sexta-feira, 8 de abril de 2016

E se fosse eu a Joana Vasconcelos?

Tinta sobre toalha de papel de mesa de tasca. Autoria: Prezado


A Plataforma de Apoio aos Refugiados desafiou os alunos a colocarem-se no papel de um refugiado e a decidirem o que colocariam nas suas mochilas se tivessem de fugir. Gosto da ideia, gosto muito, numa espécie de exercício de descentralização e empatia, de "calçar os sapatos do outro", mesmo que seja só um exercício conceptual, não importa. Reflectir acerca do assunto é melhor que evitar pensar sobre nele ou nem sequer imaginar-se.
Em formação comportamental aplico, muitas vezes, um exercício de dinâmica de grupo análogo (aplico-o em contextos vários como em módulos de "trabalho de equipa" ou "técnicas de negociação" que pergunta aos formandos o que as pessoas levariam consigo em caso terem que sair de casa à pressa mediante a previsão de uma catástrofe natural) e, invariavelmente, de todas as vezes que me confronto com o exercício reflicto.
A maioria das pessoas na era pré-digital dizia "fotografias" porque as memórias são mesmo importantes para o ser humano e as relações emocionais com os objectivos, numa reflexo de impulso, são as que emergem de imediato. A par das "fotografias" muita gente assume "os animais de estimação", o que causa sempre discussão nos grupos (os animais de estimação, para a maioria das pessoas, não deveria sequer constar no imaginário de quem os escolhe, uma vez que não são objectos). Relativizo sempre, defendendo que são objectos de amor e rio-me. Depois há os verdadeiramente objectivos, os que dizem que levariam mantimentos, água potável, soro ou benuron, meios de comunicarem (e há os escuteiros que dizem sempre que levariam uma lupa e um canivete-suiço, coisa que a maioria das pessoa não se lembra de imediato). Há os que levariam cartões de multibanco e dinheiro, tecnologia que lhes permitisse comunicar (um telemóvel com carregador solar, já ouvi inúmeras vezes esta opção). Na era digital, o computador seria levado por grande parte das pessoas com quem tenho discutido este exercício, ora porque guarda documentos que permitiriam o regresso atempado à actividade profissional, conectar-se de outra cidade, poder aceder às fotografias guardadas no disco ou comunicar via redes sociais.
Cada um pensa e escolhe aquilo que é importante para si e se eu priorizo água potável porque sem água morro, há quem não tenha essa visão e morreria por dentro sem uma fotografia dos ente queridos. Há quem precisasse de roupas limpas, um kit de primeiros socorros, protector solar, sinalizadores, bússula e mapas, cadernos e canetas, o seu peluche que guarda desde pequeno, um colete salva-vidas. Cada um sabe de si e das suas necessidades, como aliás tenho vindo a defender.
Este exercício é meramente especulativo e aborda a hipótese de termos tempo para preparar uma mochila, em caso de catástrofe natural com aviso de recepção. Na vida real, muitas vezes, não há tempo para pensar. O meu sogro teve que fugir do colégio interno em Angola onde vivia só com a roupa no corpo e a mãe dele saiu da fazenda a correr com o avô de Mámen trazendo os filhos pequenos em cada braço e as jóias cosidas à pressa, durante a viagem de fuga, na bainha da saia. Sim, as jóias. 
Desta feita, o desafio era mais real. Era mais próximo. Era imaginarmo-nos em situações de fuga caso fossemos nós, e não os sírios, os refugiados. 
Desta vez estou com a Joana Vasconcelos. Diz a senhora que levaria o seu caderno e lápis para poder fazer desenhos. O seu iPad e phones para ouvir música e todas as jóias portuguesas. Levava as lãs e a agulha para qualquer eventualidade e o seu iPhone,
Não me choca. Não acho muito diferente que a Joana leve caderno e lápis para fazer uma actividade que a relaxe e não considero que levar ipad e phones seja muito diferente que o Markl quando diz que levaria papel e caneta para "manter a imaginação viva", Não acho muito diferente que a Joana gostasse de levar lãs e agulhas tal como o Marcelo Rebelo de Sousa gostaria de levar uma Bíblia ou um livro difícil de ler para "ocupar muito a cabeça" conforme disse o Virgílio Castelo.  Não acho estranho que a Joana quisesse levar o iPhone para conseguir comunicar. 
E as jóias. Lembro-me sempre da avó de mámen que trouxe a roupa do corpo, os filhos a tira-colo, papéis da UNITA e da MPLA (para mostrar conforme quem a interceptasse) e as jóias cosidas na bainha da saia. 
Para servirem de moeda de troca caso precisasse de valores para garantir a sua sobrevivência e dos seus. Assim o fez.
Eu não sou a Joana de Vasconcelos. Mas consigo não a julgar sem treinar a minha empatia com ela. 
Não era de empatia que tratava esta campanha?


