sexta-feira, 11 de março de 2016

Depois fico doente e penso que, de facto, cada qual tem o marido que merece



Não participo em nenhum grupo de facebook para além dos que dizem respeito às minhas actividades de voluntariado. Regra geral não tenho pachorra para perguntas idiotas sobre urgências pediátricas de mães para mães ao invés de consultarem os pediatras dos filhos, de donas de casa que pedem conselhos para a ementa da ceia de Natal (é bacalhau, polvo ou peru, minhas solhas!) ou pessoas que querem comprar coisas online e não lêem as legendas das fotos. Há uma ou dos excepções onde permaneço à data deste post. Aconteceu num desses. 

Um grupo de facebook onde uma das participantes desabafava que estava possessa com o marido porque lhe tinha encomendado determinado artigo e ele trouxera do supermercado um análogo, mas de marca, que custara o quintuplo do preço.

Segue-se um chorrilho de comentários solidários, ali como numa mesa de café ou numa paragem de autocarros, sempre muito semelhante,  sempre muito estereotipada, do tipo "ah, o meu é igualzinho!", "se o meu fosse às compras todos os dias estaria falida!", "o meu é tão mau a fazer compras que nunca me passa pela cabeça pedir-lhe sequer que o faça", "se for sozinha despacho-me muito mais depressa e gasto muito menos", seguindo-se, sem excepção, de comentários assentes em generalizações abusivas como "pfff, homens!", "homens, não se poide viver com eles, não se pode viver sem eles", "se queres fazer uma coisa bem, fá-lo por ti mesma",  "xinapá, homens nas compras é um perigo" e, finalmente alguns "Ah eu já desisti!".

Não resisto e comento.
Comento sem ponta de crítica- juro!- porque acho mesmo que alguns comportamentos estão tão enraizados na cultura matriarcal portuguesa que algumas mulheres nem os chegam a questionar, perpetuam-nos sem capacidade de análise ou sentido crítico, as mesmas mulheres que ficam contentes quando os homens "as ajudam" nas tarefas de casa como se não coabitassem, como se fossem meros figurantes na vida doméstica, como se nos tivessem a fazer o favor de nos ajudarem nas tarefas da casa e da vida de ambos mas que são vistas por nós como sendo nossa obrigação gerir.

E comento: "é começar a tratar de o habituar a ir às compras que dentro de pouco tempo já tem o problema resolvido!" porque acho que isto de não tratar os homens por igual, de os tratar com complacência, de lhes dar o desconto, de os dispensar de tarefas domésticas porque- coitados!- não sabem, não têm jeito, são desastrados, não comparam preços, não são tão hábeis como nós é uma belíssima treta e uma desculpa esfarrapada para as mulheres ganharem "créditos" imaginários na vida doméstica e para os homens não se dedicarem propositadamente às tarefas sedentos de se verem dispensados delas, para não terem trabalho, para não terem que as ouvir, para as deixarem ter a noção e o trabalho que sozinhas fazem melhor, 

Alguém (uma jovem) responde-me que a minha sugestão é a mais difícil, que anda a tentar "domar" o namorado mas que não é tarefa fácil. 
Não resisto e contraponho que "não é difícil. É só não tratarmos os maridos como filhos, seres intelectualmente inferiores ou incapazes de tarefas básicas ou animais de estimação que precisam de ser domados. É só não nos parentificarmos face a eles ou os substituirmos porque eles "não têm jeito". É dividirmos, efectivamente, as tarefas e deixarem que aprendam com a experiência. Tal como aconteceu connosco (não me lembro de alguém me ter ensinado a ir às compras)."

Lembro-me sempre de alguém que, com a Ana recém,-nascida, me ter perguntado: "Ah, mas tu deixas o teu marido dar banho à menina? Não preferes ser tu a embalá-la? Confias nele para lhe mudar a fralda, não achas que se esquece da pomada e do creme e de beca beca?" As minhas hormonas responderam qualquer coisa como "Acabámos, ambos, de ter a nossa primeira filha. Temos a mesma experiência em parentalidade. Nenhum de nós tem experiência prévia com bebés. Porque carga de água é que eu tenho que achar que faço as coisas melhores do que ele? Porque raios é expectável que eu não o deixe fazer coisas, que fique ofendida por me "substituir", porque deverei achar que quando ele está a desempenhar o papel de pai dele, o meu de mãe o pode suplantar? Porque é que ter um pipi me dá mais habilidade do que ele para cuidar da nossa filha?". 
A senhora não me fala desde então. 

