sexta-feira, 16 de outubro de 2015

"When injustice becomes law, resistence becomes a duty"


Engravidei e achei que tinha sido abençoada. Tal como tu tiveste uma Ana, eu soube que ia ser uma Alexandra. Senti-me a mais feliz das mulheres. Ainda tive um susto ao inicio, mas a minha Alexandra não negava as origens beirãs e minhotas: já era mulher de fibra e agarrou-se à minha barriga para continuar a crescer (um mês de baixa e a coisa resolveu-se).

Estava contratada a termo no trabalho. No entanto, quando me mudei para o Norte do país foi precisamente com a intenção de constituir família. Os meus patrões sabiam-no e sempre reiteraram que a minha gravidez não alterava a minha posição na farmácia, que o meu lugar era isso mesmo, meu.
Ia efetivar em inícios de Abril. Tinha uma semana de férias em Março. No primeiro dia de férias a minha prenda foi uma carta no correio a dizer que o contrato tinha cessado. Sem justificação, sem uma palavra dita cara a cara. Quando se contratou um estágio profissional para suprir o aumento de movimento… 
A miúda na minha barriga sentiu os meus nervos... a médica proibiu-me de voltar ao trabalho nos dias que faltassem para concluir o contrato, dizendo que estava muito nervosa e que precisava era de espairecer, que estar ali, com a farmácia sempre na cabeça, estava a deixar a minha filha nervosa. Decidimos vir à minha Margem Sul, matar saudades dos meus pais e estar num sitio em que eu conhecesse as pedras do chão, para não estar sempre a pensar no mesmo…

Chegámos 5ª à noite, sábado de manhã dei entrada nas urgências em risco de parto iminente. A minha filha nasceu a uma 2ª feira as 15h30 no Garcia de Orta. Com 25 semanas e 5 dias.

Fui mãe e só me deixaram ver a minha filha no dia seguinte. Fui mãe durante 35 dias sem pegar na minha filha ao colo. Fui mãe e não consegui deixar de sentir que o destino (ou seja o que for que organiza as nossas vidas) foi injusto, porque eu devia estar a sentir os pontapés da minha menina ao invés de olhar para ela numa incubadora, cheia de tubos e incertezas.
Senti-me amputada sabes? Como se me tivessem roubado a barriga…

35 dias depois dela nascer, peguei na Alexandra pela primeira vez.  Ouvir a minha filha chorar foi  simultaneamente uma preocupação e o melhor som do mundo.  

'Entre as dúvidas do que sou e onde quero chegar 
 Um ponto preto quebra-me a solidão do olhar 
 Será que existe em mim um passaporte para sonhar 
 E a fúria de viver é mesmo fúria de acabar 
 Mas Deus leva os que ama 
 Só Deus tem os que mais ama." 

 É um cliché, mas foi esta a música que soou nos meus ouvidos mal o telefone tocou às 3h30 para me dizer que aquele era o dia mais triste da minha vida.

A justiça pode demorar, mas eu acreditei que chegava. Nada paga o que perdi, mas todos os dias deito a cabeça na almofada com a consciência tranquila. Por outro lado, a injustiça do que me aconteceu viverá sempre com quem acabou por assumir ter errado.

Hoje foi o dia. Sim, indemnizaram-me por despedimento ilícito. E o processo no ACT mantém-se. Pelo que a procuradora me disse no tribunal não tinha direito a mais do que aquilo. Se quisesse uma indemnização diferente teria que ter colocado um processo diferente, mas não me explicou que diferença era essa: pelos vistos a procuradora ou não estava interessada ou não lhe apeteceu defender-me. 

A quantidade de vezes que eu falei na gravidez... a resposta dela era sempre "o que vale é o que a senhora assinou". Sei hoje que a justiça não é gratuita como as pessoas dizem. No fim de eu ter dito que sabia que não pagava custas judiciais porque os meus rendimentos eram abaixo do limite, que se eles não me quisessem indemnizar eu avançava na mesma com o processo , ela fez as contas deu-me o valor a que tinha direito e disse "seja por acordo ou com a ida ao juiz não tem direito a mais que isto, agora decida quanto tempo quer que isto demore". 