9 comentários:

Pedro disse...

Eu, que tenho enorme empatia pela Zézinha Nogueira Pinto (Deus a guarde em paz e eterno descanso), quando saio do dentista, lembro-me sempre de uma entrevista em que contava como teve de vender um anel Cartier para comer após o 25 de Abril.

(as jóias são também objectos emocionais)

Gorduchita disse...

Completamente. As pessoas estão sempre prontas a atirar pedras aos outros sem perceberem que têm telhados de vidro.

Élia Baptista disse...

A verdade é que ser refugiado já e por si uma condição tão desumana que ter objetos que nos lembrem a vida que levavamos pode ser um bom mote para lutar pela sobrevivência. E quem sabe a Joana com o seu Ipad ainda animava uns quantos refugiados quando estes já não tivessem comida.
Ah, e lembrem-se:os telemóveis têm mapas e ainds localizam onde a pessoa está . O que me parece ser bastante útil ��

Eolo disse...

Em dinâmicas de grupo também faço um exercício semelhante, já ouvi pessoas dizerem que levavam as cinquenta sombras de Grey, computadores e outras coisas.

Eu sei o que responder de forma treinada, o canivete, saco-cama, muda de roupa, antibióticos, antipiréticos e outras coisas mas não sei o que me passaria pela cabeça, levaria de certeza coisas de valor unicamente emocional ou que me oferecessem algum tipo de conforto.

Choca-me o que já vi escrito sobre a Joana, e insultam a aparência e o trabalho dela porque é isso que é relevante. Eu não vi a reportagem, não acredito que o que se quisesse fosse uma lista repetida de itens de sobrevivência, para isso bastava passarem episódios de Walking Dead, o objectivo (e aqui em teoria) talvez seria saber o que é que as figuras públicas considerariam importante, se é o iPad ou o iPhone, não são dela? Qual é o problema, isto (como tu escreveste) é a cena da Pepa outra vez e das pessoas que através dos seus iPhones e iPads arrotam postas de pescada sobre o que são prioridades individuais.

Considero-me extremamente fútil, se me fizessem a pergunta também iria dar uma resposta que para as alminhas da "decência" seria considerada fútil ou estúpida.

Mas daqui a uns dias esquecem tudo, esquecem o que escreveram porque já têm outra coisa igualmente "indignante" para arrotar postas de pescada.

Parem o mundo que eu quero sair.

PS - Obrigado pelo tempo quando me respondeste (Marco).

Prezado disse...

Lembro que há algum tempo, umas almas andavam muito indignadas porque os tais refugiados a sério tinham telemóveis, os chulos. Pareceu-me - pode ser só enviesamento meu - que os mesmo que vieram defender os refugiados são os mesmo que hoje atacam a gorda por levar um iPad ( ou será o tricot? ) na mochila.

No meio disto, o mais cómico é que NINGUÉM levaria na mochila o suficiente para sobreviver ao que quer que fosse sem uma estratégia pré-definida. Eu por exemplo, não posso levar mais que 5 kgs de tralha, seja água, bifanas ou apara-lápis: as minhas costas não dão para tanto, ponto final. Por isso, barda merda.

Andreia Santos disse...

A minha família é toda, materna e paterna, retornada. Quando disse que saia com a roupa do pelo e os sapatos na mão para calçar quando houvesse necessidade, projectei-me invariavelmente no meu pai, quando saiu de Angola desta maneira, sem aviso prévio. a minha mãe conseguiu fazer a mochila e a verdade é que 30 anos depois, continuo-o a ouvi-la falar como se esta tivesse vindo apenas cheia de ar.

Helena Velho disse...

Penso que o que choca e a mediatizaçao do seu oportunismo e da sua falta de empatia com o drama , terrível, dos/as refugiados/as. É isso podemos e devemos analisar e levantar a voz. Não são as jóias que fala levaria. O meu avô trizes pedras precisas no forro da gravata e permitiu lhe recomeçar, com imensas dificuldades, uma nova vida num Portugal que nunca o tratou bem por ser um retornado. A deus da campanha nunca deveria dar azo a publicidade gratuita e a humilhações encapotadas. E isso, sim isso, podemos e devemos criticar sem nunca deixarmos de calçado os sapatos, mesmo que sejam de mau gosto, da Joana Vasconcelos. E a minha opinião é como tal do vale como isso. Beijinho

São disse...

Eu por acaso quando ouvi, pensei nas jóias como moeda de troca para bens essenciais... Não sei se foi essa a ideia dela se não foi...

Sofia P. disse...

A minha família também é toda "entornada" como diz a minha mãe (não retornaram pq já meus avós nasceram em angola). Obviamente as jóias vieram, veio também um papagaio q morreu há poucos meses e vieram muitos albuns que perco horas a analisar, sempre q os abro.

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