quarta-feira, 18 de novembro de 2015

100 Quadripolares que vale a pena conhecer # Nuno (2)






"O Nuno usou, pela primeira vez na vida, calções no Verão. No seu primeiro campo de férias da ASBIHP (Associação Spina Bífida e Hidrocefalia de Portugal) confessou-nos que, apesar de viver no Algarve, nunca antes usara calções. E se fazia calor nos dias prolongados de Verão em Vila Real de Santo António!


A cidade é pequena. Todos se conhecem. Na escola chamam o Nuno de "rodinhas". Ele sorri, com um sorriso conformado, escondendo que o incomoda que o resumam à sua cadeira de rodas. Ele é mais do que ela, ele existe para além dela. E gostava de se tornar mais visível: que olhassem para o rapaz de 17 anos para além do rapaz da cadeira de rodas. Que olhassem para si, Nuno, um rapaz como todos os outros da cidade, da escola.


É curioso como essa necessidade de visibilidade se confunde com outra de invisibilidade. O Nuno não gosta de dar nas vistas. Às vezes desejava ser invisível e que nenhum dos colegas troçasse dele. Que não o excluíssem das saídas extra-escola porque não sabem como ultrapassar as limitações da sua cadeira de rodas. Desejava ser invisível quando tem que sair a correr da sala de aula para ir à casa de banho e que ninguém fizesse notar em voz alta a sua ausência e a ampliasse com ar de injustiça. O Nuno daria tudo para não ter aquele "privilégio" tal como os outros o encaravam, uma necessidade inevitável para si.


O Nuno deixou de fazer Educação Física e precisa. Não aguentava o medo de fazer um movimento mais brusco e que se notasse o corpo imperfeito, a escoliose, as cicatrizes por debaixo do fato de treino. Tinha medo das risadas, do gozo, da falta de sensibilidade dos colegas. Os professores não insistiam e começaram por lhe dar papéis secundários. O Nuno adorava jogar basquetebol em cadeira de rodas mas agora era sempre árbitro. Às vezes fazia relatórios das aulas.



Acabou por ser dispensado da aula. E o Nuno precisava de se exercitar porque uma vez que as pernas não funcionavam precisava de concentrar toda a sua força e agilidade no tronco e membros superiores. E olhava, de fora, espectador de uma aula onde deveria ser participante activo. Os professores não tinham culpa, não conheciam nada sobre a patologia, não queriam arriscar uma fractura, um acidente.


E chegava o Verão. E o Nuno sempre de calças, a suar, cheio de calor. Não usava calções. Era o preço a pagar para poder esconder as talas, as pernas atrofiadas e cheias de cicatrizes das múltiplas cirurgias ortopédicas. Era o preço a pagar pela sua invisibilidade. Queria tanto ser visível mas o era o conforto da invisibilidade aquilo que mais procurava. Queria não ter medo de mostrar quem era mas nada mais lhe restava do que ser o mais discreto possível, não se expor, preservar-se, não dar nas vistas. Ninguém reparar nele para não correr o risco de receber epítetos para além do "rodinhas".



No Verão, de calções, no campo de férias só com outros miúdos com Spina Bífida falou-nos do calor que sentia no Algarve. No desconforto de ter que esconder as talas, as botas ortopédicas, a deficiência, o Nuno no seu esplendor. Para além das rodas da sua cadeira.


Visitámos o Nuno, num dia de Outubro solarengo, na sua escola. Setenta colegas quiseram perceber o que estávamos lá a fazer. Lançaram o grande dado do jogo#serdiferenteéserúnico. Experimentaram transportar um tabuleiro com o almoço e um copo cheio de sumo no refeitório da escola... sentados numa cadeira de rodas igualzinha à do Nuno. Detectaram aspectos na escola a melhorar, boas práticas já existentes. Foram desafiados a encestar uma bola de basket ainda sentados na mesma cadeira e a dançar usando canadianas e disseram muitas vezes "não conseguimos". O Nuno sorria e mostrava que os desafios não eram impossíveis de concretizar, demonstrando como ultrapassava, no seu dia a dia, cada um deles. Para ele não eram desafios de um jogo: era a vida real.