O problema do machismo, da disparidade na realização das tarefas domésticas, na gestão dos filhos reside em 95% nas mulheres. E isso, parecendo que não, transtorna-me um bocadinho. 

11 comentários:

J. disse...

Ursa, tão bem! Fervo com estes lamentos, resignados, mas, no fundinho, recheados de algum orgulho. Haja paciência para educar comportamentos enraizados ;)

Verita disse...

Adorei! Como eu concordo.....

Andreia Gaspar disse...

1000000000000000000% de acordo! Mas quando contentamos que partilhamos tarefas com os nossos maridos há sempre alguém que diz tens sorte! Mas eu não lhe chamo sorte....

Petra disse...

Concordo tantooo!!!! é mesmo isso!

Cynthia disse...

Eu podia bem ter escrito isso! Partilho da tua opinião na íntegra. Acho ridículo!

NM disse...

Alguma maturidade que acho que tenho me faz discordar... Claro que não é trata los de totós mas muitas vezes nós mulheres temos uma intuição, um bom senso e um espírito de sacrifício que nos torna mais empática com os miúdos por exemplo. Não esqueçamos que somos diferentes a nível hormonal Tb. E há coisas que eu Tb prefiro não fazer em casa e até agradeço que ele me faça e já vivi muitos anos sozinha... Mas é como em qualquer equipa, há posições que nos são mais naturais e comodas. Quanto aos grupos de facebook eu tenho uma experiência fabulosa de um grupo e mãe para mãe. A sério acreditas que o eu pediatra é mais entendido que uma mãe? Há uma relação um apoio entre mães que não há com um pediatra e ponto.

м♥ disse...

Ando a defender o mesmo desde que tenho idade para perceber estes assuntos! mMs continua tudo a ficar muito ofendido e a achar que eu é que não sou "mulher suficiente" ou que sou "muito moderna" por não me rever no papel de empregada doméstica ou de ser intelectual e fisicamente mais hábil nessas tarefas que atribuem às mulheres do que um homem só porque nasci com um pipi. Haja paciência!

Purpurina disse...

Concordo totalmente. Quando oiço esse tipo de queixas não percebo de todo.
Cá em casa trabalhamos os dois e dividimos as tarefas (todas) por igual.
Quando a nossa filha nasceu também tinham a mesma experiência com crianças: 0. E, juntos, aprendemos a ser pais. Juntos aprendemos a cozinhar, a organizar a casa, etc.
E sempre vi a minha mãe a fazer tudo ao meu pai (inclusive escolher-lhe a roupa para vestir) e depois dizer que ele era um imprestável. Cresci a não querer casar e a não querer nada disso para mim.
Parece-me que estou a manter os dois propósitos muito bem.
Depois até parece mal não ter queixas para fazer do meu namorado. Não tenho. Quando tenho, resolvo-as com ele rapidamente.

Só Entre Nós disse...

Assino por baixo! É exatamente isto!

Sérgio disse...

Mais do que educar o marido/namorado devem educar os filhos e as filhas. Cá em casa ninguêm educou ninguêm e não há nenhuma, isso mesmo nenhuma, tarefa que eu não faça. Como já li algures cá em casa não se dividem tarefas é preciso fazer faz-se e mais nada.
Cá em casa o homem, eu, já vinha educado.
PS: NM então achas que "nós mulheres temos uma intuição, um bom senso e um espírito de sacrifício que nos torna mais empática com os miúdos por exemplo." pois digo-te que sempre fui muito empático com crianças, mais do que a maioria das mulheres que conheço.

Anabela Dias disse...

Já chego um bocadinho tarde, mas ao reler este post lembrei-me de uma situação contada por uma emigrante na Finlândia, cujo marido é finlandês (e ao qual nunca teve que explicar que as tarefas domésticas se dividem): no hospital, depois do parto, entra uma enfermeira, que imediatamente se dirige ao pai e lhe diz (algo do género) "Venha comigo. Vou-lhe ensinar a trocar a fralda e a alimentar a sua filha. Depois você explica à sua esposa. Ela agora está cansada e precisa de descansar."

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