quinta-feira, 31 de março de 2016

Não, ser feliz não é uma escolha.

Em calhando não teres gás para pôr a água a ferver nem comes ovo nem batata cozida, mazé!

Aviso já às pessoas que acreditam que "arrisca-te a viver", "a minha felicidade apenas depende de mim" e apreciam discursos auto-motivadores que este post não é para elas. 

Estamos na era do "ser feliz é uma escolha" e das frases inspiracionais e dos mantras e de mimimi. Educar os filhos para a ideia de "querer é poder" é perigoso e injusto. 

Quando estava a terminar o curso, no tempo dos dinossauros, escolhi estudar a "Teoria da Crença no Mundo Justo" de Lerner e escrever toda a minha monografia em torno dessa teoria aplicada a um determinado grupo de indivíduos. Não vos querendo dar uma estucha de Psicologia Social a teoria, de forma resumida e simples, defende que o ser humano tem uma motivação intrínseca que o leva a acreditar que "coisas boas acontecem a pessoas boas e coisas más acontecem a pessoas más, ou seja, cada um colhe aquilo que merece".  

Por isso, quando nos achamos boas pessoas achamos que coisas boas nos vão acontecer, E que, por essa razão, querer é poder numa lógica de eu sou boa pessoa, logo, mereço coisas boas, logo vou projectar que me acontecem coisas boas, logo, as coisas boas vão mesmo acontecer. 

Do ponto de vista das estratégias de sobrevivência emocional faz sentido que o ser humano desenvolva esta estratégia para sentir que controla o Mundo, para sentir ânimo e força anímica, numa espécie de fé.  Mas não pode, racionalmente, gerir a sua vida com base nesta premissa sob pena de acabar frustrado e deprimido, como se o problema se não conseguir alcançar o que deseja fosse inteiramente seu, vivendo numa culpa e auto-ressentimento sem fim. Querer não é poder. Pode sê-lo, às vezes, quando as circunstâncias e o que não controlamos sopram ventos favoráveis. Mas não é taxativo. 



A realidade, a vida, essa coisa que não controlamos, não é bem assim. Pondo o dedo na ferida: as pessoas que estavam no aeroporto de Bruxelas há duas semanas não iam todas apanhar um avião para o Inferno, não eram merecedoras, com toda a certeza, dos atentados bombistas dos quais foram vítimas. Queriam apenas apanhar um avião e não o puderam fazer, 

Esta coisa do "querer é poder" é do mais desonesto que tenho ouvido/lido. Implica a noção de que os acontecimentos e comportamentos são previsíveis e controláveis por nós, o que não é, de todo, verdade. „Eu posso muito querer ser bailarina clássica mas fiz 835834 operações aos pés e nem sequer consigo meter-me em bicos de pés para apanhar loiça no armário mais alto da cozinha quanto mais fazer uma pirueta. Toda a minha infância e adolescência quis muito ser bailarina e nunca pude. Guess what? Não, não controlamos a nossa vida toda, é mentira, não ensinem isso aos miúdos, não repitam isso em mantras, não partilhem imagens motivacionais falaciosas. 

Por outro lado, as coisas também não acontecem de forma arbitrária. Aquela coisa de que a vida vai-se vivendo e as coisas vão encaixando e resolvendo-se também não me faz sentido. Na vida, como na felicidade, não podemos ser extremistas. 

A felicidade, a infelicidade, a vida, a morte, tudo o que aspiramos ou tememos acontece pela conjugação de factores internos (dos quais somos sujeitos activos) e factores externos (que dependem das circunstâncias, que são situacionais). É importante para nós, enquanto seres humanos, acreditar que temos quota parte de responsabilidade naquilo que nos acontece (e é verdade, temos mesmo, mas é só 50% da quota) para podermos reforçar a nossa auto-estima, manter e reforçar o nosso auto-conceito, manter e reforçar a nossa imagem social, sentir que controlamos as situações e, por isso, sermos mais confiantes e mais proactivos. 

 No entanto, aquilo que em Psicologia chamamos de locus de controle não pode ser considerado um construto unidimensional, pois apresenta uma bipolaridade interna e externa. A interna relaciona-se com a capacidade do ser humano acreditar que é responsável pelos seus esforços e competências e que elas têm uma relação directa de causa-efeito com a felicidade/o sucesso; e a externa, quando esta mesma pessoa acredita que os outros, ou algo externo a ele, também têm acção sobre o que lhe acontece e devem ser variáveis a considerar no alcance dos seus propósitos. 

 Está provada uma correlação positiva entre locus de controle interno e depressão e ansiedade. 

Parem, por favor, de vender as ideias peregrinas de que "querer é poder". Afinal se toda a gente quer ser feliz (seja lá feliz o que cada um entender que seja) porque não somos todos? Terão alguns o felicimocómetro avariado?

12 comentários:

Maria das Palavras disse...

Percebo o que dizes e também acho que é evrdade.Querer não é poder. Aliás, às vezes querer nem é fazer por isso. E depois ainda há o fazer por isso e não pode ser para nós e pronto, porque a vida acontece à nossa volta e é uma força incontrolável.

