segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

SIP David Bowie

           

A professora Sónia era a minha preferida. Era a minha professora de Português do 7º ano e depressa nos tornámos muito próximas, sendo, claramente, uma poderosa influência na minha vida durante o ciclo preparatório. Eu admirava a cor de cabelo da professora Sónia, eu sonhava um dia conseguir pintar como ela o fazia em part-time e escrever da forma como o fazia, queria ler os seus livros preferidos e cada sugestão que ela me dava era seguida de forma religiosa. Foi ela que me apresentou Eugénio de Andrade, Marguerite Yourcenar, José Gomes Ferreira e David Bowie. 
Um dia olhou com curiosidade para a minha capa de EV, toda ela forrada com recortes de revistas do Bryan Adams, meu ídolo de sempre. E confidenciou-me que o Bryan Adams estava para mim como o David Bowie para ela, despertando em mim uma curiosidade inabalável de conhecer o ídolo da pessoa que mais admirava naquela altura.
Em 1994 não havia internet (aliás, havia mas eu não tinha acesso) nem youtube, nem sequer wikipedia. Os meus pais tinham-se separado há uns 6 anos e das poucas coisas que o meu pai me tinha deixado foi o seu espólio de discos de vinil, dos tempos que trabalhara na rádio. Foi assim que ouvi pela primeira vez David Bowie. E fiquei rendida para sempre.
Mais tarde, um dos homens que mais amei escrevia-me cartas e numa delas escreveu-me a letra do "Ground Control do Major Tom" e arrebatou-me para sempre. 
Na verdade há qualquer coisa em David Bowie que não há nos outros artistas da sua época: um inconformismo britanicamente elegante, uma desobediência de gentleman, uma raiva expressa com inteligência emocional, um desequilíbrio equilibrado. 
Perder David Bowie é verem-se esgotadas todas as possibilidades numa só pessoa, mil faces do mesmo homem, mil personas numa só pessoa, camaleão, homem, natureza, astro. 
Hoje morreu um bocadinho da minha adolescência. Conforma-me saber que este será dos duros, daqueles que não "rest in peace" mas sin "sing in peace". Naquela paz desinquieta que só as suas músicas me conseguiram ensinar. 

Let's dance. 

2 comentários:

Purpurina disse...

É um dos meus músicos preferidos de sempre. Oiço-o quase todos os dias... Nem tenho palavras para falar sobre isso.

Marta disse...

Let's dance, apesar de bastante popular entre o grande público, é das músicas de Bowie com que menos se identificava. Correspondeu a um período de experiências que lhe correram francamente mal, como chegou a dizer.

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