Um a um, os miúdos iam olhando para o Nuno com mais atenção. Miravam-lhe os movimentos mais finos, elogiavam-lhe a perícia e todos pararam quando ele sacou uns cavalinhos e mostrou como é possível dançar numa cadeira de rodas. Todos aplaudiram, admirados e confrontados com o preconceito, envergonhados com todas as vezes em que durante o jogo assumiram que "não conseguiam" depois de perceberem que para o Nuno estes desafios não eram opção: eram uma questão de viver o dia-a-dia, de se incluir na dinâmica da escola, na vida da comunidade.



Palmadas nas costas, hi-5 e, sobretudo, sorrisos de empatia. Em cada um dos setenta miúdos. O Nuno a participar no jogo e, gradualmente, a ser chamado de Nuno e não de “rodinhas”. O Nuno a ser Nuno e a mostrar que ser diferente é ser único. Que todos diferentes e não todos iguais. Todos diferentes e ainda bem! O Nuno a tornar-se visível.



Os professores receberam formação sobre a patologia. O professor de Educação Física comprometeu-se que o Nuno iria exercitar o tronco e os membros superiores, que ainda iria a tempo de o tornar mais ágil e atlético, mais preparado e incluído na turma. Porque Educação Física não é só desporto: é socialização, é competição, é inclusão. O Nuno a sorrir com este objectivo, ali, traçado a dois, sem que tivéssemos feito muito mais do que explicar o que era a patologia e como se pode viver (bem) com ela e para além dela.



O Nuno a acompanhar-nos à carrinha velha da ASBIHP. A despedir-se de nós, sorridente e feliz. Genuinamente feliz. Tirou uma fotografia com o símbolo do "Movimento mais para todos", o seu coração estava assim: engalanado e cheio de gratidão.



Antes de metermos a chave na ignição pediu-nos que abríssemos a janela, tinha um último recado: "Agora, se continuar este calor de Outono sou capaz de trazer calções para a escola" e piscou o olho.
Nós sorrimos. Que seja assim na escola como na vida.



O Nuno já não tinha medo de ser quem era. Porque a diferença não tem que ser mascarada com a igualdade. Porque todos diferentes mas não todos iguais. Todos diferentes e- sim!- todos únicos. Todos diferentes. E ainda bem.



(Na recta final da edição de 2015 do Movimento Mais para Todos que apoiou a ASBIHP- uma das associações da qual faço parte-  e onde cooordenei durante todo este ano um projecto de promoção da diversidade e celebração da diferença quero-vos dizer- sem necessidade de graxa porque o projecto está no fim- que o LIDL, enquanto empresa, não supermercado, não negócio, mas empresa é dos parceiros mais estruturados, sérios e com maior sentido de uma responsabilidade social efectiva e propositada com quem já trabalhei. Assim, o porque a próxima edição do Movimento Mais para Todos terá início já a partir do próximo mês quero pedir a todos que colaborem e se lembrem que podem fazer a diferença. Mesmo que nem o percebam ao passarem por um rapaz cadeirante a usar calções. )

(Escrevi esta história a pedido do Movimento Mais Para Todos para uma acção interna mas o Nuno fez questão de me pedir que a partilhasse no meu facebook e agora, também, aqui. Obrigada por insistires na tua visibilidade, marafado. Gosto muito de ti!)

3 comentários:

Joana Sousa disse...

Tão bom <3 Obrigada!

Jiji

Nuno Miguel disse...

Eu adoro te mais lisboeta linda


Divaa disse...

Ursa, estiveste na escola secundária de vila real de santo antónio e não te conheci??? Eu que leio o teu blog ha tanto tempo e sou prof nessa escola??? Que grande falha minha... que triste que fiquei...

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