quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

Meia noite e vinte e três

                                  

 Meia noite e vinte e três. Eras as horas que luziam no despertador do meu avô. Naquele dia dormi com eles, embora já tivesse nove anos. Lembro-me que me levantei da cama, meio sonolenta, fui até ao quarto dos meus avós e perguntei: "já nasceu?". Ainda não. Mas era Fevereiro e estava frio e aproveitei e infiltrei-me na cama deles.
O telefone preto, de disco, tocou naquele som metálico que os telefones agora não têm. Era a minha mãe e o meu tio. Tinha nascido, à meia noite e vinte e três. Dezassete era o meu dia e agora também o dela, o desta primirmã que iria mudar a minha vida e o meu amor para sempre, soube-o assim que o meu coração disparou com a notícia.
Sempre gostei de ser filha única (ainda gosto). Nunca senti falta de ter um irmão e nunca incorporei os estereótipos de filha única. Gosto da díade que tenho com a minha mãe, gosto do espaço que temos na nossa relação parental, está-se à larga e confortável na nossa vida. Naquele dia de 1990 eu não era  neta nem sobrinha única mas era como se fosse, pois a minha outra prima vivia distante física e emocionalmente. Na prática eu reinava naquela família, único foco de todos. E gostava. Estava bem assim.
Quando ela nasceu senti ciúmes. Chamei mais vezes a atenção. Quando ela cresceu tive que dividir foco, tive que dar o exemplo, partilhar a cama, gramar com Harry Potters e Titanics em looping (e  mais a maldita música), ser a mais velha, tomar conta dela, protegê-la, dar-lhe nas orelhas, encobri-la, quase esganá-la, ter insónias à custa dela, levá-la comigo a fazer de pau de cabeleira, introduzi-la nos festivais de Verão, ajudá-la a safar-se de sarilhos, orgulhar-me, gozar com ela, levar com todas as reclamações de estudante, partilhar a dor em mortes comuns, encontrar conselhos sensatos e ponderados para lhe dar, dar-lhe a minha filha para amar do jeito que só ela sabe, chorar quando finalmente entregou a tese, ficar de coração cheio no dia em que começou a trabalhar, ter um orgulho desmedido por ter sido ela que aquela meia noite e vinte e três me trouxe. Ela e mais nenhuma outra primirmã. Ela que me ensinou uma nova forma de amar, entre pares, um amor de calduços e belinhas, de embirrações e poucas mariquices, um amor de quatro estações no mesmo amor, um amor de sol, às vezes chuva, alguma trovoada e muitas flores, um amor de moches e estrafoganços, um amor desajeitado e bom, um amor de primas que são filhas únicas e que, por isso, tiveram necessidade de se tornar primirmãs. 

Parabéns, caçula! Gosto buéééé de ti!

3 comentários:

Maria José disse...

Que bonita declaração de amor!!!

Joana Oliveira disse...

Também me incluo nos Titanics foste tu que nos levaste num dia 1 de dezembro, dia de almoço das casadas! ;)

Fii ♥ disse...

Que bonito! Adoro essa música !
Beijinhos,
Sofia

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...