terça-feira, 29 de dezembro de 2015

Ainda sobre a "Lei do piropo" umas últimas considerações avulso

Ilustração: Sinhemingway


1- Reduzir a importunação sexual à palavra "piropo" (armadilha em que eu própria caí no meu post) tira força ao tema e dá alvo a falsas interpretações, até. A lei está por todo o lado escarrapachada nas redes sociais: é saber lê-la! (Mais uma vez: "Crime de importunação sexual: "Quem importunar outra PESSOA, praticando perante ela atos de carácter exibicionista, formulando propostas de teor sexual ou constrangendo-a a contacto de natureza sexual, é punido com pena de prisão até 1 ano ou com pena de multa até 120 dias, se pena mais grave lhe não couber por força de outra disposição legal." E, sim, o piropo como o conhecemos cabe, na maioria dos casos, nesta forma de importunação sexual. 


2- "Se esta lei é para todos porquê o discurso feminista?" Porque as mulheres são mais alvo deste tipo de importunação que os homens: é simples (é pensar em quantas mulheres já ouviram pérolas como "lambia-te essa cona toda!" e em quantos homens que ouviram um "lambia-te esse bacamarte todo!"
"Ah e tal, acho muita graça quando fazem isto: "Somos todos pela igualdade das pessoas, mas as mulheres merecem mais atenção!" Somos todos pela igualdade das pessoas mas- infelizmente, caso não tenhas reparado- as pessoas não são todas tratadas de forma igual. É do restabelecimento do tratamento igualitário que se trata esta conversa. É simples. Mais simples não há.

3- "Ah, ouviu "bocas" e "piropos" na adolescência e sobreviveu! Porque é que acha que a sua filha não irá sobreviver também tendo o seu exemplo de "mulher bem resolvida" em casa? Eu até acho que geração da sua filha está a ser muito mais bem preparada e alertada no respeita a estas questões! Hoje em dia é fixe ser-se adolescente e idealista, ter "causas"! E já existe educação sexual, pais e filhos já deixaram de ter tanto pudor em falar sobre sexualidade!" A questão é que a minha filha, por ter nascido mulher, não tem que ser obrigada a levar com isto quando sair à rua sem que a Lei do país onde ela vive não a tente, pelo menos tente, defender. Terei que ensinar, à medida que a Ana cresça, a que ela se defenda de uma série de questões mas gostava de não ter que a ensinar a comer e calar, a desviar os olhos ao passar no meio de um grupo de seres humanos do sexo oposto ao dela, a ter vergonha do seu corpo, vontade de o esconder ou tapar só porque existe quem ache bonito humilhá-la em via pública à conta dela ter pernas, rabo e maminhas. Mas se sempre se lavou roupa em tanque para que é que agora usa a máquina de lavar roupa, senhora? Não sobrevivia? Bora perpetuar crimes sexuais e comportamentos bacocos porque nós sobrevivemos a eles? Bora não evoluir?


 4- "Eu gostava que as pessoas não mandassem "piropos" porque isso é incorrecto, não por terem medo de irem para a prisão!"Eu também gostava que as pessoas usassem cinto de segurança sempre por consciência cívica e não com medo das multas, que não andassem em excesso de velocidade por estarem sensibilizados para a questão da segurança rodoviária e não porque têm receio que os radares as detectem, que nunca tivesse saído uma lei a proibir que se fumasse em lugares fechados porque seria tão básico os efeitos nocivos para todos que era escusado legislar-se. Pois sim, "se cá nevasse fazia-se cá sky". Só que não.
As leis servem para regular normas de convivência social. Aparentemente, existem porque nem toda a gente tem o mesmo entendimento acerca do que é aceitável ou não aceitável na vida em sociedade. Quem já é educado não precisará desta lei para nada. Ainda bem. Mas garanto-te que esta lei servirá para muita gente que, não agindo sob a batuta do respeito, a fará pela do medo e ainda bem, que assim ganharemos todas com isso.
Os valores podemos ensiná-los aos nossos filhos. podemos educá-los a saberem respeitar o outro, não violando o seu espaço, não o importunando, não o limitando na sua liberdade de existir. Não é de incutir valores à sociedade por decreto-lei que aqui se fala: é de punir quem não os tem e, repetidamente, faz uso da sua liberdade contra a liberdade do outro, é de punir quem pratica de forma gravosa, não consentida e contínua importunação sexual sobre outrém. A Mariana explica isto melhor que eu aqui


5- A quem me perguntou se esta Lei não vai reduzir o espaço à sedução... a Lei é precisamente para quem confunde amba! Importunação sexual nunca será sedução.


De nada.

1 comentário:

amc disse...

Nem mais nem menos.
Apesar de não ter sido traumatico, em miúda (12(!)/18 anos) passei por situações chatas e ainda hoje me lembro do que sentia na altura ... já mais velha, passei a responder à letra e mandava os srs. para certo sitio... arriscando-me. Parece-me que nas últimas 2 décadas a prática - que era generalizada e aceite - passou a ser quase marginal, mas ainda assim incomoda e ofende. E não quero que a minha filha, quando crescer, tenha de pensar duas vezes se a saia é demasiado curta e se se habilita ao passar perto de umas obras (ou de um clube refinado, em plena av. da liberdade, como aconteceu comigo...).

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