terça-feira, 22 de dezembro de 2015

O molho de tomate da minha avó

ilustração: João Vaz de Carvalho


A minha avó não era uma avó muito prendada. Não tinha pachorra para fazer croché e quando fazia não saia nada assim por aí além. A minha avó não usava xailes, lenços nem vestia luto por ninguém. A minha avó não era o estereótipo da avó mas foi ela que moldou no meu entendimento o modelo do que se é ser avó. Também não era uma avó exímia na arte de cozinhar, uma excelente fazedora de bolos nem tinha nenhuma especialidade daquelas que passa de geração em geração, com truques e receitas cheias de segredos. Para além dos mexidos e da aletria anuais em época natalícia, a minha avó fazia muito bem três coisas muito pouco requintadas: pão com manteiga aquecida nos bicos do fogão, batatas aquecidas (aproveitamento de batatas cozidas que depois eram fritas em azeite com muuuuuita cebola) e um esplêndido molho de tomate. 
Faz hoje quatro anos que o meu tio me bateu à porta de casa, com muita força, de manhã, eram umas sete horas, talvez menos, a gritar "a avó está morta, a avó morreu!". Eu sou uma autómata nestas situações (aconteceu-me duas vezes, esta e a da morte do meu avô): fico com um ar muito sério, visto-me e vou ao encontro da cena, volto a casa com um pretexto qualquer, tomo banho e choro (choro muito) enquanto a água corre, seco-me, visto-me, limpo as lágrimas e vou fazer o que tem que ser feito, rituais públicos que abomino mas que desempenho com a maior das dignidades para honrar quem se importa com lutos, velórios e funerais. 
Foi a dois dias do Natal, há quatro anos, que a minha avó adormeceu para a morte e nunca mais acordou. No meu ventre estava já a Ana, esta Ana que, numa espécie de isostasia veio equilibrar as contas do meu amor. 
Pensei que não conseguiria viver sem a minha avó (e antes sem o meu avô) mas, na verdade, o ser humano adapta-se a tudo, até ao vazio que deixam as pessoas que eram as nossas raízes e tronco, os alicerces da nossa alma, a estrutura do nosso ser. Escrevi, há quatro anos, que "A morte é uma puta" e tive medo de nunca mais ver luz no Natal, de ter um Natal feliz. 
Hoje, quatro anos depois, com esta nova Ana, matrioska da que partiu, fazem-me, finalmente, sentido as palavras do meu amigo Prezado naquela caixa de comentários "Só mudou o molde, a felicidade é sempre possível. Mas diferente. É uma merda, é.".
A felicidade é possível, não é plena porque não consigo que coexistam no mesmo tempo e espaço o meu passado, o meu presente e o meu futuro, as mãos enrugadas da minha avó, as mãos quentes da minha mãe e as mãos novinhas em folha da minha filha mas, sim, a felicidade é possível.
Hoje não quero relembrar a data da sua morte, quero celebrar o facto de a ter tido, para mim, 31 anos inteirinhos, com pronúncia do Minho, pés aquecidos em noites frias de Inverno no meio das suas próprias pernas, embalo no corpo e palmadinhas ritmadas nas costas nos dias em que as dores dos aparelhos me arrancavam lágrimas, sorrisos sempre que trazia as notas da escola e corridas até aos portões das vizinhas para as exibir, orgulhosa, dinheiro sacado do porta moedas guardado junto ao peito para o meu lanche da escola, despertar bem disposto e fresco. A minha avó era mesmo, mesmo, a melhor avó que me podia ter calhado na sorte. 
Hoje para jantar fiz molho de tomate. E pela primeira vez, em mil anos, soube-me à minha avó. 

4 comentários:

Aranhiça disse...

A morte é uma puta regida pela Madame que é a vida!
Adaptamo-nos sempre à conta que nos apresentam...

ccstylebook disse...

A minha avó era tudo o que a tua não era Pólo Norte. A sua morte foi, até hoje, a coisa mais difícil da minha vida. Foi a primeira vez que senti o coração apertar-se de uma forma asfixiante. Nunca o tinha sentido antes. Habituamo-nos, mas não volta a ser igual. Nunca consegui reproduzir os seus purés. Nunca ninguém conseguiu. Escolhi ser jornalista porque ela era uma grande contadora de estórias. Fico muito feliz quando descubro que alguém teve uma avó especial. Sei o que isso nos dá. Sei o que isso nos deixa. Obrigada pelo teu texto! Beijinho :)

Vera Traguedo disse...

Li o texto e senti-o como meu... a minha avó partiu há 14 anos no dia 22 e hoje estou grávida de uma nova Joana, matrioska da que partiu... É isso, queria ser como ela e agradeço todos os dias tê-la tido na minha vida... Obrigada pela partilha. Feliz Natal!

T. disse...

À porta dos 30 já perdi metade das pessoas com quem achava que não podia viver. É mentira, pode-se, mas nada nunca volta a ser o mesmo. A felicidade é menos feliz, e os dias de festa dividem-nos o coração em dois: há o coração alegre por estar com os seus, e há o coração que fica pequenino de saudades e de lágrimas. Quase aos 30 sei que a morte mata os planos de amor eterno, e que leva um futuro avô babado dos meus futuros filhos. Dava a vida para que voltassem, mas na impossibilidade de tal, escolhi honrá-los da única forma que posso - com a minha integridade, amor, e zelando pelos nossos, todos os dias, o melhor que posso. A morte leva-nos os nossos, leva-nos parte do coração, e leva-nos parte de nós também...mas enquanto não nos levar as memórias, pessoa que fizeram de nós e o molho de tomate, então cada lágrima ainda derramada valerá sempre a pena. Mesmo no Natal.

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