quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

David e o Golias do SNS

Estou em brasa com o que tenho lido por aí. Face à morte inconsequente, prematura e (possivelmente) evitável de um jovem procuram-se culpas e apuram-se responsabilidades. Já li de tudo: que o rapaz morreria na mesma à custa do aneurisma (e descobri que há imensos neurocirurgiões de bancada de facebook), que a culpa era do Hospital de Santarém, do de Santa Maria e que a culpa era dos médicos que se tornaram mercenários e que ignoraram o seu juramento de Hipócrates. 
Imaginem que um empreiteiro tem que fazer uma casa mas decide, para poupar uns trocos, que ao invés de 10 pedreiros e serventes  mete lá um pedreiro e um servente, muito bons, muito competentes, mas um décimo das necessidades daquela obra. Imaginem que o prazo da obra não pode resvalar e o empreiteiro chico-esperto aperta com o pedreiro e o servente, que eles têm que trabalhar com maior eficiência e que não podem falhar. Imaginem, ainda, que o mesmo empreiteiro decide que tem que se poupar no material de construção e que decide substituir o que estava projectado por um de mais fraca qualidade. Imaginem que, concluída a casa no tempo previsto, o proprietário se muda e, logo no primeiro dia, a casa cai e ele morre. A culpa é do pedreiro e do servente, senhores? É?
só que não recorre a um hospital público, só quem já não vai a um balcão de urgências desde há mil anos pode apontar a culpa aos médicos. Os mesmos que são tratados, pelo actual estado, como autênticas máquinas de produtividade, com rácios de doentes que têm que atender, como se os casos fossem todos casos tipo, os diagnósticos chapa quatro e uma consulta devesse ter sistema de senhas à entrada como quando vamos ao talho e um gongo como tinha a amiga Olga quando o tempo de atendimento deixa de ser considerado razoável. 
A culpa não é dos médicos que são humanos e precisam de ter dias de descanso, férias e tempos em que desempenhem os seus papéis para além do de profissional. Não é culpa dos médicos que não estavam no São José nesse dia porque estavam a desempenhar os seus papéis de pais, maridos, filhos, pessoas. A culpa é de quem não providencia recursos humanos em número que garanta o funcionamento de urgências hospitalares de uma determinada especialidade clínica porque prefere canalizar recursos financeiros para salvar bancos. 
A culpa é de um Golias chamado SNS que, desta vez, deitou o David por terra. Mas dos médicos- ah senhores, não me fodam!- dos médicos é que não!

8 comentários:

Teresa Crispim disse...

Tens toda a razão Polo, a culpa não é do médicos é das gestões de escalas dos hospitais, com tanto médico que há neste país, é uma vergonha. Eu já estive 3 dias à espera de um procedimento clínico importante, com dois órgãos a falhar, deitada numa cama em Sta Maria, porque a minha visicula resolveu deixar de falhar a uma sexta feira à tarde, e os senhores médicos já se tinham ido embora e aos fins de semana os serviços funcionam a mínimos, ou seja tive que esperar por segunda feira. Neste país quem tem dinheiro para ir ao privado está bem, quem não tem tem que se sujeitar a coisas como não haver médicos ao fim de semana.

Só Entre Nós disse...

Subscrevo na íntegra! Finalmente alguém escreve alguma coisa com nexo sobre este assunto!

Solana disse...

Concordo plenamente.

Russa Loirinha disse...

Não percebo nada disso... mas sei quem tem parte da culpa. São as pessoas responsáveis pelas transferências entre hospitais (sejam elas os médicos, directores ou as senhoras da limpeza).
Efectivamente os médicos não têm culpa do estado cortar tudo e mais alguma coisa, mas uma vez que ali não tinham meios para tratar da situação a sua obrigação era ter procurado onde o pudessem fazer e transferir o doente.
Se eu for a uma peixaria pedir 4 pães não me vão deixar dois dias à espera, pois não? O mais provável é que me aconselhem a ir a uma padaria. É a mesma coisa...

Morango Azul disse...

Só deveria ir para médico quem tem vocação, quem se interessa em ajudar o próximo. Ser médico não é picar o ponto, despachar serviço e receber no fim do mês.
David morreu porque os médicos se recusam a trabalhar por pouco dinheiro. É esse o valor da vida humana para os médicos: o valor recebido à hora.

Purpurina disse...

Penso exatamente da mesma forma! É um alivio ler este texto e perceber que talvez não esteja louca.
É impressionante como as pessoas se despacham rapidamente a atribuir culpas, não interessa bem a quem.
Devo informar que não sou médica nem tenho médicos na família e que, muitas vezes, tenho fortes críticas a apontar aos médicos mas, neste caso, os médicos não podem ser o bode expiatório. Um médico é uma pessoa, um profissional como os outros. Tem deveres mas também tem direitos e, tal como qualquer outra pessoa, não tem que ter um extra de santidade ou de auto sacrifício que implique que trabalhe com qualquer tipo de condições. Gostava de saber se a maioria das pessoas que critica os médicos, trabalharia por metade do que acha que merece se tivesse alternativa.
Trabalhamos muitos assim porque, infelizmente, não temos alternativa ou não nos damos ao trabalho de a procurar ou (e muito bem) temos outras prioridades. Os médicos são pessoas e, tanto quanto se sabe, sem índices de desemprego o que, logicamente, não os fará trabalhar nas condições péssimas com que muitos outros trabalham.
A culpa é do sistema, do governo e de cada um de nós que admite um serviço menos bom nas mais variadas áreas, de cada um de nós que reclama nas redes sociais mas, na hora da verdade, não faz nada. Neste caso sim, a culpa é do governo, não de médicos que trabalham, muitas vezes, em más condições. ganham muito os médicos para salvar vidas? Vão ver quanto ganham os bancários.

Sara Correia disse...

A questão, cara Pólo Norte, é saber se algum médico chegou sequer a ser contactado. Porque me parece que não. Porque não acredito que médico algum recusasse ajudar, estivesse ou não cansado, de folga. Mas o que me é triste é que, como bem disse uma colega minha, já me questiono se não deixaram um amigo meu morrer por lhes ser mais conveniente a quantidade de órgãos que poderia utilizar. É a fé que tenho hoje em dia neste país. Fui da turma do David três anos. Da Elodie também. E custa, custa muito toda esta história. E não me fodam a mim, podia ter sido evitada. Mesmo que o desfecho fosse igual.
Sara.

barcelence disse...

Sara Correia: existe um caso nos nossos tribunais em que um médico foi efetivamente condenado porque ,ante o chamamento da enfermeira e o sofrimento da paciente em parto, deixou-se ficar a ver televisão pois estava a assistir a um jogo"importantíssimo" de futebol. "Não acredito que médico algum se recusasse ajudar"...isso é como dizer que não acredita em bombeiros pirómanos ou em violência doméstica.

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