quinta-feira, 24 de março de 2016

Quando um filho está infeliz, nada mais importa



Imagem: Desfigura (um dos artistas que colaborou no desafio semestral do Bairro do Amor)


A primeira luz pelas frestas dos estores e as manhãs a sucederem-se. O despertador a tocar uma, duas, três vezes intercalado com movimentos bruscos para o calar. Ele a acordar primeiro que toda a família, gosta assim. Oiço-o na cozinha a beber o seu café da manhã em silêncio e a fumar o cigarro proibido, antes de eu resmungar que lhe faz mal, antes da miúda fazer coro comigo. Depois, uma a uma, acorda-nos. Desperta-nos. A cada uma da maneira que sabe que nos aborrece menos (temos ambas mau acordar). Começa o barulho e a correria. O pequeno almoço partilhado, eu a vesti-la e a calçá-la, ele a penteá-la, ela gosta assim que cada um tenha as suas tarefas, a mochila feita de véspera a tira-colo, melhorámos os nossos tempos das corridas da manhã, diminuímo-los para metade desde o início do ano lectivo, vamos a cantar até ao Jardim de Infância. 
 Saímos de casa, agora, sempre a tempo de chegarmos a horas como se as horas finalmente se tivessem acertado com as vontades e as emoções. O pai veste-lhe a bata à entrada, arranjo-lhe o cabelo e dou-lhe um beijo na palma da mão que ela encosta, de imediato, ao coração, numa espécie de amor de reserva que ela guarda naquele gesto para quando sente saudades de nós: eu e ela, nós numa cumplicidade sem fim.



Cumprimentamos, agora, a nova educadora, a Ana mudou de sala, já não faz birra de manhã, já não somatiza, já deixámos para trás o mês de martírio que vivemos em família, nós e as noites não dormidas, as noites em claro a embalá-la, as noites a querer que a dor que ele sentia pudesse ser transferida para nós, nós e a sensação de impotência, nós e os médicos, nós e o tio Luis que é enfermeiro, nós e os médicos especialistas, nós e os avios da farmácia, nós e os cremes caros, as análises, as colheitas, as zaragatoas, as rezas e a aflição que nunca sentiramos, nós e as reuniões na escola, nós e a frustração de não percebermos que ela somatizava porque se sentia infeliz,  nós a confrontarmo-nos com os pais que somos e com os psicólogos que não conseguimos ser para a nossa filha, nós e a culpa- essa puta!-, nós e todas as decisões cheias de receio de errar que tivemos que tomar.
Já não faz birra de manhã, já se identifica com estes colegas, já não brinca sozinha, já pode jogar acompanhada o jogo simbólico que adora, já quer colocar colares bonitos ao pescoço e levar cromos para trocar, já não chora para ficar, já nos diz adeus com confiança, já conta o que fez durante o dia, já partilha canções novas que aprendeu, já conta histórias que ouviu da boca da nova educadora, já se sente confiante e integrada, já não se queixa de dores, já não fica em silêncio- minha pequena leoa-, muitas vezes já não quer voltar quando a avó a vai buscar à tarde, já aceita sem lágrimas e com uma cumplicidade feliz o beijo que lhe deposito, todos os dias de manhã, na palma da mão e que ela transporta até ao seu pequeno peito, com a alegria de quem fica feliz e confiante e de quem fecha os olhos durante o dia para se confortar com o beijo de reserva que todos os dias parte de mim. De mim para si. 
Foi um início de ano civil mau. 
Quando um filho se sente infeliz, nada, mas mesmo mais nada importa até que o Mundo gire no movimento de rotação e translação certo e tudo fique novamente em ordem. A ordem de ter um filho feliz. A ordem do beijo que lhe deposito na mão seja transportado por ela até ao coração, e ambas o sintamos como um afago e um colo, com serenidade e conforto, enfim. 

5 comentários:

Sabi disse...

Olá pólo norte! Desculpa estar a querer intrometer-me neste assunto que vos afectou tanto... mas isto de ser mãe traz mil receios. Será que podiam aprofundar mais este assunto? De um ponto de vista "cientifico", sem expor a Ana... por cá também queriamos adiar a entrada no j.i. até aos 3 anos: temos a possibilidade de o fazer e custa-nos ter o menino tantas horas longe da família quando ainda é essencialmente um bebé... como é que se detectam/evitam/tratam estas situações em que a escola provoca tanto mau-estar?

Su disse...

Olá
Também gostava de perceber o que correu menos bem. Conseguiram perceber se foi pela educadora, pela escola ou pelos colegas? O meu filho quando entrou para o JI com 2 anos e meio, foi para uma sala mista (meninos dos 3 aos 6) e também não correu bem.

Pólo Norte disse...

Olá a ambas,

A Ana não se adaptou à composição do grupo da primeira sala onde esteve integrada e somatizou.
Depois de excluídas todas as hipotéticas causas físicas/biológicas para as queixas recorrentes tratámos de usar as ferramentas que a nossa formação académica e experiência profissional nos puseram ao dispor e confirmámos a suspeita de somatização.
Depois de detectada à causa falámos com os responsáveis da escola e procedemos às alterações que considerámos mais adequadas para reverter o quadro e tudo passar a correr bem.
Passou já um mês e notamos claras e inquestionáveis melhorias mas estamos em observação. Acho que até ao final do ano lectivo. ;)

Cumprimentos a ambas de mãe para mães

Isis disse...

Fui pesquisar o que era somatização já que não tinha conhecimento de tal.... e pelo que entendi são sintomas fisicos com origem psicológica correcto?
Como se contorna esta questão? Desculpa a pergunta mas fiquei curiosa por motivos que se prendem com o meu filho mais velho....

Sabi disse...

Obrigada Pólo Norte :) espero que tudo corra bem com a Ana e que agora possa gozar o j.i. como deve ser! O pão de lopes foi certamente um bom incentivo :p

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