segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

Eu também já fui idiota*

Escrevi aqui, algures, em 2013 um texto trocista acerca da legislação do piropo. Já escrevi muita porcaria neste blog mas poucas me provam mais que cresci do que este post.
Crescer tem destas coisas. Não crescer em altura ou ver os dias somarem-se e formarem tempo passado. Crescer convivendo com pessoas mais inteligentes que nós, mais informadas ou com outras experiências, crescer assumindo que não se sabe tudo e tendo a humildade de ouvir e querer aprender, conhecer outros pontos de vistas, outras abordagens e perspectivas. Crescer não nos fechando num mundo de certezas absolutas, de ideias muito convictas e irredutíveis como se a maturidade (mais que a inteligência) se provasse com ideias muito firmes e inabaláveis, argumentos muito sólidos e rígidos, não dar o braço a torcer, não repensar, não aprender.



Foi a tia Beta com o seu exemplo na luta pelos direitos das mulheres, a Luna em jantares regados de vinho bom com conversas gentis, a Helena neste comentário aqui, a Sofia Vieira, a Madalena Vidal, a Rititi, a Teresa Cardoso e a Inês Sampaio Antunes em discussões de facebook e o meu próprio marido todos os dias (e ainda neste post) que me mostraram o outro lado do feminismo, para além do básico e à mão de semear dos Niltons desta vida. O feminismo que luta contra "mulheres sérias não têm ouvidos" e "os meninos não choram".

Por isso hoje, dois anos depois, assumo a mea culpa e congratulo-me com uma lei que pune quem praticar actos de carácter exibicionista, importunando e formulando propostas de teor sexual sobre outrem.  

Multiplicam-se os comentários bacocos nas redes sociais. Que não tem lógica punir um tipo porque ele é simplesmente rude e mal educado. Pois que tem, tem a lógica de um idiota não proferir um piropo que assenta na sexualização do corpo da mulher, sem seu consentimento, só porque sim. Tem a lógica de, talvez, fazer o idiota pensar antes de falar. Tem a lógica de uma mulher poder andar na rua com o mesmo à vontade de um homem, sem receio de passar por obras ou por grupos de homens no meio da rua, sem, por causa disso, ter que desviar o olhos, baixar a cabeça, andar mais depressa, mudar de lado do passeio, escolher outro caminho para o chão. Tem a lógica de se deixar de perpetuar a ideia passada pelas nossas avós de que "mulher séria não tem ouvidos", "com essa saia estavas mesma o pedi-las", "aprende e para a próxima não voltes a sair com esse decote desavergonhado". Tem a lógica da mulher poder circular nos espaços públicos e comuns sem medo, sem constrangimento e com liberdade, sem se sentirem inseguras, ameaçadas, desconfortáveis ou com uma sensação esmagadora de invasão. Tem toda a lógica. 

O piropo é, de facto, invasivo e merece ser punido. É simples como isso. E é disso que se trata esta lei:  do "fazia-te uma espanholada" ou " comia-te toda", da objectificação da mulher à tesão do homem.  Do "fazia-te um pijaminha de cuspo", do "posso fazer-te cócegas na barriga mas por dentro"  ou "Tens um cu que parece uma cebola: é de comer e chorar por mais" ser nojento e merecer de castigo, de eu, por ser mulher, não ter que me sujeitar a ouvir isto, ignorando, comendo e  calando, defendendo-me, fingindo não ouvir, ou tendo que entrar numa escalada de ofensas. É simplesmente eu não ter que ser obrigada a levar com isto, porque isto é invasivo, abusivo e deve ser alvo de sanção legal, claramente. 

Mais, a lei defende este tipo de ofensas a "pessoas". Estamos a falar de mulheres por serem o alvo mais corrente mas a lei defende que 

""Crime de importunação sexual: "Quem importunar outra PESSOA, praticando perante ela atos de carácter exibicionista, formulando propostas de teor sexual ou constrangendo-a a contacto de natureza sexual, é punido com pena de prisão até 1 ano ou com pena de multa até 120 dias, se pena mais grave lhe não couber por força de outra disposição legal." 

Esta é a nova redação do artigo 170.º do Código Penal e defende o cidadão comum que não tem que levar com as merdas do próximo, das tentativas de alguém se fazer engraçado perto dos amigos usando o corpo de outra pessoa como alibi, dos recalcamentos sexuais de estranhos, do acto abusado e consciente de objectificarem o outro a seu bel prazer.

A Lei é esta. Não sei se é perfeita. Não sei como se fará cumprir. Mas a mim dá-me, pelo menos, a certeza de que estamos a começar uma importante reflexão sobre os direitos básicos das pessoas não terem que comer e calar quando estão sujeitas a isto, que não tenho que ensinar à minha filha que "mulher séria não tem ouvidos" e que, talvez, as coisas comecem a mudar e que ela, por ter nascido mulher, não tenha que baixar a cabeça quando passa por um bando de homens estúpidos e mal educados e que a sociedade não acha aceitável que a liberdade de expressão deles vale mais que a liberdade de circulação dela. 

