

Vânia disse...

E com o que escreveste está tudo dito :D

Sílvia disse...

Dizem para os refugiados ficarem no seu país e lutar para o melhorar... E quando os únicos corajosos que levantaram a voz contra Salazar tiveram que fugir a meio da noite após ameaças de morte à família? Foi o que aconteceu com a família da minha Mãe e tiveram que ir "invadir" um país completamente diferente em cultura, religiões e cor de pele (Moçambique). Curiosamente também de barco. E mesmo sendo eles os únicos a terem a coragem de não se rebaixarem, quando regressaram, corridos pela guerra que se instaurou, ainda foram chamados de reles retornados.

Este povo só está bem a criticar: preso por ter cão e preso por não ter.

as profs disse...

...para pessoa entender.
Mais que claro.

Luisa Bernardes disse...

Tenho muita pena que a 'minha Rita' já não esteja cá, esta seria uma luta dela!

Unknown disse...

Concordo em pleno e entristece-me muito ver esse lado mesquinho a vir acima disfarçado com patriotismo, preocupação é até orgulho dessas pessoas que postam como se os que querem ajudar fossem vilões e estivessem a fazer mal a cada um de nós! Inclusive ver posts e comentarios sempre a colocar a questão em torno da religião e a assumir que só por serem de outra religião os torna perigosos para nós todos! Gostava que fornecesse (se possível) contactos para quem quer doar coisas (roupa, móveis...). Obrigada por aumentar um bocado a minha fé na humanidade nesta semana em que ela estava bem em baixo depois de tanta coisa triste que li... Nadia Velosa

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