sexta-feira, 2 de outubro de 2015

A Rita não vai ao Minipreço (e eu tenho pena mas também vou deixar de ir)

Ando um bocado chateada. Aliás, andava um bocado chateada até hoje. A partir de hoje estou mesmo lixada, ao nível de lixada com "f" maiúsculo. 
"A seita"- a loja pop up que desenvolvemos durante o campo de férias de pessoas com deficiência motora foi um sucesso. Os participantes adoraram contactar com diferentes técnicas, conhecer diferentes formadores e produzir uma série de produtos nos workshops que dinamizámos. As vendas (que eram só online) superaram as nossas expectativas e a motivação esteve sempre em alta!
Findo o campo de férias concluímos, mais uma vez, que muitos dos participantes voltariam para casa onde, durante o resto do ano, permanecem sem ocupação, muitas vezes a servirem de damas de companhia dos pais, avós ou só a bezerrarem na internet por falta de opções. 
O mercado de trabalho não está fácil para ninguém e ainda menos para as minorias. O mercado de trabalho para o público deficiente está complicadíssimo. Por outro lado, as dificuldades de acesso ao mundo profissional são tantas e dissuasoras que muitas das pessoas com deficiência já desistiram, sequer, de procurar, contentando-se com situações de desocupação permanente.
"A seita" deu, para muitas destas pessoas, uma pequena ideia do que é ter um negócio próprio, produzir artesanalmente produtos, divulgá-los, escoá-los e vendê-los. E animou-os. E ninguém queria, no fim do campo de férias,que a loja fosse, efectivamente, pop up. Queriam que sobrevivesse para além das férias. 
A Direcção da Associação deu luz verde para arrancarmos com o projecto de forma experimental e o mais autónoma possível. E começámos por arranjar o espaço que a associação nos destinou para produzirmos (pequena sala que servirá de atelier e a pequeníssima cozinha), arrumámos matérias primas que nos doaram (tecidos, material de craft, etc) , fizemos inventários, aferimos necessidades e pedimos patrocínios (falta-nos muitas coisas, entre as quais, uma pintura nas paredes mas a seu tempo lá chegaremos). Fizemos contactos e estamos a tentar estar presentes em feiras para vendermos os nossos produtos (a próxima será já no próximo fim-de-semana em Bucelas, venham conhecer-nos!). Mas as dificuldades que nos tempos deparado são muitas.
Neste momento (achava eu) a grande dificuldade prendia-se com os transportes. A Associação tem uma carrinha de 1990 sem elevador (que é importante para transportarmos cadeiras eléctricas pesadíssimas e algumas pessoas que não conseguem ir sentadas nos bancos da carrinha) que, na próxima inspecção, chumbará com toda a certeza. 
Falámos com alguns dos participantes que querem tanto pertencer ao projecto, sair de casa todos os dias, sentirem-se úteis, serem activos, que se disponibilizaram para chegar a Lisboa de transportes públicos (e vocês não imaginam o pincel que é um cadeirante andar de transportes públicos) até à entrada de Lisboa e depois a Associação recolhê-los.á nas respectivas estações terminais na tal carrinha (com força de braços de um motorista voluntário). 
A Rita e o Luis são o caso mais complicado. São os dois cadeirantes, não têm rampa no prédio que os possibilite, sequer, sair de casa (estamos a trabalhar nesta situação com uma voluntária juíza e uma advogada). O Luis tem paralisia cerebral e não consegue ter autonomia para chegar de transporte públicos até à Associação. A Rita não quer fazê-lo sozinha (não quer deixar o Luís para trás)e  não consegue empurrar o Luis para juntos chegarem às instalações. Zero possibilidade de irem de transporte público. O Luis move-se numa cadeira eléctrica e precisa de uma carrinha com elevador. A Câmara Municipal da Amadora (onde eles vivem) só consegue garantir o transporte dentro do concelho da Amadora. A Câmara Municipal de Lisboa (onde fica a Associação) só faz o mesmo dentro do município de Lisboa. A Rita e o Luís não conseguem ajuda nem para sair da Amadora nem para chegar a Lisboa. As instituições parceiras (Amorama, Cerciama, APD, bombeiros) não conseguem dar resposta a este caso por sobrelotação das carrinhas que têm e outros motivos que tal. 
Nós não conseguimos trazê-los e eu tenho andado angustiada. E chateada. E depois, como tenho um feitio torto, decidi que se eles não conseguem ir até à "Seita", vai "a Seita" até a casa deles. 
Hoje a equipa da Seita foi até à Amadora com o intuito de produzir compotas para fender na próxima feira de Bucelas a partir da casa da Rita. Estávamos cientes que teríamos que descer os degraus do prédio a apoiar a Rita devido à falta da bendita rampa. 

O que não esperávamos era que, para comprar bens alimentares, matérias prima essenciais para a produção de produtos da loja, o Minipreço da Amadora nos surpreendesse com corredores com paletes no meio, a impedir a circulação da cadeira de rodas da Rita. 
Chamámos uma empregada que sugeriu que a Rita fosse para um corredor alternativo (tipo "para que é que vai para esse corredor procurar crepes gelados? Vá antes para o do lado que tem um bacalhau congelado muito bom..."). Ficámos estupefactos com a ideia brilhante da senhora e mandámos chamar a gerente de loja. Dissemos que era a segunda vez que nos deparávamos com aquele impedimento à acessibilidade da Rita e que da anterior (em que foi deixada reclamação no respectivo livro) comprometeram-se a mudar. A senhora pediu-nos muitas desculpas, disse-nos que iria levar a nossa reclamação aos superiores que tomavam decisões acerca do layout da loja mas, no fim de contas, não mexeu uma única palha para desviar a bendita palete carregada de pacotes de açúcar. 
A Rita recusou-se a fazer compras e fez marcha atrás furiosa. Eu achava que estava chateada com a questão dos transportes. Frustrada com todas as dificuldades de acesso com que nos temos deparado.
Mas agora já não estou chateada. Estou só furiosa com o Minipreço. Porque antes de termos forma de fazer chegar as pessoas à Associação para produzirem produtos, antes de trabalharmos as questões do empreendedorismo, antes de promovermos a autonomia, é importante que consigam sair de casa, fazer compras e terem direitos que são tão básicos mas tão básicos que não sei como não são, ainda, de todos.
Repito: de todos. 

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