No entanto, acho que a maior parte das pessoas tem noção disso e quando diz que a felicidade é uma escolha, está antes a dizer que isto: vou escolher ver a parte boa do meu dia em vez das mil coisas ruins que me deram cabo da telha. Também não é garantido que consigamos, mas podemos sempre tentar. E esse bocadinho, sim: depende de nós.

Leididi disse...

O que é lócus?

Marta disse...

Querer é poder. Mas é importante saber o que se quer. Ou, dito de outra forma, é importante definirmos metas e objectivos realistas. No teu caso, querer ser bailarina clássica é uma teimosia pouco inteligente e, como tal, meio caminho andado para a infelicidade. Da mesma forma, uma rapariga flexível e graciosa com pernas e pés fortes pode ter tudo para ser uma belíssima bailarina, mas se lhe impuserem essa carreira tem todas as probabilidades de ser infeliz. As coisas não são tão simples como os discursos motivacionais, mas também não são tão simples como as queres fazer parecer, tendo estudado Lerner ou não.

Lullaby disse...

Concordo plenamente :) a escolha esta mais na perspectiva do que no desenrolar da acção em si.
Porque ha tambem quem aos olhos dos outros seja muito feliz e aos seus proprios nao o seja...

Pólo Norte disse...

Não, Marta, querer não é poder, lamento.
O que defendes é que devemos "querer com reservas" o que contraria toda a lógica do "querer é poder". Só devemos querer o que sentimos que alcançamos? Então como se explicam provas de superação? E se raparigas flexíveis e graciosas com pés fortes quiserem ser bailarinas mas tiverem nascido numa povoação pobre do Médio Oriente vale de alguma coisa elas quererem se o contexto não o permite?
Que as coisas não são simples defendo eu. O que eu não defendo é a parva da conversa simplista e redutora do "querer é poder". Porque não é verdade.


Portanto, presumo que we agree to disagree

Pólo Norte disse...

Leididi,

Já te respondi ao vivo. :P

Sabi disse...

Olá Pólo! Não acho que querer é poder. Mas acho que ser feliz é um estado de espírito que depende muito de uma escolha. Assim se explica porque razão pessoas que têm tido muitas contrariedades na vida são felizes e outras que tem uma vida maia confortável sejam infelizes (isto dito em termos simplistas). Acho que hoje em dia há muita gente infeliz porque não escolhem deixar cair determinados conceitos de felicidade e de como a vida deve ser. Conheço mesmo muitos casos assim. Acho que hoje em dia muita gente escolhe não ser feliz, porque ainda não estão contentes com a vida que têm (querem uma melhor casa, melhor emprego, melhor carro...), como se ser feliz e aspirar a uma vida melhor fossem coisas que se excluissem automaticamente.
Agora, há situações em que essa escolha se torna muito difícil, mas a generalidade dos infelizes do "primeiro mundo", se me faço entender, só não o escolhem por um questão de vaidade pessoal.

Elisa disse...

Percebo perfeitamente o que dizes. Não há pachorra para Gustavos Santos desta vida, ainda assim, considero este tipo de discursos motivadores necessarios nos tempos que correm. Claro que há acudentes, catástrofes e afins, longe do nosdo controlo, mas estatisticamente, a maior parte das pessoas não as sofre e ainda assim foca-se no mau, fica na zona de conforto, queixa-se do seu fado. Muitas vezes, é tudo uma questão de perspectiva e de capacidade de acção. Estes discursos são para aqueles que podem, mas não fazem. E por mim falo.

Sónia Justo disse...

Não controlamos o que nos acontece, mas controlamos a forma como reagimos ao que nos acontece.

м♥ disse...

Esta conversa toda só podia vir de uma Psicóloga, de facto :) Mas concordo plenamente! Esta ideia de que querer é poder, só depende de nós, etc e tal é, como dizes, falaciosa. Há precisamente o lado interno e o externo no nosso locus de controlo, fazendo com que haja uma interação das duas coisas. Claro que por vezes um dos pólos tem mais influência do que o outro, mas há sempre interação. Essa crença de que querer é poder só nos traz, e como também referes, problemas quando ainda assim não atingimos aquilo que queremos (e que não, não está só dependente de nós).

Um dos posts mais interessantes que por aqui passaram.

Patrícia Gonçalves disse...

E até a forma como reagimos ao que nos acontece é muitas vezes difícil de controlar. Requer muita "prática" ;)

MC disse...

Esta coisa do "querer é poder" pode sobretudo ser uma cena muito perversa. Já perdi a conta às crianças com quem lido profissionalmente e que vivem profundamente infelizes à pala destas ideias de superação e do poder que temos dentro de nós e tretas do género. Crianças com limitações tremendas para as quais os pais criaram expectativas fantasiosas e inatingíveis - porque não, querer não é poder - e que conseguem destruir a parca réstia de auto-estima à custa da frustração diária de não conseguirem concretizar os milagres que se espera deles.

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