terça-feira, 22 de dezembro de 2015

O meu presente de Natal



Revi-o recentemente. Estava em falta com ele. Eu, eu era apenas mais uma pessoa que não conseguia cumprir o seu único desejo, o único meio que o podia conseguir aproximar do sonho de um dia conseguir cozinhar: aprender a ler. 
Não interessa as razões que o trouxeram aqui, à adolescência sem letras, sem histórias de dragões lidas antes de adormecer, sem livros de aventuras devorados, sem companhia de livros com cheiro a livros e a imaginação. Tem 16 anos e não sabe ler. E, não fosse o amor pela cozinha, talvez nunca verbalizasse essa vontade que eu sei que vai esmorecer face ao trabalho que o espera, à dedicação que é necessária, ao esforço de decorar letras, juntá-las até formarem palavras e textos com significado. Mas verbaliza. Várias vezes. A última naquele dia em que o revi e me olhou nos olhos e perguntou-me, sem cobranças, mas com um olhar profundo: "tu também não me vais ajudar a aprender a ler, pois não Liliana?". Eu, apenas mais uma igual a tantas que se importaram mas que não concretizaram, a tantas que se comoveram instantaneamente e depois foram-se esquecendo da promessa com o passar pesado dos dias e dos afazeres. Eu a ser mais uma , apenas mais uma, a não conseguir fazer qualquer diferença.
É sempre uma questão de ego. Não acredito no altruísmo, já aqui o disse, no verdadeiro altruísmo sem não se receber nada em troca. Claro que me comovi com um adolescente a quem não foi dada a oportunidade de aprender a ler. Guardei essa comoção uns meses, tentei arranjar solução mas acabei por desistir à força de tantos obstáculos e dificuldades. Não foi o rapaz que me fez mexer. Foram aquelas palavras embrulhadas no olhar escuro e profundo "tu também". Eu não queria ser aquela pessoa, não queria ser mais uma, outra igual a tantas, eu não queria aquele "também". Foi isso que me moveu. 
Depois os astros alinharam-se. Uma pessoa queria oferecer um presente solidário ao homem que mais ama e contactaram-me. O input era: "um presente que fizesse a diferença na vida de alguém". Eu, a medo, falei dele, dos seus olhos pretos como azeitonas e do seu desejo de aprender a ler. E a ideia de oferecer ao rapaz a oportunidade de aprender a ler, de um dia poder ler receitas e cozinhar ganhou forma e jeito de se concretizar. Depois apareceu a pessoa certa para o poder ensinar e, neste Natal ganhámos todos: ele, que em 2016 irá aprender a ler, a mulher que oferecerá ao marido um life makeover como não há memória, o marido que terá a oportunidade de mudar a vida de alguém e eu, especialmente eu, que já não serei também mais uma pessoa que tem pena mas não resolve, que se comove e segue em frente, que pára mas não age, que gostava muito mas não concretiza. 
Eu sou apenas um meio, uma ponte mas não sou, claramente, a pessoa que há dias olhou para ele sem resposta quando ele lhe perguntou: ""tu também não me vais ajudar a aprender a ler, pois não Liliana?". 
Vamos ajudar, sim, meu querido. Obrigada por me trazeres, assim, este presente de Natal. Para o ano escreves-me os postais. :)

6 comentários:

Sofia Ferreira disse...

Feliz Natal! :)

Patrícia C. disse...

Obrigada. Fiquei sem palavras.
Feliz Natal.

Joana Sousa disse...

:) Obrigada pela honestidade. E por agires! Feliz Natal!

Jiji

Filomena Silva disse...

Que belo presente de Natal, para quem o vai receber e para quem vai o vai dar e para ti que estás a ajudar na concretização de um sonho.
Quero ver os postais escritos por esse jovem no próximo Natal, quero saber dele a cozinhar. Espero que o futuro lhe sorria, já que o passado não o fez.
Beijinhos e Feliz Natal a todos.

CS disse...

E que melhor presente do que mudar para sempre a vida de alguém... boas festas

Sílvia disse...

Fico com um bocadinho mais de fé na humanidade por causa de pessoas como tu ;)
Feliz Natal!

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