quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

Limpa os ouvidos e escuta. Há quem chame por ti.




Uma pessoa que muito estimo escreve num post de facebook o desespero que sente: está com uma depressão profunda, no fundo do poço, sem capacidade para cuidar de si ou da sua família. ~

O marido teve que meter férias para cuidar dela e da filha de dois anos, pois a baixa por assistência à família não é remunerada nestes casos e eles estão numa situação financeira delicada. 

Ambos profissionais competentíssimos, ele a trabalhar há mais de vinte anos numa empresa, ela foi despedida de uma grande editora de revistas num despedimento colectivo e andou a receber salários em atraso misturados com uma indemnização aldrabada durante meses, em tranches de meia dúzia de euros. Ainda lhe devem centenas de euros e deixaram de pagar, Continuam as suas vidinhas, frescos e fofos. 

Têm uma filha pequena. de dois anos, que ainda não conseguiu ser integrada em creche, por falta de vaga na área de residência e porque a mãe está em casa, não fazendo do seu caso prioritário. A mãe deprimida. 

A pessoa (aliás o casal) são do mais digno e íntegro que eu já conheci. São escoteiros, voluntários numa série de sítios, resgatadores de animais abandonados, bons cristãos, gente com carácter e valores. Pessoas que estão habituada a dar, nunca a pedir. 

A pessoa pede ajuda, não pede dinheiro, mas grita por ajuda: precisa de tempo, de mãos a ajudarem, de apoio ao marido que não está a conseguir lidar com tudo, com o trabalho, chegar a casa e fazer as tarefas domésticas que ela não consegue realizar, o jantar, o banho da filha, as refeições para ambos para o dia seguinte. 

Não há rede familiar. Ele é estrangeiro e toda a sua rede familiar encontra-se no seu país de origem. Ela é orfã e filha única. Ele teve uma depressão que mal teve tempo de tratar, teve que voltar ao trabalho, o dinheiro do único salário de casa faz muita falta. Ela não consegue tratar-se convenientemente, não pode cumprir regradamente a medicação sob pena de ficar o dia todo pouco alerta e sonolenta e há que estar de vigília para tomar conta da pequena. Mas só consegue fazer isso, não lhe sobram energias para mais nada: para limpar a fundo a casa, para cozinhar, para as tarefas domésticas, para limpar as porcarias dos animais, vários e todos velhos, a família que ela teve durante mais de dez anos, antes dele e da pequena fazerem parte desta nova vida. 

Ela não pedia dinheiro no post. Pedia tempo, atenção, gritava "socorro" (e ela não é de pedir, ela é de dar...)

Comentários no facebook ao status desesperado: 4. 

Um a mandar beijinhos gigantes, outro a carpir as próprias mágoas e a queixar-se das hérnias discais (sim, é verídico!), um terceiro a constatar que outros amigos se podem chegar à frente, que com ela é sempre tudo à pele e não se consegue desdobrar mas muita força, beijinhos e o caralhinho. 
 Todo o resto da rede de facebook a assobiar para o lado e a fazer-se de morto. 


No ano passado a mulher do meu tio suicidou-se, depois de uma depressão prolongada e de todos ignorarmos o seu pedido de atenção, os apelos de ajuda camuflados, as ameaças que julgávamos capricho. Todos a choravam no velório mas durante meses todos assobiaram para o lado e fizeram-se de mortos. 

Escrevi isto no facebook deste blog. Tive mais comentários de estranhos a oferecerem ajuda que ela teve de conhecidos, amigos e família no status original. 
Ainda não fez uma semana que ela postou. 127 pessoas juntaram-se para ajudar com tempo, com mãos, atenção, escuta activa, bens e dinheiro. 127 pessoas não quiseram olhar para o lado. 127 pessoas não conseguirão, com certeza, tratar da depressão mas recusaram-se a limitar-se a mandar beijinhos ou palavras de força. 127 pessoas guardaram palavras ocas, hipócritas e assobios para o lado. Não foi isso que ela pediu. 

Desde sábado um conjunto de pessoas foi ajudar na limpeza geral. Houve quem esfregasse vidros de janelas, que lavasse loiça, quem aspirasse. Quem detectasse que a pequena ainda dormia no berço (apesar de estar à justa) porque ainda não tinha sobrado tempo para se comprar uns lençóis para a cama maior. Houve quem levasse roupa para passar a ferro e deixar tudo em dia. Quem levasse flores (sim, têm um poder curativo as flores!). Quem percebesse que era difícil ter tempo para cozinhar e que preparasse comida caseira e a colocasse em caixinhas para congelar, que serão usadas quando necessário. Quem a fosse resgatar para um café. Quem lhe levasse a filha a passear e se oferecesse como babysitter. Quem lhe fosse entregar um bolo bonito e colorido, só porque sim. Quem lhe fosse negociar com o veterinário um pagamento faseado da dívida. Houve um veterinário que perdoou a dívida em 50% e houve quem saldasse, com dinheiro que tinha guardado para comprar uma prenda para o seu próprio aniversário, o resto da dívida. Houve quem lhe perguntasse o que fazia falta à menina. Quem lhe oferecesse um lençóis quentinhos e roupa e calçado porreiro para a filha. Houve quem não lhe fizesse perguntas, que apenas a ouviu. Houve pessoas que se juntaram e fizeram uma escala para darem uma ajuda na alimentação e limpeza dos animais.  Houve pessoas que não sendo animal lovers se ofereceram para transportar areia e comida para os bichos. Houve pessoas que contribuíram em dinheiro para comprar um termoacumulador e fazer com que a realidade de terem que transportar panelas de água quente entre a cozinha e a casa de banho deixasse de fazer parte das rotinas de higiene dela e da filha, pois ele já se habituara a tomar banho de água fria há cerca de dois anos (a casa é velha, os canos estão um caos e o custo do arranjo era obsceno). Houve uma psicoterapeuta que ofereceu o seu trabalho gratuitamente. E uma instrutora de reiki, Houve pessoas que descobriram que moravam lá perto e passaram a tocar à campainha só para dizer olá e saber dela. Porque ela importa. Porque eles nos importam.

