sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

A ASSISTIR | Catarina- a Grande em "Gata em Telhado de Zinco Quente"



Arrastei-me até ao Teatro São Luiz. Achei que a minha tosse iria servir de banda sonora a todo o teatro e doía-me o corpo todo. Não pisava o São Luiz há uns 30 anos, desde que apresentei (ainda com o meu pai) um espectáculo de beneficência. Tinha boas memórias do teatro. 
Regressei para ver "A Gata em Telhado de Zinco Quente" e pensei que difícil seria ter como referência a Elizabeth Taylor e o Paul Newman e como qualquer interpretação nunca corresponderia ao estandartes. Depois? Depois apagaram-se as luzes e ainda mal me tinha refeito da agradável surpresa de ver duas tradutoras de Língua Gestual Portuguesa a trabalhar para uma (boa) parte da plateia surda e ela surgiu em palco. 
Catarina Wallenstein - sim, vestida apenas de combinação!- surge num primeiro monólogo. Com aquele ar petrarquista-boneca de porcelana-diva-que nunca se descabela. Mámen ficou logo numa agitação (estupor!) e eu também mas no sentido inverso: descabelada. Querem lá ver que uma pessoa arrasta-se doente até ao teatro para esta agora me vir escarafunchar nas trombas tanta, demasiada, exagerada beleza? Mas eu mereço?
Depois deixei-me levar naquele tom de voz, na personagem, no perfume que se sentia na segunda fila onde estávamos, nos movimentos graciosos, no enredo, nos dramas femininos daquela gata em telhado de zinco quente. 
A meio da peça já eu estava a questionar a minha própria heterossexualidade, logo eu, que sou uma menina que aprecia deveras o sexo oposto! A peça, bem encenada, com um bom ritmo, boa cenografia, excelentes interpretações arrebatou-me. Não tossi uma única vez. Para dizer a verdade quase nem respirei tal a forma como aquela Maggie, ansiosa, apaixonada, ambiciosa e sôfrega me enrolou na sua voz, nos seus gestos, nos seus dramas, nas suas não-palavras. 
Acabei a peça com uma certeza: mulher que, durante duas horas,  consegue a proeza de me fazer não olhar duas vezes para o six pack do Rúben Gomes e me faz suster a respiração, a tosse, esquecer-me da maldita gripe e desejar que a peça não acabe é menina para qualquer heterossexual convicta abandonar qualquer convicção. Elizabeth Taylor dá voltas na divo-tumba graças a esta actriz. 
Obrigada, Catarina, fui tão feliz nos últimos 35 anos, antes de não duvidar da minha orientação sexual e agora... agora fico assim, graças a ti: uma gata em telhado de zinco quente!
Falece, pá! 

A peça "Gata em Telhado de Zinco Quente" é inesquecível e recomendo-a a toda a gente. A toda a gente, não. A toda a gente menos às tipas que querem continuar a acreditar que nunca deixariam de ser heterossexuais. Essas, essas fiquem em casa!



Pôr à prova a sua heterossexualidade numa peça de teatro 

Quem? Peça de teatro "Gata em Telhado de Zinco Quente"
Onde? Por agora no Teatro Municipal São Luiz, Lisboa
Quando? Quarta a Sábado às 21h; Domingo às 17h30
Contacto: Pelo telefone 213 257 640
Saber mais? http://www.artistasunidos.pt/programacao/62-pecas/fora-do-teatro-da-politecnica/1001-gata-em-telhado-de-zinco-quente-de-tennessee-williams

2 comentários:

Caco disse...

Adorei a sugestão! ;-)

Purpurina disse...

Se estivesse por esses lado ia já! :)
Gosto muito da Catarina Wallenstein, é uma das melhores atrizes da sua geração, sem dúvida.
Olha fiquei com inveja agora! :P
Bom fim de semana.

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