segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

Porque há quem explique melhor (muito melhor) que eu




“Desenvolvi uma maneira de andar no metro que não tem nada a ver comigo, tipo rapaz [assume uma postura abrutalhada para exemplificar]. Porque a minha atitude física determina a dos outros. Já me senti muito mal em transportes públicos e muito assustada e com medo, tenho mesmo medo, e desenvolvi esta forma de me mexer e de falar com as pessoas. Fisicamente enjoa-me e enoja-me honestamente o tipo de situações a que somos submetidas. Porque sinto-me muito fraca, e odeio sentir isso.”
Isto é de 2015. Dito por uma aluna do liceu Camões, de Lisboa, numa entrevista colectiva ao DN para o dia internacional da mulher. O nome dela é Inês. Tem 17 anos. É uma miúda como as outras, nem mais bonita nem mais feia. Exactamente como as outras todas. Todas as que passam pelo mesmo, que são todas as miúdas que saem à rua neste país da Europa ocidental neste ano 15 do século XXI.
A Cátia, 16 anos, por exemplo: “Vejo isto acontecer, e passo por isto e preocupa-me porque tenho uma irmã com dez anos. Vejo miúdas de 12 a ouvirem piropos. E isso é horrível. É normal, isto, de um homem com 30 anos mandar um piropo a uma criança com 10?” Respira fundo. “Queria contar isto que me aconteceu em novembro no autocarro. Um senhor veio a viagem toda atrás de mim no autocarro a dizer ‘és toda boa’. E quando eu ia a sair apalpou-me. Não acho justo. E não me sinto minimamente confortável para no meio de um autocarro ter uma atitude agressiva para aquilo que o senhor me estava a dizer, por tenho medo.”
Medo. É normal as meninas e raparigas deste país da Europa ocidental, neste ano 15 do século XXI, terem medo de sair à rua? Digam-lhes isso que costumam dizer: digam que elas estão a exagerar. Que é só “brincadeira”. Que é só “sedução”. Que penalizar isso a que costumam chamar piropo é um “atentado à liberdade de expressão”. Expliquem-lhes que por serem mulheres têm de aprender que a rua não é delas, que de cada vez que saem de casa sem escolta masculina se habilitam. Que é de pequenas, tão pequenas quanto 10, 11, 12 anos, que têm de aprender a lidar com a ideia de que antes de mais valem pelo aspecto e que todos os homens se sentem no direito de lhes dizer o que acham delas, do corpo delas, do rabo delas, das maminhas delas, das pernas delas, dos lábios delas, dos cabelos delas, da cara delas. Que podem dizer-lhes se gostam ou não gostam, o que lhes fariam ou não fariam, se elas prestam ou não para alguma coisa.
Têm de aprender que faz parte de ser mulher ser agredida, insultada, escarnecida, diariamente, por desconhecidos que as tratam por tu. E que, se lhes responderem, o mais certo é tornarem-se ainda mais agressivos. Porque estão no domínio deles, a rua, o espaço público. Enquanto elas estão fora do seu – porque é isso que aprendem de crianças, que o espaço público não é delas, que aventurar-se nele é isso mesmo, uma aventura, e arriscada. Que ao longo da vida, de cada vez que derem um passo em frente na rua, no palco, no púlpito, na TV, nos jornais, vão antes de mais ser julgadas pelo aspecto, apreciadas “como mulheres”. Que antes de alguém saber quem são e o que têm a dizer vão comentar “é bonita; é feia; é nova; é velha; é gorda; é magra.” Que se habituarão a avaliar-se a si próprias e às outras mulheres antes de mais com base nessa mais ou menos valia. Que se habituarão a que faz parte da vida.
Rita, 17 anos, explica: “Faz-me lembrar um artigo que li num blogue que era ‘as 10 coisas que as mulheres não fazem com medo de ser assediadas’. Por exemplo tentar não passar em frente de um grupo de indivíduos, ir para o outro lado da rua... Não acho que um indivíduo tenha o direito de se virar para mim ou para qualquer outra rapariga ou mulher e mandar bocas tipo ‘estás toda boa’. Isso é um desrespeito. Mais do que por mim, pelo meu sexo. Parece que o objectivo da mulher é servir de objecto sexual. Quando ando na rua sinto-me um objecto.”
