quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

Natal dos Hospitais

Talvez um dia o Natal dos Hospitais termine. Espero que não. Mas talvez um dia à luz das audiências, dos shares e dos ratings televisivos alguém na RTP decida que já não faz sentido. Espero que não. O Hospital dos Hospitais é o único programa televisiva de fora para dentro, não é feito para os telespectadores, não é feito para as donas de casa que gostam de ver as máquinas da verdade da Fátima Lopes a dizerem que não senhor, que o Carlos Costa, seja lá ele quem for, mente. 
O Natal dos Hospitais é uma festa para quem está ali, in loco, a participar no Natal dos Hospitais. Não é apenas o dia em que em casa se vê- pela enésima vez desde que há programas clonados aos domingos à tarde- cantores populares mais o Coro de Santo Amaro de Oeiras e ainda os participantes do Festival da Canção que ninguém sabe bem quem são.
O Natal dos Hospitais é uma festa, agora talvez menos impactante, pois os skypes fazem a vez destas tardes que na minha infância serviam para que colegas minhas, internadas no Alcoitão durante meses seguidos- numa altura em que não havia telemóveis nem skype, poucas auto-estradas e salários pequeninos- se vestiam para aparecer na televisão onde os pais, em Freixo de Espada à Cinta, Vila Real de Santo António ou Funchal, que tinham deixado as filhas doentes, durante meses, em reabilitação no Alcoitão e só as reveriam nas próximas férias, poderiam matar saudades, de forma unidireccional, das suas meninas. Continua a ser uma festa. 
O Natal dos Hospitais é uma festa , é o dia em que vale a pena despir o pijama do Hospital e vestir uma roupa bonita, sair do quarto  e empurrar as rodas da cadeira, tirar o elástico do rabo de cavalo confortável e prático e soltar os cabelos para ficar mais bonita na televisão. 
 É o Dia em que se leva o verdadeiro espírito do Natal aos hospitais: o da partilha, da alegria, do brilho e da festa a quem não pode passar esse dia em família. 
O Natal dos Hospitais não é um programa para audiências, shares e ratings. Não é um programa para oferecer dinheiro em cartão a quem ligar nem para desmascarar participantes da Casa dos Segredos e "dar canal". Talvez não seja um programa espectacular para quem assiste. Para mim, a memória desses dias, mais, muito mais do que um desfile de músicas, símbolo de um dia de encontro e de matar saudades de quem está longe, oportunidade de festejar quem não tem o mais importante para celebrar: a saúde.
O Natal dos Hospitais é um programa para quem o faz, com pijamas despidos, mãos a empurrarem cadeiras de rodas, cabelos soltos e motivação renascida para se sair dos quartos, brilhos nos olhos. Não é, com certeza, um programa top de audiências e talvez esteja até a ficar demodé. Talvez por isso, talvez um dia o Natal dos Hospitais termine. Espero que não.
Porque é o verdadeiro serviço público de um canal de televisão. E é sempre, mas sempre festa. 
 É o verdadeiro Natal.


(Amanhã, na RTP1, descubram caras conhecidas deste blog por lá! ;)

2 comentários:

S.o.l. disse...

Para mim, e eu felizmente nunca tive hospitalizada, o Natal dos hospitais é um marco na minha infância. É um pilar. Uma tradição. Algo que gosto mesmo, mesmo muito. Espero também que não termine.

Vanessa disse...

EU via sempre o Natal dos hospitais! Invariavelmente fartava-me sempre de chorar...desde que emigrei nunca mais vi! Este ano tive a minha filha no hospital na Páscoa e a certa altura apareceram umas freiras com umas velinhas lindissimas para dar às crianças internadas, nunca me esquecerei do sorriso de felicidade da minha menina. Uma vela fez tanta diferença, não imagino a felicidade que uma festa da dimensão do Natal dos hospitais traz a todas as crianças! Se pelo menos uma sorrir como sorriu a minha filha de certo vale a pena!! Espero de coração que continuem a fazer todos os anos!! Beijocas!

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