Ontem voltámos lá. A casa estava bastante limpa e organizada e ela estava de vassoura em punho quando chegámos, o que prova que depois das limpezas gerais eles conseguem mantê-la. Havia novidades no quarto da filha: finalmente trocaram a cama de lugar e a pequena já dorme na cama nova e não no berço, com os lençóis oferecido. A miúda estava eufórica com a novidade e aquilo comoveu-nos: vê-la ali a fazer a sesta no quarto limpo, arrumado e em condições foi o melhor do meu dia!

Veio connosco o Ron, o voluntário americano que lhes instalará o termoacumulador, entretanto comprado.
Ela estava bastante mais animada, Mais activa, mais proactiva e mais enérgica. Ele mais estruturado (já entregou os papéis na creche entretanto escolhida). Acredito que precisavam deste boost de energia, desta sensação de que são importantes para alguém e que há quem acredite neles e no seu potencial! E que há quem torça para que tudo dê certo com eles! Quem tenha limpado os ouvidos e escutasse o seu chamamento.

Ontem quando saímos assistimos a um abraço muito, muito sentido entre o casal quando percebeu que a água quente será novamente uma realidade (já há mais de 2 anos que não é). E ficámos de coração quentinho, quentinho. 

Houve 127 pessoas que não fizeram orelhas moucas, juízos de valor, que não a trataram com coitadinhice, que acreditaram que ela só precisa de um empurrão para voltar aos eixos, que ela é capaz. Houve 127 pessoas que não assobiaram para o lado perante o pedido de ajuda de uma estranha. Deram tempo, atenção, dinheiro, ideias, oportunidades e especialmente amor. Deram na medida do que puderam, conseguiram, valorizaram, da forma como puderam e conseguirem e, especialmente, sem juízos de valor nem cobranças. Tudo isto a  um casal de estranhos.

Este post é para vocês. Para vos agradecer  a todos. Agradecer mais que a generosidade: a empatia. A coragem de não fingirem que não leram o meu apelo em nome deles, a coragem de não fecharem o pc, desligarem a janela do smartphone e irem fazer outra coisa qualquer. Agradeço-vos a todos. A todos não: a cada um cada um de vós.127 pares de mãos, 127 pares de olhos, 127 corações. Uma corrente carregadinha de amor.

Obrigada. 127 vezes obrigada.


(É isto- somente isto- que é o Bairro do Amor. Que bom é morar aqui!)




8 comentários:

Crónicas de Uma Grávida Acamada disse...

Tu és INCRÍVEL <3

Gaivota disse...

Lindo o seu texto.Lindo por todo o amor que transpira e pela inspiração que passa. Fez-me trazer as lágrimas aos olhos , de alegria por saber que há gente assim, gente que se importa , de tristeza por este mundo ser tantas vezes amargo e eu também pertencer ao grupo dos que por vezes olham para o lado, não por má vontade ,muitas vezes por inércia.Obrigada , vou estar mais atenta!

Liliana Marques disse...

Obrigado Liliana por teres posto mãos à obra e teres dado esta grande ajuda à minha piccola sorella. Sei que ela está sem palavras por tudo o que fizeste e eu não sei como agradecer esta tua atitude. Acho que faz parte de nós estarmos lá e é isto que significa a amizade. Estou ansiosa por te conhecer.... mais uma Liliana.


OBRIGADO DO FUNDO DO CORAÇÃO

LILIANA MARQUES

Adriana Álvaro disse...

Eh pá! Tive dificuldade em ler este post por ter sempre os olhos cheios de lágrimas! Parabéns pela generosidade! A si e aos 127! Gostava de poder ajudar.. Diga-me como o posso fazer. Beijos grandes, Adriana

Melissinha disse...

Isto é maravilhoso. Estou com um nó na garganta. Ganhei o meu dia!

Maria Nunes disse...

Este seu post deixou-me comovida. Porque por vezes parece que ninguém vê, ninguém ouve, ninguém tem tempo, ninguém tem disponibilidade.
Mais chocante ainda é que quem precisa de ajuda, costuma ajudar e supostamente integra uma rede de pessoas que se dedica a ... ajudar... mas que curiosamente não está disponível para quem está ao seu lado a ajudar...
Pior ainda quando a ajuda necessária é a que descreve...

Unknown disse...

WOW.....MUITOS PARABÉNS, QUE CORAÇÕES GIGANTES E GENEROSOS!

marta disse...

És uma pessoa incrível Ursa e eu agradeço por partilhares este tipo de atitudes porque talvez assim se consiga que os valores e princípios base da humanidade voltem. Solidariedade, pensar no outro, partilha, amizade, empatia... tenho fé em ti e nos humanos k tocas. A mim tocas-me com certeza =) consegues mudar um pouco o mundo e isso é bom e louvável =)))

Marta =))***

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