E não, meninos defensores do piropo - lamento!- o piropo não faz nada pela auto-estima das mulheres. É o respeito que faz.  E é desse respeito que trata esta lei.

Mais, rapazes, se acham que tem tanta piada, comecem a mandar piropos uns aos outros, para verem como é bom.



(*e ainda sou numa série de outras matérias. Nesta, já não.)

10 comentários:

Gorduchita disse...

Por um lado, concordo com esta alteração à lei. Por outro, continuo a achar que "palavras loucas, orelhas moucas" (a da "mulher séria não tem ouvidos" nunca poderia ter o meu acordo).

Não posso é de deixar de refletir como é que se irá aplicar tal lei (se é que se aplicará, de facto) num país em que se vêm acórdãos de tribunais absolutamente assustadores (de tão leves) em casos de abuso sexual físico e mais que provado, num país em que ainda se recrimina a mulher pela sua roupa e seu comportamento,...

Izzie disse...

Yes. Beijocas, pá. Só os burros não mudam de ideias, derivado das palas nos olhos ;)

(e sosseguem os indignados, ninguém baterá com os costados na pildra por mandar piropos ordinários, em Portugal ainda se começa por aplicar a pena de multa, só em casos graves ou de repetição de condenação é que se salta para a pena de prisão, que ainda assim poderá ser suspensa. mas o facto de uma mulher sentir que pode apresentar queixa é poderoso. e um homem saber que ela tem esse poder, é dissuasor. e isso é tão, tão importante. ah, uma mulher, não: todos. sim, que homens também são alvo disto. há muito machão que gosta de dizer ao tipo não alfa que o "enrabava" e fazia e acontecia. é comum, aliás, entre primatas: a sodomização como acto de poder do macho alfa sobre os outros, os não autorizados a reproduzir com o harém. e pronto. estamos todos melhor assim. menos os nhurros.)

Joana Sousa disse...

Obrigada! Já me aconteceu o mesmo em relação a tantos assuntos, e este é mais um - concordava contigo quando escreveste o outro texto, e concordo contigo agora. Crescer é isso mesmo. E infelizmente às vezes é preciso pôr tudo na lei para a nossa sociedade crescer um bocadinho também, mesmo que seja no que deveria ser básico...

Cynthia disse...

Aplaudo e subscrevo. Não teria dito melhor! Também acho ridículo que se leve esse tipo de obscenidades como natural...

méli disse...

Eu também já fui idiota: http://1pontodefuga.blogspot.pt/2013/08/o-piropo.html
(não me poderia identificar mais contigo neste momento :( )

Estanislau Antonio Salgado Araujo disse...

Esta lei é mais uma desnecessariamente desnecessária sem pés nem cabeça(as mulheres vão lançar piropos a elas próprias). Tudo isto é mais uma lei ESTUPIDA como muitas outras que alguém lança cá para fora só para fazer rir, queridas.
Será que o piropo não é um chamariz para um pedido de namoro?, não será uma brincadeira entre colegas? etc. etc. etc.. Mais uma BURRICE de alguém que se julga intelectual.
Pessoalmente nunca vi tanta BURRICE em determinadas pessoas E EU É QUE SOU O IDIOTA?

Pólo Norte disse...

Estanislau,

A avaliar pelo seu comentário, sim, o senhor é que é o idiota!

Sophie disse...

Plenamente de acordo, Pólo!

Purpurina disse...

Adoro, mas adoro mesmo os argumentos das pessoas a favor do piropo. Nem sei se me espante, se ria como uma doida.
Estas pérolas argumentativas deixam-se o cérebro feito num 8. Fiz uma seleção de algumas das mais interessantes (muitas mais haverão): http://www.vinilepurpurina.com/2015/12/29/os-piropos-agora-sao-crime-acho-bem/

Ana Pragana disse...

Sem saber bem que seria feminismo ou outra coisa qualquer, sempre fui educada num contexto de respeito e igualdade. Sempre me ensinaram a não deixar que me diminuam ou rebaixem, seja por que motivo for e menos ainda por "ter maminhas".
Tenho a sorte de ter um homem feminista ao meu lado. Acho que aprendi que sou feminista (e esclareci algumas dúvidas, cresci nalguns aspectos) com ele.
Coisas da vida, a Inês (essa fantástica do teu post) cruzou-se na minha vida e eu percebi, ainda melhor, que isto que defendo é bem (e mais ainda) defendido, por pessoas inteligentes, informadas que nos ensinam que a sororidade não precisa de ficar pela teoria.

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