quinta-feira, 14 de abril de 2016

Dia-1: Os Açores nunca me farão estremecer*

 Uma viagem nossa para os Açores nunca começa no dia 0. Porque para isso era preciso que corresse tudo nos conformes, aquela coisa de correr tudo como planeado, sem sobressaltos, coisa para gente organizadinha, previsível, enfadonha e… sortuda!
Na ante-véspera da partida lembrei-me de olhar para os documentos do voo e para a validade do meu cartão de cidadão. Expirada há 3 meses. Assim como o passaporte (expirado há um ano). E todos os documentos possíveis inviabilizados.
Tive um micro-segundo de pânico, “ai jasus, ai jasus, que vai o pai e a filha e eu fico em terra” e depois procurei soluções. Onde? No facebook. Claro: “ó da guarda, ó da guarda: há alguém que me acuda?”. Entre pessoas que tinham a certeza que eu não podia viajar com os documentos provisórios se no dia seguinte fosse renovar o cartão de cidadão, a pessoas que não só tinham a certeza como já tinham viajado com os documentos provisórios em voos domésticos como era o meu caso, a pessoas que não senhora, tens que fazer um cartão de cidadão com extrema urgência, outras a dizerem-me que me davam um BI dos antigos se eu pedisse e ficava tudo legal, outras a sugerir-me que viajasse com o cartão caducado que ninguém dava por isso e outras a dizerem-me que se fossem a mim ficavam mas é em terra que era um sinal dos Deuses (que no meu caso não estão loucos, são mesmo uns alcoólicos de primeira apanha), li de tudo. 
Na manhã seguinte, segui os conselhos mais prudentes e com menor grau de risco, não fosse o homem embarcar-me com a miúda rumo aos meus sogros e bye bue, Pólo Norte, evadiam-se para a terra do queijo para não mais voltar. Meti-me a caminho de Lisboa depois da Eva (uma distinta leitora deste blog) me ter feito passar a gostar mais de escuteiros/escoteiros e ter feito a boa acção do dia/mês/ano indo para a loja do Cidadão das Laranjeiras às 08h30 da matina e ficando a guardar-me senhas consecutivas para eu poder ser atendida antes das 11h (só nessa hipótese os cartões de cidadão com extrema urgência conseguem ser emitidos e entregues no próprio dia). Entre sms e para-arranca na A5 e na 2ª circular eu fui a senha 10, a 17, a 23, a 37 e, finalmente, a 43 (a ver se não me esqueço de jogar com estes números no Euromilhões). Entrei na loja do Cidadão das Laranjeiras como quem corta a meta de uma maratona e fiz o cartão de cidadão em 11 recordistas minutos! Literalmente.
Ignorei que a senhora me sacou 1 cm da altura (podia ter subtraído um ano na data de nascimento mas não, deu-lhe para ali, promovendo-me a hobbit, portanto), não intelectualizei, bebi um café com a Eva (obrigada, minha querida!) e fui trabalhar. Às cinco e meia lá estava, no edifício J do Campus de Justiça e em 30 minutos tinha o cartão de cidadão novo. Tudo direitinho. Tudo despachado. Tudo (estranhamente) demasiado fácil.
Cheguei a casa tarde, fizemos as nossas malas umas três horas antes de termos que sair de casa rumo ao aeroporto (a Ana já tinha feito a dela três dias antes pois andava numa ansiedade que só visto) porque nós somos recordistas a fazer malas, dormi ali num intervalo e eram seis da manhã e estávamos a ir para o aeroporto. Frescos e fofos. 
Check in fácil e rápido. A cadeira da Ana ainda nos garante prioridade no embarque. Ana feliz e bem disposta, tendo em conta as horas a que saíra da cama. Comprámos-lhe um livro para a viagem, Família controlada, ordeira e tranquila.
Entrámos no avião e tirámos a fotografia da família feliz. Cintos de segurança postos, a  estucha das regras de segurança, o plano de fazer uma soneca até à ilha e ahhhh… Uma hora depois no mesmo sítio mas com a Ana menos bem disposta, toda recostada em 63423 almofadas e a fazer tendas com as mantinhas da SATA. A capitão avisa que há uma avaria num dos computadores de bordo e pede-nos que desembarquemos para a equipa de manutenção proceder à reparação e a testes. Saímos (carregados com a Ana mais almofadas mais mantas que isto é filha do pai dela, tem o gene da acumulação), a Ana ao nosso colo olha para a Portela de frente e faz a pergunta sacramental: “Chegámos aos Açores, mãe?”.
Voltamos às portas de embarque, a Ana estava mais impaciente, já estávamos por tudo (até bagels comemos, imaginem, e comer bagels nesta família é bater no fundo) e duas horas depois chamaram-nos para um novo embarque. Here we go again. A Ana sentou-se, a hospedeira querida achou que a miúda não tinha mantas que chegassem e ofereceu-lhe mais uma e outra almofada (e a Ana confidenciou-lhe a nossa real pelintrice confessando que em casa temos imensas iguais- a culpa é de mámen que traz sempre uma em cada voo que isto quem nasceu para pelintra nunca sonhará com uma casa de sonho que não esteja toda mobilada com móveis do IKEA) e… mais 1 hora na pista, a Ana em modo burro do Schrek (“Já chegámos? Já chegámos? Já chegámos?”) e nós nem a pista de outro ângulo haveramos visto  quando veio a constatação final: o avião estava mesmo com uma avaria e o voo cancelado.
Nisto já eu ligava para a Santa Romina- padroeira dos sata-aflitos- e percebera que hoje não chegaria à ilha. Uma hora e meia à espera das malas nos tapetes, carregada com 6278254 almofadas e 3521459 mantas, Ana a perguntar “isto é o aeroporto dos Açores, pai?!”, cheias de fome, já na converseta com todos os passageiros (beijinho ao moço que ganhou o “The Voice” que conseguiu controlar o vozeirão para lhe dar o “amok” que nos apetecia a todos) e duas alternativas: ou ficaríamos num hotel muuuuito simpático de Lisboa (e eu, pelintra para não destoar, disse logo que em último recurso pois que sim, de borla até injecções nos olhos, ir agora a casa sujar loiça é que não!) ou iríamos para S. Miguel e logo se via.
Como nesta casa lidamos bem com os imprevistos, o que nos estava mesmo a chatear era a barrigada de fome com que estávamos todos e queríamos era tratar disso que a barriga não tem culpa da miséria, alinhámos na segunda opção.
E é assim, que 35 euros de extrema urgência de um cartão de cidadão que não precisava da extrema urgência, menos 1 cm no lombo, doze horas depois (na verdade treze mas agora estou em horário açoriano e aguentem-me!), 3 aviões, 2 ilhas, 3 fatias de pizza no bucho patrocinada pelos vouchers da SATA,752 fotografias depois e progressivamente de família feliz a família mal encarada, muita kima de maracujá na fraqueza que dei cabo do stock do carrinho do avião, 2524329 almofadas e 4724328 mantas depois estamos na ilha. Não na que deveríamos estar, mas isso agora não interessa nada!
Na prática vamos ter que correr atrás do prejuízo (viemos em trabalho!) mas é tudo uma questão de perspectiva: a nossa jornada começa amanhã. Hoje é o dia -1, portanto.

