segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

E foi-se o Natal. Venha o Ano Novo!


Éramos dez à volta da mesa. Já não éramos de desde 2008, no primeiro Natal em que deixei de ser a menina do meu avô. Na véspera eu e a minha tia tínhamos cozinhado a aletria (sem ovos e com um pudim chinês a fazer-lhe a vez e- juro-vos!- é o melhor truque de sempre para a aletria não ficar seca e dura) e os mexidos. Não larguei o fogão enquanto fazia os mexidos nem por um minuto. Não sou uma cozinheira exímia, por isso não queria arriscar. Na minha cabeça todos os passos que a minha avó seguia de cor: a água a cozer os pinhões, as nozes, as amêndoas e as avelãs, os paus de canela a boiarem e o mel a rodos, acrescentar o pão reservado e o cálice do vinho do Porto e corrigir, a gosto, mel e canela em pós até ficar a saber a ela, à minha avó. Em mim toda a segurança do Mundo, passei os últimos anos de vida da minha avó a preparar os mexidos sob o comando da sua voz, a mesma que me guiou ali, neste Natal. A minha tia a acabar de costurar o vestido da Ana, a Ana tão linda no seu novo vestido.
Na véspera todos a chegarem, devagarinho. Na mesa não há lugares marcados, só havia em tempos o do meu avô. Ouvem-se risos e gargalhadas. Novos elementos que adoptámos. A Ana a ser a razão de tantos olhos brilharem mais e nós felizes, todos serenos e felizes. O desfile do manjar natalício com raízes no Minho e nos Açores, bacalhau e polvo, bolo-rei e bolo de Natal, mexidos, aletria e espécies e donas amélias, angelica nos copos. A prima divertida, o novo primo calimero, a minha mãe e a Ana sempre no despique, os tios a desejarem que o novo ano traga mais saúde, a tia a parecer a minha avó, nós felizes, eu e ele, e esta família que é gruta e albergue, espaço contentor de amor e segurança.
A discussão surgiu uns dias antes: algum de nós se fantasiaria de Pai Natal como no meu tempo o meu pai fazia ou faríamos o festim sem o estímulo visual? Decidimos pelo último. A Ana subiu ao primeiro andar, ao colo da sua Tidinha chamou pelo Pai Natal à janela, ouviu-se um "oh oh oh" e viram-se luzes, a Ana diz que as renas tinham luzes como os carros para verem melhor o caminho do céu, ouviu-se um sino e foi o tempo de descer até à porta da entrada, onde tantos presentes a esperavam, o prato com as bolachas já comidas que ali deixáramos entretanto, as cenouras mordiscadas pelas renas, a Ana em êxtase a dizer adeus para o céu: "Obrigada, Pai Natal! Obrigada!"
Desembrulhámos presentes e amor, estivemos juntos como dez dedos das mãos, rimos com a alegria da Ana, agradecemos os presentes de quem se lembrou de nós não por obrigação ou cortesia mas porque gosta de nos ver felizes. A lareira ainda estava acesa antes de voltarmos para casa, os três, com o carro a abarrotar de brinquedos. 
Nesta noite de Natal a Ana juntou-se a nós na cama. Estávamos quentinhos e felizes. antes de adormecer abraçou-nos: "Mas viste mesmo o Pai Natal, Ana?"- cutucámos. "Vi! Era lindo e grande e voava nas renas com luz". 
Este foi um Natal maravilhoso, cheio de magia e de luz. Ninguém se vestiu de Pai Natal mas, ainda assim, a minha filha viu o velho. Oh, se viu!

Nós também. 

2 comentários:

Só Entre Nós disse...

Lindo! Feliz ano novo!

Joana Sousa disse...

Que bonito! E a Ana é a prova de que as crianças são o melhor do mundo! Feliz Ano Novo!

Jiji

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...