A magistrada foi muito clara nas explicações "o máximo que você recebe com um processo destes é isto". Dois salários para me compensarem a perda de um trabalho que eu desempenhava bem, uma gravidez em sobressalto, um parto prematuro e uma luta que acabou em luto. Dois salários para me compensarem a perda do meu trabalho e da minha filha. Mas sabes que a magistrada nos autos escreveu que depois daquilo eu não tinha mais nada contra a empresa? Eu ainda lhe falei do processo no ACT e na queixa que fiz à CITE, mas ela respondia sempre igual: "o seu contrato é o seu contrato, o resto é o resto". A procuradora disse que não havia mais nada a fazer e pediu-me que assinasse. E pronto. Gostava de dar a cara por esta causa. Mas sendo-te honesta, já não sei. Ao início achava que sim. Neste momento não tenho certeza se sou capaz de mais. Estou cansada, farta de ter que contar a mesma história mil vezes e de me dizerem que a gravidez não é sinónimo de nada: " o seu contrato é o seu contrato, o resto é o resto".

O "resto" não foi uma gravidez. Foi uma bebé que nasceu. Que chorou. A quem peguei ao colo.

O "resto" foi a minha Alexandra. Que morreu.

Contas a minha história? Sem cara mas com as palavras que sabes escolher bem? Uma vez colocaste uma imagem " When injustice becomes law, resistence becomes a duty". Ajudas-me?"



Querida A.


As tuas palavras são melhores que quaisquer que eu pudesse vir a escolher. Resistemos! Voltamos à luta?

7 comentários:

Joana Sousa disse...

Que aperto no peito...não consigo imaginar a dor, sei que não consigo. Mas é de muito valor querer contar a história e acabar com isto. É preciso muita força, para dar a cara, e ela há-de chegar! Entretanto, obrigada pela coragem - de vez em quando fazem bem estas chapadas na cara para acordarmos para o mundo e país estúpido em que vivemos. Um país em que, como já me disseram "quem quer trabalhar não tem nada que pensar em família!"...

Gorduchita disse...

Tive a minha pequenina exatamente com esse tempo: 25 semanas e 5 dias.
Tenho a felicidade de a ter comigo, reguila, sorridente, agora com 15 meses, depois de muito tempo de luta e medo de a perder.
Tive a sorte de estar efetiva, de trabalhar numa empresa que nunca me condicionou e que me apoiou no tempo todo que estive em casa enquanto a bebé estava na neonatologia (uns longos 115 dias).

Sei a angústia que passou naqueles dias com a bebé no hospital! mas nem consigo imaginar a dor da perda...

No que eu puder ser útil, conta comigo!

Natacha Marques disse...

Impossível conter as lágrimas... Justiça?!... Lamento, não imagino o tamanho da dor, o tamanho da mágoa, o tamanho da revolta... Acredito que não seja pelo dinheiro, uma vida não tem preço, uma vida gerada por nós, uma vida que sentimos crescer, que sonhamos conhecer, carregar nos braços nos bons e maus momentos... Como.lamento a sua dor!...:'( não sei se posso ajudar... Mas sou mãe, alguma coisa, estou aqui....

Maria Braga disse...

Como posso ajudar?

Coquinhas disse...

Há oito anos atrás, a minha irmã gravidissima e de baixa por complicações na gravidez recebeu uma carta que anunciou o fim de contrato com a SANTA CASA DA MISERICÓRDIA...sim, aquela instituição que ajuda os pobrezinhos, etc e tal. Até hoje não mais me esqueci disso. Felizmente não houve complicações mas ao ler esta história não deixo de colocar um "e se?...". Nenhuma palavra será suficiente mas não desista.

asminhasquixotadas disse...

Caramba... Bem sabemos que a justiça é cega, mas assim a esse ponto é doloroso. Estamos completamente desprotegidos, mesmo pelos que deveriam lutar por nós. Vivessem a procuradora e a juíza o que ela viveu e pensariam de outro modo.

Entre Biberons e Batons disse...

Este texto esmaga qualquer coração de mãe. Estou em lágrimas!
És a maior Liliana. Por dares voz a esta mulher. A esta mãe. Beijinhos para ti e um grande, grande para ela.

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