A quem argumenta que isto é exagero, que as mulheres não precisam de proteção da lei porque são muito bem capazes de se defender; a quem proclama que penalizar o assédio sexual de rua é “acabar com a possibilidade de sedução” (como se sedução fosse tratar por tu desconhecidas no meio da rua em ‘comia-te toda’, ‘dava-te três sem tirar’ e outros clássicos intemporais), a quem -- e tantas mulheres o afirmam, incrivelmente – repete “nunca me aconteceu” peço, exijo, que explique à Inês, à Cátia, à Rita porque têm de passar por isto e ainda achar normal, salutar, giro. Que explique como explica que o Estado português, o qual criminaliza a injúria, o qual criminaliza quem “falte ao respeito devido aos mortos”, o qual criminaliza a “perturbação da vida privada” por parte de quem, “com intenção de perturbar a vida privada, a paz e o sossego de outra pessoa, telefonar para a sua habitação ou para o seu telemóvel”, acha que perturbar a paz e o sossego de uma mulher, só por ser mulher, com clara intenção de perturbação, não tem problema nenhum desde que em vez de ocorrer por telefone e para casa ocorra na rua e de viva voz.
Expliquem por favor à Inês, à Cátia e à Rita que “é divertido” e até “bonito” fazerem-lhes medo, fazê-las sentir desde crianças que por serem mulheres sé em casa estão em segurança. Expliquem-lhes que o direito à “liberdade de expressão” de qualquer homem é infinitamente mais importante que o delas de circular livremente no espaço público; que o direito delas ao espaço público vale menos, ou mesmo nada.
Expliquem-lhes que isto nada tem a ver com os países muçulmanos que obrigam as mulheres a andar tapadas na rua sob pena de violação e alegação de que a rua é dos homens e elas devem abster-se de a frequentar sem tutela masculina; expliquem-lhes que estamos num país em que as mulheres têm direitos iguais aos dos homens e que podem fazer tudo o que eles fazem – e que isto de serem repetidamente lembradas na rua de que valem menos ou nada, ou que valem apenas e só o que os homens acharem por bem, não tem importância nenhuma.
E depois não se esqueçam de exprimir uma enorme surpresa e preocupação com a violência de género que mata , com a violência no namoro, com o bullying nas escolas (que só é preocupante nas escolas, claro) e com a estranha falta de participação das mulheres, apesar da sua formação superior, na esfera da representação política e em tudo o que implique evidenciarem-se e exporem-se, ou seja, aventurarem-se no espaço público.
Não se esqueçam, por favor, de repetir que “o piropo é um elogio e todas as mulheres gostam de ser elogiadas.”E que isto, esta preocupação, esta fúria, é de gente histérica, feia e mal amada, frustrada e, não esquecer porque é fundamental, que “odeia os homens”.
Porque, naturalmente, é preciso“odiar os homens” para perceber que o que todos os dias sucede nas rua sportuguesas com as mulheres e meninas -- minhas e vossas filhas, netas, irmãs, sobrinhas, mães, avós -- é um odioso e odiento espectáculo de violência, uma formação intensiva para o medo e a menoridade, uma afirmação ostensiva do poder dos homens sobre as mulheres. É preciso “odiar os homens” para perceber que o assédio sexual de rua é uma tremendamente eficaz educação para a violência, banalizada, mascarada de “normalidade” e até de “cavalheirismo” e “sedução”. Que esta educação educa tanto as mulheres para serem objecto de violência como os homens para a exercer; que os miúdos são tanto vítimas dela como as miúdas.
É, numa coisa têm razão os que verberam quem como eu defende a penalização do assédio sexual de rua: tenho ,temos um problema. Não conseguimos aceitar que isto seja aceitável. Não queremos que a Inês, a Cátia e a Rita sejam mais convencidas de que ter medo é o seu destino. Chega. "


Fernanda Câncio, Jornalista e colunista do Diário de Notícias



1 comentário:

Joana Sousa disse...

Eu não páro de te agradecer pelas pérolas que publicas. Obrigada pela partilha - este texto diz tudo, vou ter que o mostrar a umas quantas alminhas!

Jiji

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...