Coriscas mal amanhadas do meu coração, tirem as kimas da friza: cheguei!

Amanhã? Amanhã logo se vê! Adaptando a máxima daquela grande filósofa, Elsa de Arendelle: os Açores nunca me farão estremecer*…

(* Pelo sim, pelo não, nunca fiando, vou ver a previsão sismológica para a manhã...)

3 comentários:

Gorduchita disse...

Que grande atribulação!
Faço votos que hoje tudo corra bem melhor!

Framboesa (uma diva de galochas) disse...

Ha uns anos atras soube que exigiam passaporte eletrónico para uma viagem que eu tinha marcada.Soube isso 2 dias antes da viagem.Tinha marcado voo para NY, estadia de 5 dias, cruzeiro de uma semana no caribe, voo de regresso.E nós tinhamos que fazer 2 passaportes a pressa (quase 200 euros, coisa pouca)e arriscavamo-nos a perder o valor de uma das viagens mais caras da nossa vida...por isso...saudações solidárias. BTW, os nossos passaportes foram os ultimos a ser entregues, a malta la do sitio entrou em greve nesse dia. :D

CoriscaRuim disse...

Efetivamente, os Açores não tremeram...mas, pelo sim, pelo não, tivemos um simulacro de sismo lá na escola, não fosse o Demo tecê-las e a Sra. Dona Ursa ajudar à festa!

God save Santa Romina!

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...