sábado, 10 de outubro de 2015

AGENDA QUADRIPOLAR | Festa do Vinho e das Vindimas de Bucelas




Desde sempre que me lembro de conhecer a Rita, companheira de quarto dos vários hospitais, primeiro Sant'Ana, depois Alcoitão. O ordem era, sempre, esta: Sant'Ana para as cirurgias, Alcoitão para a reabilitação. 

A Rita faz parte da minha vida de uma forma natural, como faz a minha mãe, a minha vizinha Cláudia ou a menina Mariana, a quem a minha avó desde sempre comprava pão. Companheiras de colónias de férias, de aventuras e de ideias destrambelhadas, de gargalhadas, de muitas gargalhadas. 
Crescemos e as colónias de férias em Valdemoínhos, na Vagueira, na Gala e, depois, na Tocha deixaram de marcar 15 dias de calendário em cada Verão. Fui para a universidade, casei, tive a Ana. A Rita? Tirou um curso técnico-profissional, foi para uma instituição onde lhe faziam o favor de a deixar trabalhar chamando-a de "utente", adquiriu toda a autonomia que as suas canadianas não conseguiram tirar, foi viver sozinha, apaixonou-se por um colega com paralisia cerebral e passaram a viver juntos. Sozinhos como, aliás, se quer. 
A Rita e o Luis, um casal de pessoas portadoras de deficiência, riem-se quando se descrevem como "pensionistas". O Luis tem uma paralisia cerebral com consequências limitadoras ao nível da fala e da locomoção. A Rita, que se desloca de canadianas, levanta-o da cama, ajuda-o a tomar banho e a vesti-lo, faz as suas refeições, dá-lhe comida à boca, ajuda-o a fazer as necessidades básicas e deita o Luis à noite. Nos intervalos, traduz-nos o que a puta da deficiência impede o Luis de nos dizer de forma clara e perceptível. E ri-se muito. A Rita está sempre a rir como se a vida fosse fácil e o único entrave fossem os dois degraus do prédio onde vive e que não podem ser substituídos por uma rampa porque os vizinhos, em quórum, chumbaram a hipótese de construção com o argumento de que "dá cabo da estética do prédio". 
A Rita não gosta lá muito de depender de ninguém para as suas actividades da vida diária. Nunca gostou. E (também) por isso vive naquilo que ela própria descreve de "prisão domiciliária". As compras são feitas online e entregues em casa, há uma vizinha que lhe traz diariamente compras de conveniência da rua e as saídas para o exterior são muito parcas, na maioria das vezes para consultas nos hospitais ou actividades da Associação. 
A RIta não consegue ir produzir produtos para a SEITA semanalmente por falta de transportes adaptados que os levem de casa à Associação, por isso, a SEITA vai a casa da Rita. 
Estava muito difícil conseguir levar a Rita à Festa dos Vinhos e das Vindimas de Bucelas mas, graças à Dra. Paula Lopes e à incrível Câmara Municipal de Loures que se importou e hoje foi buscar e levará a Rita e o Luis a casa. 
A Rita está na Festa do Vinho e das Vindimas de Bucelas a atender fregueses, a ver gente,a conversar e a socializar como bicho social que é e que a vida teima em fazê-la esquecer. 
E eu gostava muito que a fossem visitar, ó fregueses!




(Hoje até às 00h00 no Pavilhão Leonel Pires, em Bucelas. Mandem-me fotografias vossas na nossa banca se lá forem!)

1 comentário:

Filomena Silva disse...

Teria ido de fosse mais perto, com todo o gosto.
E aos filhos da p... dos vizinhos da Rita e do Luís, vão bardamerda, um dia uma deficiência diferente daquela que esses cromos sofrem ( a estupidez humana) pode bater-lhes à porta e eles irão saber o que fizeram a este fantástico casal.

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