sexta-feira, 11 de março de 2016

À Rosa.



[Conheci-te com a sensação estranha de te reconhecer num encontro que soube a reencontro sem nunca te ter visto antes. Não, não me acontece frequentemente. Sou distraída e caótica, ligo a pormenores insignificantes e não reparo em elefantes dentro de uma sala. O teu sobrenome não me dizia nada, não se fez nenhuma espécie de click e atribuo até a alguma burrice não me ter sequer questionado se haveria alguma relação entre ti e aquele que todos sabemos. Sou má de nomes, de apelidos, de horários a cumprir e de timmings para arrancar com projectos. Sou caótica e cheia de ideias, quero concretizar tudo e perco-me nos planos, frustro e sigo em frente. 
Aquela notícia no jornal também não me dizia nada. Não sei o nome das mães das pessoas de quem gosto, admiro ou reconheço. Não procuro saber mais sobre elas do que o que elas me contam ou do que as vivências em comum me permitem, ocasionalmente, saber. Não percebi de imediato que a vassoura que voou para o sítio onde vivem as bruxas boas era dela, tua também. Sou má a dizer que lamento, fico sem jeito mas sinto-o. Não fui capaz de te dizer, escrever nada de jeito e fiquei a remoer até hoje. Não que sintas falta das minhas palavras em concreto, sou apenas uma pessoa que te reconheceu sentada num banco de madeira a contemplar a franja curta e os olhos compridos, a barriga cheia de graça. Há poucas pessoas que reconheço, como há poucas pessoas em cuja pele desejaria morar- um dia que fosse- para saber como é ser-se assim plácida e etérea, criativa e estruturada, cheia de si com toda a sua graça em esplendor. 
Depois ela disse-me "não sabes? é neta de sincrano, filha de fulana", com um ar muito admirado, mas eu sou mesmo assim não sabia, não to soube dizer que triste fiquei quando soube da vassoura que voou, não por ser a vassoura de quem era, mas por ser a vassoura de quem era a ti. E fiquei feliz por seres para mim apenas tu, rosa em flor, que sustenta a raiz e o caule de quem foram os outros a quem te julgam pertencer sem se lembrarem que agora também pertencem a ti, de igual forma, com igual força, porque tu és tu. 
E depois nasceu ele e eu não te soube dizer como sorri ao vislumbrar o pequeno rosto naquela fotografia no facebook e como fechei os olhos e lhe desejei coisas boas, vida augusta, irmãs felizes, pais mais completos, como um pomar de frutas estrambólicas, frutas feitas com agulhas grossas, fios de lãs quentinhos, frutas com cheiro a bebé novo, a estrear.
Queria ter-te escrito algo bonito desde Janeiro e nunca o fiz, estava tudo aqui na minha cabeça, acabei do o ditar agora para os dedos a baterem no teclado. Não sei se alguma vez o lerás. Deixarei que o destino ou o acaso decidam se um dia lerás ou não este post, certa estou que não to reencaminharei. Não me sinto à vontade para to fazer chegar. Afinal, sou apenas uma pessoa que te viu uma vez mas que te reconheceu a ti e à tua capacidade de fazeres com que uma estranha se importe contigo e te deseje, em sussurro, novelos de coisas boas sem fim. ]

1 comentário:

casulo disse...

tão lindo, Pólo :) também gosto muito da Rosa, sem a conhecer. e tenho a certeza que as tuas lindas palavras lá chegarão, ao Pomar.

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